Tupiniqueens

Tupiniqueens

País de produção: Brasil
Ano: 2015
Duração: 79 minutos

Muito desse movimento aconteceu por causa do programa “RuPaul’s Drag Race” – um reality-show de Dragqueens surgido em 2009 que ascendeu o movimento das Drags de forma global. Com o estigma do desafio binário entre gêneros, o documentário mostra que esses não são os únicos desejos das personagens.

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A ideia do longa é registrar um movimento artístico corajoso, de forma sensível, aproximando o mundo das artes com o cotidiano das pessoas. A câmera serve de observadora das personagens, que transcendem o estereótipo masculino entre um rímel, uma base, uma peruca – ou a falta dela – e passam a carregar uma nova história, cheia de significados e significantes; um personagem, um elemento, um ser que não teme em transitar pelos gêneros.

“É iluminação, é cabelo, é maquiagem. Isso é ser uma DragQueen. Será?” O questionamento colocado pela veterana da cena Drag brasileira, Márcia Pantera, 45, (sendo 27 como Drag) ilustra uma das primeiras cenas do longa-documentário “TupiniQueens”, cuja estreia aconteceu no 23 Festival Mix Brasil, em novembro de 2015.

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Se é por profissão, diversão, realização, ato político ou todas as opções juntas, as Queens trazem sempre algo em comum, sendo cada uma a sua forma. A pluralidade dos desejos é o caminho trilhado nas entrevistas, que ressalta como cada uma antropofagia suas referências e cria suas performances a sua forma. Existe um leque de possibilidades, e o que interessa é mostrar que, seja qual for o processo, são todas artistas cheias de alma, contribuindo com a quebra de padrões sociais e fazendo movimentar cada vez mais esse universo.

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Existem pontes que unem e influenciam a arte Drag, esteja onde ela estiver. Suriani é uma dessas pontes. Fazendo arte de rua e lambes de até 3 metros, o artista retrata artistas Drags brasileiras e internacionais nas ruas de São Paulo e Paris. Se “RuPaul” deu a largada em mudar o olhar das pessoas sobre a cena, o Brasil que sempre teve figuras emblemáticas na noite, mais uma vez se destaca com novos talentos e abre as portas para receber com carinho as Queens que participaram do programa. Em todas as personagens existe algo além da luz, maquiagem e cabelo. Existe também uma essência cheia de energia que é colocada pra fora em suas performances avassaladoras, que sai da estereótipo que define os seres em feminino ou masculino.

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No documentário, não existem conclusões, nem limitações. Apenas um olhar sobre como essa cena é. Tirando o foco dos padrões estéticos e mostrando que é muito mais de uma essência festiva, artística e devoradora que surgem as TupiniQueens.

Trailer:

O [SSEX BBOX] convidou João Monteiro diretor e roterista do filme para uma entrevista:

Qual é a sua identidade de gênero e como você classifica sua orientação sexual?​

Me identifico como cisgênero. Mas isso torna-se confuso, uma vez que eu não rejeito aspectos considerados femininos, quando se enquadram na minha visão de mundo.

O mesmo vale para a minha orientação sexual. Sou homossexual, mas não imponho limitações no que diz respeito a atração ou relacionamento com pessoas do sexo oposto.

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Você acha que falta informação disponível ao público sobre gênero e sexualidade e que todo esse preconceito ​é ​fruto de ignorância?

Existe falta de informação, mas também existe muita informação desencontrada. É o revés da internet, a pior forma de usá-la: informação rasa, conteúdo líquido, que não discute com a profundidade e o cuidado necessários. E muito se replica, sem ter a compreensão real do todo. De todo modo, acredito que cada vez mais discussões sobre esse tema nos fazem compreender o quão plural é a questão, e confesso que eu mesmo ainda estudo para derrubar certos equívocos. Acredito também que essa seja uma discussão contemporânea, de certo modo, pois vivemos há centenas de anos (na sociedade ocidental, principalmente) sob determinados padrões comportamentais, que por sua vez determinam posturas bem específicas a cada gênero. Ainda falta informação, e a mudança é gradual. O preconceito é sim fruto da ignorância, e ele não deve ser tolerado, mas sim combatido com educação.

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Você acha que toda essa polêmica​ dos Religiosos Fundamentalistas pode ajudar a trazer mais consciência a sociedade de uma forma geral?

No Brasil, em razão de nossa colonização portuguesa e da instituição da Igreja católica como religião oficial durante anos, temas como identidade de gênero e orientação sexual, ainda que anteriormente não entendidos dessa forma, sempre foram polêmicos. Atualmente, o cenário é um pouco diferente: De um lado existem aqueles que seguem esse fundamentalismo religioso, e que inclusive transportam tais conceitos para a política através de seus representantes que insistem em ignorar a laicidade do Estado, e por outro lado existem aqueles que estão dispostos a lutar a favor da pluralidade humana e do respeito, no sentido mais geral da palavra. A consciência coletiva é um pouco generalista, mas certamente essas discussões podem trazer mudanças. Questionar a sí mesmos e ao mundo que nos cerca é o principal aspecto positivo estimulado por essa polêmica.

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O que é ser homem? O que é ser mulher?

Ser homem, ser mulher, ou ambos, ou nenhum, tudo isso está relacionado com a forma com que você se identifica e se relaciona com o mundo, com a forma com que se projeta. Definir, nesse caso, pode ser limitar. Ou não, se a adequação em determinado gênero traz sentido, conforto e identificação. Num mundo tão plural, é um pouco delicado encaixotar conceitos.

Como você ve o potencial de filmes como o teu em trazer conhecimento e mudança social?

Em “TupiniQueens”, exploramos um recorte da cena drag. Particularmente, foi a humanização desses personagens que me aproximou do tema e que me ajudou a compreender todas as suas nuances. Sigo aprendendo, na realidade. E é aí que está o real potencial dessas obras. O cinema é uma ferramenta que vai muito alêm do entretenimento, e vemos exemplos disso ao longo da história da humanidade. O cinema serve para propagar idéias. Leni Riefenstahl foi uma cineasta alemã que teve grande responsabilidade no êxito da propaganda nazista de Hitler. Com um pouco mais de sutileza, Godard, Truffaut, entre tantos outros, instigaram transformações na forma de enxergar o mundo através da sua arte. Anna Muylaert deu um tapa de luva de pelica na cara da sociedade conservadora brasileira, que emerge de forma assustadora. Não são temas necessariamente novos, mas que vivem adormecidos, embarrigados, e o cinema traz luz, discussão, mudança. Espero que, assim como foi pra mim, a experiência de “TupiniQueens” abra os olhos da nossa sociedade para o humano por trás de todas as camadas de maquiagem e roupas espalhafatosas.

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Como você acha que e possível financiar mais filmes LGBT no Brasil incentivando o crescimento da produção brasileira nesse seguimento?

Essa é uma questão importante, e difícil de sanar. Eu digo isso, porque ainda não descobri como. “TupiniQueens” foi uma produção independente, um esforço conjunto de um pequeno grupo de amigos empenhados ao longo de um ano para tirar o projeto do papel. De outra forma o filme não teria sido realizado, pois não houve patrocínio ou incentivos financeiros. Felizmente conseguimos parceria com uma produtora que nos cedeu equipamento de captação em dado momento do projeto, e estrutura técnica para a finalização. Mas a grosso modo, desde o transporte para as mais de vinte diárias de filmagem, até a equipe, alimentação e qualquer suporte que tenha sido feito necessário, foi investimento pessoal dessa pequena equipe.

Fazer cinema custa caro, existe muita politicagem por trás, muita burocracia, uma série de fatores que vão minando as possibilidades. E o cerco se fecha ainda mais para produções de temática LGBT. Como incentivar esse tipo de conteúdo se muitas vezes não passamos pela peneira da censura? Beijos gay ainda são censurados nas nossas novelas, mas uma cena de estupro é tolerada. Da pra acreditar? E estamos falando do maior canal da televisão brasileira, que também domina a maior fatia das produções cinematográficas (pelo menos as que chegam até o grande público). Solução? Por enquanto, ir na raça! Ainda precisamos brigar muito por essa e outras tantas demandas, como os padrões estéticos, o racismo, as disparidades absurdas entre os gêneros. A solução é a resistência!

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Ficha Técnica:
Direção: João Monteiro
Roteiro: Fernando Moraes, João Monteiro e Karol Bueno
Assistente de direção: Renato Bueno
Produtora: Karol Bueno
Assistentes de produção: Fabíola Cavalcanti e Renato Bueno
Casting: Camila Gomes
Direção de Fotografia: João Monteiro
Assistente de fotografia: Victor Barbeiro
Câmeras: Fabíola Cavalcanti, João Monteiro, Lucas Bueno, Lucas Rangel, Thalita Nardi e Victor Barbeiro
Captação de áudio: Bernardo Ballion, Lucas Rangel e Renato Bueno
Montagem: Fernando Moraes
Assistente de montagem: Victor Barbeiro