Por Luis Saraiva

Por Luis Saraiva

Psicológo e pesquisador. Foucaultiano apaixonado. Clariciano angustiado. Curioso em saber como nos tornamos o que nos tornamos. Apreciador do inadequado. Conversa com o vento e fica em silêncio. E prefere não.

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A 2ª Conferência Internacional [SSEX BBOX] & Mix Brasil transformou o Centro Cultural São Paulo em um espaço onde muitas pessoas se sentiram compreendidas em pontos importantes de sua luta, além de promover a reflexão sobre novas estratégias de enfrentamento à homofobia e à transfobia.

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Homens que curtem homens, mas que são héteros. Héteros passivos. Gays. De tempos em tempos, a mídia, sobretudo facebookiana, tem nos presenteado com notícias desse tipo, alimentando debates infindáveis, que quase sempre chegam à mesma conclusão: homem que curte homem seria gay e, se assim não se apresenta, seria enrustido e viveria uma farsa. Claro que parte das discussões diz respeito à desqualificação e ataque a esses sujeitos, referidos de modo intensamente pejorativo.

Mas nesse mundo tem de um tudo. Tem quem se relaciona oficialmente apenas com mulheres; tem quem se relaciona com todo mundo; tem quem se relaciona apenas com homens. Tem quem apenas manja rola em mictórios por aí; quem não curte beijo de barbado; que curte apenas sentir o corpo de outro homem; quem curte penetrar e/ou ser penetrado. Quem só deixa mamar; quem é macho discreto e não curte afeminados. Quem é, dá pinta e é afetado. Quem frequenta o meio e quem não frequenta. Quem não é passivo de jeito nenhum. Tem casal de homens que quer adotar uma criança. Quem mora com um “amigo” com quem anda para cima e para baixo. Quem é enrustido e vive no armário e quem é militante e hasteia o arco- íris por onde passa. Quem namora “uma pessoa”. Quem casa no papel. Quem namora com vários. Quem transa com vários. Quem não transa. Quem parece e quem não parece. Enfim, os exemplos não param. Mas seriam todos gays?

Seriam gays todos aqueles que têm desejos por homens? Mesmo esses desejos sendo múltiplos, de naturezas, intensidades e experimentados de diversas maneiras? O que me chama a atenção é que parece haver uma confusão de ideias, afinal, a experiência gay não passa de uma experiência homoerótica datada. Um modelo, uma possibilidade de homoerotismo, entre tantas outras.

Um modelo com suas regras: homens sobretudo de classe média, intelectualizados, urbanos, masculinos e cuja feminilidades está circunscrita a situações específicas, como no convívio com o grupo de amigos gays, no gosto musical e na preocupação com a aparência. Um modelo que, ao longo do tempo, vai sendo tomado como o modelo normal para experiências homoeróticas, acirrando a diferenciação entre gays e os outros modelos, sobretudo os mais afeminados, como as chamadas bichinhas. Daí, um modelo que se intensifica como modelo, também por mais tolerável pelo mundo em que vivemos.

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Quer dizer, ser gay é algo que ultrapassa o desejo e o uso que fazemos de nosso corpo. Ser gay é uma questão de identidade. Algo que necessariamente é construído na experiência coletiva, social e que é atravessada por valores, expectativas e concepções de um tempo. Algo que dá forma a existências, que conforma existências. Algo que diz quem somos e o que somos e o que podemos ser. Afinal, uma nomeação estabelece fronteiras entre o que se é e o que não se é e se inculcam normas, regras para nossa existência. E gay tem sido uma identidade construída de modo bastante estável, fixa, autêntica, tendentemente universal e que – importante destacar – dificilmente conseguimos alcançar.

O psicanalista Jurandir Freire Costa, em seu já clássico livro “A inocência e o vício: estudos sobre o homoerotismo”, defende que, ao longo do tempo, o homoerotismo vem sendo transformado em homossexualidade – um reducionismo incapaz de descrever a diversidade de experiências dos sujeitos com inclinações homoeróticas. Falamos, então, de um processo de modulação de experiências múltiplas e incontáveis, aprisionando-as em regras, funcionamentos, repetições e parâmetros. Normatização de existências, ora. E aprisionamento de possibilidades.

Quer dizer, aquilo que necessariamente é múltiplo vira uma coisa só. Constróise uma tal identidade gay, única, monolítica, marcada por desejos, práticas, expectativas supostamente comuns e universais, como se sempre tivessem existido e existissem em todas as culturas e sociedades. Múltiplas histórias se tornam uma só. E usa-se a mesma régua para coisas bem distintas.

A saída para isso? Poderíamos pensar na ampliação das possibilidades de definição de quem somos. Mas essas definições continuariam a se dar dentro da ordem heteronormativa e misógina que produz a necessidade dessas categorias e diferenciações, sempre tratando de modo pejorativo aquilo que foge da heterossexualidade e que remete ao feminino, como vemos nos tais g0ys – que merecem uma discussão à parte. Também podemos buscar suportar a caótica falta de definição para aquilo que podemos ser, sentir fazer com nossos corpos.

Definições? Prefiro não. Ainda que tivesse que preferir, que fôssemos viados. Com i.