Jota Mombaça

Jota Mombaça

Jota Mombaça é também Monstra Errática e MC Katrina. É uma bicha não binária do Nordeste do Brasil, que faz estudos acadêmicos em torno de monstruosidades, perspectivas kuir e descoloniais, feminismos, contra-humanismos e ficções especulativas; faz também falatórios, arte de ação e funk. Ama rebolar.

Há uma narrativa corrente acerca de como queer emergiu no campo das micropolíticas contemporâneas, a partir da revolta de Stonewall Inn nos Estados Unidos, no fim dos anos 60-começo dos 70. Por essa perspectiva, antes de tornar-se um discurso teórico com respaldo acadêmico em escala global, queer marca uma posição política radical, que problematiza as normatividades sexual e de gênero no contexto das lutas por liberação que tiveram lugar nos Estados Unidos – e em outras partes do mundo – nesse mesmo período.

A estratégia queer por excelência é a da reapropriação da injúria e a consequente afirmação da diferença marginalizada como ponto de vista privilegiado para uma crítica antinormativa da normatividade. A partir de um giro radical, é a criatura queer – desobediente de gênero e dissidente sexual – que se posiciona no centro da corpo-política contemporânea, reivindicando um corpo, uma voz e uma ética inteiramente diversas com respeito àquela imposta pelo domínio da heteronormalidade.

Afirmar essa narrativa, que tributa ao ativismo queer estadunidense o marco genealógico de toda prática teórica que hoje inunda os arquivos acadêmicos do mundo, tem o efeito de descentrar o eixo lógico da produção de conhecimento. Afinal, se queer é antes uma chave de ação política e um princípio agregador de experiências, corpos e vidas postas à margem do sistema heterocapitalista, qualquer saber que queira daí desdobrar-se deve assumir para si uma politização incontornável, que não apenas balance os domínios epistemológicos consagrados pelas tradições teóricas do pensamento hétero, mas que também desafie gramáticas, ginásticas, posições e práticas de vida projetadas como norma pela heterossexualização da vida.

Ocorre que, por efeito de sua própria internacionalização enquanto conceito-chave e enquanto programa para práticas e discursos desobedientes quanto às normatividades de gênero e sexualidade, queer participa não de um, mas de diversos cenários de emergência distintos. Embora haja uma história oficial do queer vinculada compulsoriamente ao eixo da genealogia estadunidense, os modos como essa palavra-chave penetrou os múltiplos vocabulários locais fez proliferar outras narrativas. Em resumo: o queer de Pindorama, do sul quente dos trópicos, não emerge a partir dos mesmos processos que o queer de cima.

Aqui, por exemplo, antes de informar diretamente os ativismos cotidianos de pessoas translésbixas, queer aparece como evento acadêmico. Isso não implica necessariamente uma despolitização total, nem define de partida o todo das possibilidades de apropriação do queer nos trópicos, mas certamente envolve numa representação da academia e das instituições como campos de batalha o eixo central de luta e politização queer no Brasil. Se houve aqui um ativismo queer inaugural, este foi experimentado majoritariamente no âmbito da institucionalidade acadêmica.

O queer de Pindorama emerge, assim, de um movimento inverso ao da história oficial do queer estadunidense: vai da teorização à ética; é antes uma abordagem do que um modo de vida e sua geografia afetiva é menos a da boite, da noite, das tretas de rua, dos inferninhos e cantos escuros, do conflito com a polícia, e mais as das salas de aula e corredores departamentais das instituições de produção de conhecimento formal. Esse queer forjado por meio de artigos científicos e teses de doutoramento, ainda que se rebele parcialmente contra os enquadramentos teóricos hegemônicos, não consegue escapar completamente das modulações do campo que o envolve: como evento acadêmico, queer articula sua rede de sujeitos objetificados, projeta seu arcabouço de ficções teóricas e formula suas próprias analíticas socioantropológicas, históricas e estéticas, projetando sobre o aqui-agora das relações de gênero e sexualidade um vocabulário novo, repleto de taxonomias autoproclamadas as mais corretas para lidar com os fenômenos da dissidência corpo-política nos trópicos.

Hija de Perra, em seu ensaio “Interpretações imundas de como a teoria queer coloniza nosso contexto sudaca, terceiro-mundista e pobre de aspirações, perturbando com novas construções de gênero aos humanos encantados pela heteronorma”, ao refletir sobre as insuspeitas continuidades entre queer e colonialidade no contexto sul-americano (especialmente o chileno), apresenta – tendo como ponto de partida a própria experiência – uma crítica ao caráter de interpelação que o queer adquire quando aqui chega. Ao falar de si como “uma nova mestiça latina do Cone Sul que nunca pretendeu ser identificada taxonomicamente como queer”, Perra atribui aos teóricos de gênero a responsabilidade pelo seu encaixe nesse eixo classificatório, revelando assim o quanto a proliferação do referencial queer no nosso contexto historicamente marcado por efeitos de colonialidade e subalternidade dependeu, ao menos inicialmente, desse ato de dar nome levado a cabo por meio de iniciativas teóricas relativamente separadas dos movimentos de vida que tem caracterizado as existências dissidentes sexuais e desobedientes de gênero no mundo sudaca.

Assim, embora teoricamente as abordagens queer confrontem a noção de identidade como fixa, e se pautem tanto numa desnaturalização radical das posições de sujeito quanto numa relação de resistência perante as imposições e assujeitamentos corpo-políticos, elas não deixam de produzir como efeito, a partir de sua emergência nos trópicos, isso que Hija de Perra põe em evidência: um gesto simultaneamente colonial e perturbador, que precipita a própria captura antes mesmo de chacoalhar de fato a ordem contra a qual promete insurgir-se.

LEITURAS

Hija de Perra. Interpretações imundas de como a teoria queer coloniza nosso contexto sudaca, terceiro-mundista e pobre de aspirações, perturbando com novas construções de gênero aos humanos encantados pela heteronorma. Disponível:

http://www.portalseer.ufba.br/index.php/revistaperiodicus/article/view/12896