Mônica Bulgari

Mônica Bulgari

Mestranda em Linguística pela UNICAMP e Voluntária da 1ª Conferência Internacional SSEX BBOX & MIXBRASIL.
Contato: monicabulgari@gmail.com

Fui convidada pela produção do SSEX BBOX para falar um pouquinho sobre a pesquisa que desenvolvo no Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) da UNICAMP, sobre as tirinhas de Laerte. Selecionei duas tirinhas para dar uma pequena amostra de como realizo a análise.

Em uma entrevista concedida à revista Trip, em 2010, Laerte, que à época já era reconhecida pelo seu trabalho nos principais veículos de informação de São Paulo – por obras como Deus e Piratas do Tietê – conta como surgiu seu interesse em se vestir de mulher. Em 2009 teve seu primeiro contato com a comunidade crossdresser e se aproximou de pessoas que também problematizam a relação entre gênero e identidade. A partir dali, as questões se ampliaram para muito além do vestuário: foi inaugurado em Laerte um percurso que ampliou toda sua concepção não somente sobre sexualidade, mas também sobre subjetividade e identidade. Laerte deu início a um caminho no qual tateia e assimila novas concepções em relação a si e ao símbolos que a rodeiam. Tornou-se militante de uma causa que está bombando nestas primeiras décadas do século XXI em todas as partes do mundo. A questão de gênero não está somente nos lugares que antes a restringiam a concepções do bizarro, do artístico, e da extravagância: o gênero ocupou definitivamente seu lugar na política de Estado.

O projeto que desenvolvo atualmente no Departamento de Linguística da Unicamp, sob orientação da Profª Drª Suzy Lagazzi toma a saga da personagem Muriel/Hugo em suas inúmeras questões ilustradas pelas tirinhas de Laerte. Minha intenção é investigar os caminhos da formulação do sentido através das imagens e textos, com foco na questão da sexualidade, e também analisar o modo como a crítica social é construída.

O papel da Linguagem na questão de Gênero

A filósofa estadunidense Judith Butler propõe um posicionamento pertinente em uma de suas mais importantes obras, Problemas de Gênero:Como a linguagem constrói as categorias de sexo?” (Butler, 2003, p.10). Sabemos que instituições como a midia, a família, a escola e o governo influenciam aspectos estruturais do nosso pensamento, que também é afetado pelas múltiplas operações de nossa mente e de nossa subjetividade. A Análise do Discurso Materialista – minha área de estudo – propõe analisar o caminho da consolidação deste sentido: por que quando falamos uma frase como “Isso não é coisa de mulher”, isso é compreensível (e de que forma?) entre os nossos interlocutores? Por que – e como – isso faz sentido?

Foi na primeira reunião da organização para a realização da 1ª Conferência SSEX BBOX & MIXBRASIL que pude bater um papo rápido e informal com Laerte sobre minha pesquisa. Ela comentou sobre as reações de pessoas próximas que a questionavam sobre a sua identidade: “Mas você é o quê, de fato?”. A queixa de Laerte diz respeito à necessidade das pessoas em se encaixarem em padrões estabelecidos, lineares e correspondentes entre si. Esse é o movimento esperado, fruto de séculos da reprodução de um discurso que se baseia na continuidade entre corpo/sexo/desejo/gênero. Essa continuidade aparece nas tirinhas de Muriel de forma sarcástica e muito inteligente – esse é mais um motivo que me fez escolher a produção de Laerte como objeto de estudo.

“As estruturas jurídicas da linguagem e política constituem o campo contemporâneo do poder; consequentemente, não há posição fora desse campo, mas somente uma genealogia crítica de suas próprias práticas de legitimação. Assim, o ponto de partida é o presente histórico, como definiu Marx. E a tarefa é justamente formular, no interior dessa estrutura constituída, uma crítica às categorias de identidade que as estruturas jurídicas contemporâneas engendram, naturalizam e imobilizam”
(BUTLER,2003, p.22)

Essa tirinha é uma das minhas favoritas. O funcionário do aeroporto impede o acesso de Muriel, alegando a existência de algum problema em relação ao seu presente estado. A imagem traz elementos que a caracterizam como um homem travestido de mulher. Muriel rebate a pergunta problematizando o pronome de tratamento utilizado pelo funcionário. O que acontece em seguida é uma ruptura da formação do sentido imbricado pelas formações discursivas emitidas pelo funcionário do aeroporto, que conclui que os pronomes de tratamento é que caracterizam o problema. A última pergunta de Muriel causa um efeito de humor justamente porque rompe com o desenvolvimento do sentido proposto no primeiro quadrinho.

muriel702

A ruptura com a dicotomia entre o masculino e o feminino é uma das principais diretrizes da formulação de sentido das tirinhas de Muriel. Nesta tirinha, temos a figura de um homem, que é caracterizada pela ausência de seios, pela toquinha sob a qual é colocada a peruca, além do espartilho, dos cílios exaltados e da maquiagem. Ele está se preparando para se caracterizar como uma mulher. O processo de montagem sugere o desejo da personagem, de “ser uma mulher de verdade”. Aqui, o corpo é interpretado e se interpreta na busca de uma correspondência entre o físico e a identidade social. Ao ser questionado sobre a impossibilidade de se tornar uma mulher de verdade, a personagem se confunde, o sentido é rompido. O corpo, nas tirinhas de Muriel, é o suporte material pelo qual o sentido é formulado e explorado.

muriel643

Nossas identidades e subjetividades são formatadas em muito pela linguagem, por isso é fundamental o desenvolvimento da consciência do funcionamento desse mecanismo. Além disso, quero chamar atenção sobre como os meios de comunicação e principalmente os sistemas educacionais abordam esse assunto. Não somente com associações rasas como “azul é cor de menino e rosa cor de menina”, mas por meio de construções e utilização de um léxico que em si carrega uma história de opressão e ingenuidade diante das inifinitas possibilidades de identidade. Como cientista, devo prezar por uma metodologia que garanta o estatuto científico de meu trabalho, produzir conhecimento e ajudar em nossa compreensão da realidade. Porém, como militante da questão, reconheço e reitero a relevância e genialidade de Laerte para a desconstrução de percepções que não correspondem à realidade de uma sociedade que cada vez mais precisa aceitar a liberdade de ser justamente aquilo que somos, ainda que (pelo menos por enquanto) essa noção só exista na esfera do “indizível”.

Todas as tirinhas foram extraídas do Blog Muriel Total