Por Magô Tonhon

Por Magô Tonhon

Coordenadora de Relações Institucionais do [SSEX BBOX] Brasil. Mulher trans, bissexual, filha de Oxum Opará, é arquiteta e taróloga, criadora do Canal Voz Trans* no Youtube. Mestranda em cultura, educação e saúde na USP, pesquisa gênero e sexualidade.

Tradução (para o português) e organização de Magô Tonhon.
Entrevista original e tradução (para o francês) de Melanie Gourarier, Gianfranco Rebucini e Florian Voros.
URL da entrevista original: http://migre.me/u428V

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A 2ª Conferência Internacional [SSEX BBOX] & Mix Brasil transformou o Centro Cultural São Paulo em um espaço onde muitas pessoas se sentiram compreendidas em pontos importantes de sua luta, além de promover a reflexão sobre novas estratégias de enfrentamento à homofobia e à transfobia.

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Raewyn Connell, professora de sociologia na Universidade de Sydney, estava presente em Paris em junho passado como parte dos estudos “Masculinidades sob o prisma da hegemonia” na École des Hautes Etudes en Sciences Sociales. Oportunidade para falarmos sobre sua trajetória enquanto pesquisadora e sobre a história e as atuais abordagens críticas das masculinidades.
Após ter consagrado suas pesquisas sobre as dinâmicas de classe (Ruling Class, Ruling Culture, 1977) e as relações entre classe e gênero nas escolas (Making the Difference, 1982), Raewyn Connell desenvolveu uma teoria de gênero enquanto estrutura social (Gender and Power, 1987). Ela publicou, em 1995, a obra Masculinidades, rapidamente traduzida em várias línguas europeias, bem como japonês, chinês e hebraico, entre outras. Esse livro é uma referência importante para as ciências sociais e para o desenvolvimento dos estudos sobre as masculinidades (masculinity studies).

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Os estudos da masculinidade foram, em particular, constituídos em torno do conceito da “masculinidade hegemônica”, que aparecia na Austrália nos trabalhos de sociologia da educação no início dos anos 1980, antes de experimentar sua primeira formulação teórica em um artigo de 1985 (CARRIGAN; CONNELL; LEE, Towards a new sociology of masculinityRumo a uma nova sociologia da masculinidade). Raewyn Connell avança em seguida para uma conceituação renovada desse conceito (Masculinities, 1995/2005; Hegemonic Masculinity: Rethinking the Concept, 2005 – Masculinidades, 1995/2005; Masculinidade hegemônica: Repensando o conceito, 2005), em que ela discorre sobre novos temas: a saúde, a sexualidade, a colonialidade (“Southern Theory” – Teoria do Sul, de 2007) e a globalização (“Gender: in world perspective” – Gênero: uma perspectiva global, de 2009). Esse conceito tem como objetivo analisar os processos de hierarquização, normatização e marginalização das masculinidades, impostas para algumas categorias de homens, através de um trabalho sobre eles mesmos e sobre os outros, sua dominação às mulheres, mas também à outras categorias de homens.

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Para começar, gostaríamos que você voltasse no contexto do surgimento do conceito de masculinidade hegemônica. Como você explica que o projeto dos estudos das masculinidades tenham sido formulados pela primeira vez na Austrália dos anos 1980?

Saiba, primeiramente, que não há mais que cangurus e crocodilos na Austrália! Mais seriamente, é importante lembrar que a Austrália é um país predominantemente urbano, economicamente dependente da exportação de minerais e produtos agrícolas. Na primeira metade da década de 1980, o país passou por uma profunda transformação cultural e estava prestes a atravessar uma transição econômica importante. Um desvio histórico é necessário para entender esse contexto singular.

A Austrália moderna é o resultado da invasão europeia sobre um território ocupado desde pelo menos 40 mil anos pelos povos indígenas que desenvolveram ali uma cultura e uma relação complexas com a terra. Os colonos derrubaram as sociedades aborígines em quase todo o continente (apenas um terço da população aborígine sobreviveu), para estabelecer ali um posto avançado (no sentido militar) masculinizado do capitalismo europeu, especializado no comércio de matérias-primas (lã, minerais, trigo, carne) com a metrópole.

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As ondas migratórias europeias, associadas a políticas de desenvolvimento do estado, geraram cidades e infraestruturas orientadas em torno da indústria de exportação. A população colonial branca desenvolveu uma ideologia racista (cuja extensão contemporânea é a política da “Austrália Branca”), uma identidade nacional masculinizada e de uma cultura dependente, leal o suficiente aos olhos do Império Britânico. O século XX viu o surgimento de uma economia industrial e de um Estado de bem-estar social associado a um sindicalismo forte, ainda que uma vez dominado pelos homens, assim como o aparecimento de uma burguesia industrial. Essas transformações produziram efeitos como a aceleração do desenvolvimento e a modernização do sistema educativo.

Os anos 1960 e 1970 viram o surgimento de contestações dessa ordem social. Primeiro com o renascimento político e cultural aborígine, que culminou no movimento pelo direito à terra [“Lands Rights movement”]. Um movimento estudantil iconoclasta foi, então, o laboratório de uma contracultura, do qual um movimento ecologista especialmente surgiu. Um movimento pela paz, em seguida, se opôs contra o envolvimento da Austrália em guerras imperialistas. O que nos interessa mais diretamente nesta história é o surgimento de uma contestação feminista do patriarcado australiano que foi formulado na época, rapidamente seguido pelas lutas gays e lésbicas contra a repressão e a discriminação sexual.

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O movimento de libertação das mulheres foi particularmente influente durante os anos 1970. Algumas feministas se aproximaram de grupos modernizadores dentro do Partido Trabalhista, implantando assim a sua influência no coração do estado. Outras criaram programas de women’s studies (estudos da mulher) na universidade, transformando as formas de estudar a história, a literatura e a sociologia. Em termos mais gerais, o impacto cultural do feminismo permitiu o surgimento de dúvidas e questionamentos sobre o sexismo e a subordinação das mulheres nos domínios da educação, dos meios de comunicação e mídia, da sexualidade, da vida familiar, do trabalho e do sindicalismo.

Vários fatores, de certa maneira, convergiram no início da década de 1980 e permitiram um questionamento acerca dos homens e da masculinidade. O militarismo e heroísmo durante a guerra tinham sido fortemente criticados pelo movimento pacifista. A masculinidade heterossexual era questionada pelo movimento de libertação gay; e à medida que se desenvolvia a epidemia do HIV / AIDS, foi a masculinidade gay que igualmente se viu questionada. As ciências sociais colocaram em xeque a “naturalidade” das formas dominantes de masculinidade. Uma série de avanços feministas tinham sido obtidos por meio de alianças com os homens dentro do Partido Trabalhista e das burocracias estatais, a questão do envolvimento dos homens em mudanças positivas nas relações de gênero também ganhou visibilidade.

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Por outro lado, os(as) dois(duas) maiores romancistas australianos(as) da era moderna são também uma mulher, Christina Sead, e um homem gay, Patrick White; não se pode, portanto, falar de um poderoso establishment cultural patriarcal na Austrália.

A Nova Esquerda e a contracultura deram aos jovens intelectuais de minha geração o sentimento de que qualquer instituição podia e devia ser contestada. A expansão do sistema universitário (como parte da política de modernização do estado australiano dos anos 1940-1970) deu a muitos de nós uma base institucional e de recursos para a pesquisa.

Esses anos constituem, portanto, um momento histórico em que os muros que protegiam a masculinidade convencional se rachavam repentinamente, enquanto novas coalizões emergiam e desenvolviam novas perspectivas.

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Por que mobilizar o conceito de hegemonia, mais que outra conceituação de dominação, para examinar as masculinidades?

O conceito de hegemonia já estava circulando na esquerda australiana nos anos 1970 para pensar as relações de classe. Mobilizamos esse conceito para analisar o poder de empresários e políticos conservadores em um país que tinha um movimento sindical muito forte e um Partido Trabalhista capaz de vencer as eleições. Esse conceito é, de qualquer modo, um elemento central do quadro teórico de Ruling Class, Ruling Culture¹.

O termo veio de Antonio Gramsci. Parte de seu trabalho estava disponível na época, em tradução em Inglês ou sob a forma de comentários. Seu nome era conhecido. Havia uma migração italiana em torno da Austrália e a esquerda australiana seguia de perto notícias do Partido Comunista Italiano (que cultuavam Gramsci), dos rumos italianos e do Eurocomunismo. Eu tinha também estudado o conceito num contexto diferente, no âmbito do Ensino Superior da Universidade de Melbourne. Eu estava então estudando a política grega dos séculos IV e V a.C., de onde vem a ideia de “eghemon” como uma aliança de forças políticas².

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O emprego do termo “hegemonia”, em seguida, mostrou-se necessário, uma vez que tratou-se de analisar uma configuração específica das relações de gênero, uma situação em que a centralidade, a liderança e o poder de uma minoria tinham sido estabilizados; e na qual essa predominância era menos imposta pela força do que organicamente integrada com a cultura e as rotinas da vida cotidiana.

Eu sempre fui muito reticente diante das teorias funcionalistas e das teorias da reprodução social, tanto as que vinham da direita quanto da esquerda, e as que envolvem classe ou gênero. Quando essas teorias são o trabalho de intelectuais conservadores (como Parsons e Easton), tornam-se parte integrante da ordem hegemônica. E mesmo quando essas teorias partem de pensadores mais progressistas (como Althusser, Bourdieu ou Poulantzas), essas teorias tendem a inibir, em vez de aumentar, a capacidade do agir militante. Minha relutância em relação a essas teorias desenvolveu-se durante meu trabalho com os professores de escolas públicas, a quem nada contribuiu para explicar o fato de que eles e elas estão condenados(as) à reprodução das hierarquias sociais. Isto, cujo eles e elas necessitam, são de teorias que se abram para práticas pedagógicas de transformação social.

Em Rethinking the concept (“Repensar o conceito”) (³) você retorna aos usos, críticas e traduções culturais cujo conceito de masculinidade hegemônica eram objeto. Qual foi, por sua vez, o efeito dessa noção globalizada do conceito em seu próprio trabalho?

É paradoxal. A proliferação globalizada de pesquisas sobre masculinidades é tal que eu não sou capaz de acompanhar tudo. Eu me esforço para ler sobre, o mais possível e muitos(as) artistas são aqueles(as) que têm a gentileza de me enviar o seu trabalho – às vezes em idiomas que não consigo ler, mas isso sempre me interessa!

Esse retorno global dos estudos sobre a masculinidade deve nos deixar atentos(as) para a dimensão coletiva da produção de conhecimentos, bem como quanto ao caráter internacional da força de trabalho envolvida nesse processo. As ciências sociais anglófonas tradicionais são muito autorreferenciais e não se confrontam o bastante com os outros contextos geográficos e culturais. Ao contrário de alguns dos meus colegas ingleses, eu creio que a minha visão mais desconfiada e mais complexa de questões relacionadas com a masculinidade tem origem da minha localização às margens do Pacífico Sul e de minha colaboração com os(as) pesquisadores(as) para além da metrópole.

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Esse trânsito globalizado das ideias, como eu tenho, obrigou-me, ao longo do tempo, a questionar alguns dos pressupostos constitutivos da primeira versão do meu modelo de hegemonia nas relações de gênero. A ironia é que agora eu me dou conta de que esse modelo inicial, na verdade, compartilha muito com os sistemas teóricos fechados que eu também tentei superar! Uma melhor compreensão da história do colonialismo, das sociedades pós-coloniais e suas dinâmicas de gênero me forçou a reconhecer que não podemos tomar como pressuposto, ponto de partida, a existência de uma ordem de gênero do tipo estável. Primeiro, porque as ordens de gênero pré-coloniais não são em si mesmas, estáticas. Mas, principalmente, porque a colonização destruiu as estruturas sociais locais e suas dinâmicas, que eram próprias. Posteriormente, o colonialismo reconstruiu – ou tentou reconstruir – uma ordem de gênero com novas bases; mas o que resulta disso é uma sociedade com tensões exacerbadas e uma violência endêmica. As relações de poder pós-colonial globalizadas repetem essas dinâmicas e conflitos em novos termos. Comparado ao modelo original, hoje eu concebo a hegemonia como uma tentativa de realização do poder [“achievement of power” – conquista do poder] mais repleta de contradições, historicamente transitória e mais diretamente ligada à violência.

Como estudos sobre masculinidades podem contribuir para a luta contra o machismo e a resistência perante a ‘reação contrária’ (blacklash) antifeminista?

Há dois aspectos nessa pergunta. Os estudos da masculinidade são, antes de tudo, um projeto de produção de conhecimento: investigar, teorizar, publicar, difundir. Eu creio (mas trata-se aqui de uma crença cega que vem pelo legado do Iluminismo e pelas tradições protestantes e socialistas em mim) que a produção de conhecimento e a educação pública são capazes de fazer recuar os pré-julgamentos e o obscurantismo. Uma base de conhecimentos sólidos e acessíveis sobre questões relacionadas às masculinidades é em si um recurso social.

O outro lado dessa questão, mais político, diz respeito às formas em que as ideias deste corpo de conhecimento podem ser empregados na luta por igualdade de gênero. Uma importante contribuição dos estudos das masculinidades aqui pode consistir apenas na apresentação de provas – agora bem documentadas – que as masculinidades são diversas e historicamente mutáveis. O dogma da rigidez dos personagens masculinos (ou femininos) é, na verdade, uma parte essencial da caixa de ferramentas dos reacionários em matéria de gênero, cujo a linguagem é pseudocientífica ou pseudorreligiosa. Agora podemos demonstrar, baseados em provas, o absurdo desse dogma.

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Ele também pode ser importante para mostrar que os homens não se beneficiam em massa (“en bloc”) (4) dos dividendos masculinos gerados por uma ordem de gênero patriarcal. Há muitos diferentes níveis de benefícios e certos grupos de homens realmente pagam um preço elevado (em pobreza, em violência, em depressão) pela manutenção da ordem de gênero em vigor. Isso significa que alguns homens (e seu número é cada vez maior) vão colher os benefícios da transformação progressista da ordem de gênero e, portanto, podem ser aliados na luta pela mudança. Tais coalizões surgiram no seio da geração anterior (5) e continuarão a emergir. Elas estão atualmente sendo construídas. Um exemplo, dentre outros, é o engajamento dos homens em programas de investigação e de ação contra a violência de gênero com o qual eu trabalho no Sudeste Asiático.

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Você é, basicamente, conhecida na França como uma socióloga especialista das masculinidades. No entanto, seus primeiros trabalhos concentram-se nas relações de classe e os trabalhos mais recentes centram-se na globalização e na colonialidade do poder. Como se articulam essas três dimensões?

Minhas primeiras publicações foram, de fato, sobre a conscientização social e política das crianças (eu recuperei algumas ideias de Piaget) e sobre o direito político eleitoral na Austrália. Estou agora no mundo da pesquisa por mais de quarenta anos e trabalhei sobre uma vasta gama de questões que vão desde a educação escolar até a teoria social crítica, passando pela análise de gênero, sexualidade e prevenção de HIV, o trabalho dos(as) intelectuais, ou reforma do Estado – e muitas outras coisas, disponíveis no meu site www.raewynconnell.net

Esses diferentes projetos não são necessariamente ligados por uma coerência. Eu me empenhei em responder aos problemas públicos, às crises e aos novos pensamentos em toda sua emergência. Eu trabalhei em meio a uma dúzia de equipes de pesquisa que mobilizavam, cada uma delas, diferentes estilos e métodos de investigação. Seria errado dizer que cada um desses projetos era parte de um grande projeto crítico coerente.

Mas penso que há conexões entre esses projetos. É, em todo caso, a tese convincente de Demetris Z. Demetriou, que estudou cuidadosamente as ligações entre a minha pesquisa sobre relações de classe e aquelas sobre relações de gênero (6)… E devo confessar que é um pouco assustador ver seu próprio trabalho sujeito a uma leitura tão rigorosa!

Eu acho que a minha investigação sobre masculinidades, relações de classe e colonialidade do saber partilham de um mesmo compromisso crítico em torno do poder, das desigualdades sociais, da institucionalização dos privilégios e da justiça social no seu sentido mais amplo.

Eles também compartilham uma consciência histórica – um dos meus trabalhos mais conhecidos na Austrália se intitula, além disso, “Class Structure in Australian History” (Estruturas de classe na história da Austrália)(7) – e, portanto, a atenção para as mudanças estruturais e as lutas sociais . É uma abordagem que me parece essencial para qualquer investigação – mesmo que localizada – conduzida por uma preocupação com a justiça social.

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Essas agendas de pesquisa têm em comum o foco em dar conta da textura da realidade, a matéria rugosa dos processos sociais e da irredutibilidade das pessoas, experiências e instituições. Durante esses anos, as entrevistas biográficas e a análise por estudos de caso foram as ferramentas que eu mais utilizei. É um método lento, trabalhoso, nada automático. Ele é único para dar conta da complexidade das situações locais, do pulso das dinâmicas globais. Esse método também leva os(as) pesquisadores(as) a interagir com as pessoas “em carne e osso”, mais que as rotinas científicas que tendem a abstrair através do seu léxico, “sujeito”, “ator”, “agente”. Eles e elas são então forçados(as) a tratá-los com respeito, mesmo quando suas práticas sociais são detestáveis. Eu, por exemplo, me encontrei nessa situação durante minhas entrevistas com empresários.

Em Southern Theory (Teoria do Sul), você propõe uma outra alternativa de produção de conhecimento em Ciências Sociais. Quais são as implicações dessa abordagem crítica nos estudos de gênero e, em particular, para o estudo de masculinidades?

A tese Teoria do Sul tem muitas implicações para estudos de gênero. Eu dedico justamente uma parte importante do meu mais recente trabalho para o estudo dessas implicações.

Em uma palavra, o que queremos dizer com a teoria do gênero é, de fato, uma teoria das relações de gênero oriundas da metrópole global, isto é, Europa e América do Norte. Não é de se estranhar que essa teoria faz sentido a partir da experiência social específica para essas regiões. Por mais óbvio que possa parecer do ponto de vista da sociologia do conhecimento, isso raramente é levado em consideração nos estudos de gênero tal como são empregados.

Ora, esses países não se desenvolveram de maneira isolada: estamos falando aqui das metrópoles coloniais do passado e dos centros do capitalismo global de hoje. Esses países construíram uma economia global do conhecimento em que a cidade é o lugar da teoria e a periferia (onde vive a grande maioria da população mundial) é o local da coleta de dados. A produção de conhecimento na periferia é fortemente subordinada aos conceitos, teorias, metodologias e paradigmas da metrópole. Este é o modelo que, em geral, se aplica aos estudos de gênero.

As sociedades colonizadas têm sido, no entanto, forçadas a pensar a colonização independentemente dos colonos. As sociedades periféricas continuam a produzir um trabalho intelectual em contrassenso dessa economia dominante do conhecimento. Isso é o que eu chamo de “Teoria do Sul” [southern theory], que não é um “saber indígena” estático, mas uma resposta intelectual para a experiência social da colonização e para as sociedades pós-coloniais de hoje. Teoria do Sul fala de uma ampla gama de projetos intelectuais conduzidos em diferentes continentes. O livro é parte de um movimento teórico mais amplo e crescente, que mostra a riqueza do pensamento social oriundo do Sul, incluindo Alternative Discourses in Asian Social Science (Discursos Alternativos nas Ciências Sociais Asiáticas)(8), de Farid Alatas, Provincializing Europe (Provincializando a Europa)(9), de Dipesh Chakrabarty, ou ainda Theory from the South (Teoria vinda do Sul)(10), de Jean e John Comaroff.

Re-Orienting Western Feminisms (Reorientando Feminismos Ocidentais)(11), de Chilla Bulbeck, é um livro que mostra a proliferação do pensamento feminista através do Sul. Há também excelentes revistas feministas, como Cadernos PAGU e Estudos Feministas, no Brasil, Feminist Africa (África Feminista), na África do Sul, Indian Journal of Gender Studies (Jornal Indiano de Estudos de Gênero), na Índia, Debate Feminista, no México, al-Raida, no Líbano, ou então o Australian Feminist Studies (Estudos Feministas Australianos), na Austrália, com os quais os(as) pesquisadores(as) da metrópole podem aprender muito. Estudiosas feministas importantes, como Bina Agarwal, Fátima Mernissi, Amina Mama, Heleith Saffioti ou Teresa Valdés, deveriam fazer parte de todas as listas de leitura propostas aos(às) estudantes das universidades do Norte.

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Os(as) universitários(as) do Norte que trabalham no campo dos estudos sobre masculinidades, por vezes, têm conhecimento de pesquisas empíricas no Sul. Poucos enfrentam em contraste os conhecimentos sobre os homens e as masculinidades oriundas dos mundos pós-coloniais. Isto é, em parte, devido ao fato que estes últimos nem sempre são rotulados como “pesquisas sobre masculinidades.” No entanto, há muito o que aprender com os escritos de Ashis Nandy(12) sobre a dinâmica interativa no trabalho na formação de masculinidades; com Octavio Paz(13), sobre os movimentos políticos e culturais conservadores em termos de gênero; bem como romances de Chinua Achebe(14) a respeito do impacto do poder exterior sobre a manutenção da autoridade masculina. E refiro-me apenas à geração mais velha de intelectuais. Esse trabalho de descentralização é, creio eu, o desafio mais importante para se levantar nos estudos futuros sobre as masculinidades.

Você recentemente enfatizou a importância de se considerar os(as) trabalhadores(as) intelectuais como trabalhadores(as)(15). Quais são as implicações práticas disso?

As lições que tiro das pesquisas que eu tenho dedicado no meu trabalho intelectual – em se tratando de histórias de vida, de estudos quantitativos ou de teorias, e que estes trabalhos cheguem a outras regiões além da Austrália(16) – nos leva de volta ao que eu disse num momento sobre a economia global do conhecimento. A produção do conhecimento é um processo social – um processo social globalizado. Essa produção mobiliza uma força de trabalho diferenciada que, visto em uma escala global, representa uma formação social importante. Essa produção requer recursos sociais, ela tem consequências complexas e é historicamente mutável.

Isso tem importantes implicações práticas. Primeiro, é importante reconhecer as posições diferenciadas dos vários grupos envolvidos no que é, aparentemente, um campo acadêmico unificado, ou seja, os estudos das masculinidades. Que tipo de trabalho recebe recursos? Que tipo de trabalho carece de recursos?

Encarar os(as) pesquisadores(as) como trabalhadores(as) equivale a colocar o foco sobre as relações concretas que eles e elas mantêm uns(umas) com os(as) outros(as), por exemplo sobre formas de trabalho cooperativo e de práticas comunicativas que implicaram em um campo científico dado. Isso também coloca o foco sobre as formas de governamentalidade e controle que regem esse campo científico – como a virada gerencial na gestão das universidades, a crescente participação de fundos privados no financiamento de pesquisa, ou o predomínio de ONGs e programas de ajuda no financiamento de pesquisa social nos países pobres.

Qual pode ser a contribuição dos estudos sobre as masculinidades às críticas do neoliberalismo globalizado?

A cultura neoliberal é – e este é um ponto importante – masculinizada desde o início. O modelo de “ator racional”, em torno do qual a teoria econômica neoliberal é construída, é uma figura masculina. As políticas neoliberais, em sua rejeição de todas as formas de democracia participativa, não deixaram de usar a figura política do “homem forte” e promovem um culto à tomada de decisão autoritária, racional, eficiente e sem piedade. A mercantilização de esportes competitivos masculinos, da Fórmula 1 à Copa do Mundo de futebol, constitui um laboratório fascinante para o estudo do neoliberalismo e das dinâmicas de masculinidade.

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Mas existem conexões mais concretas entre masculinidade e neoliberalismo, em especial através da gestão empresarial. A globalização neoliberal produz novas instituições e novos espaços sociais que se estendem em escala global – especialmente através da “world wide web” (internet), do Estado de segurança transnacional, dos mercados globais e das empresas multinacionais. Cada uma dessas instituições é organizada por um regime de gênero complexo e geograficamente estendido.

Essas são as arenas de formação da masculinidade – e estão hoje entre as arenas mais importantes para se estudar. Precisamos de mais pesquisas nessa área. Seria necessário que os estudos localizados sobre masculinidades estivessem mais atentos às conexões entre os contextos locais e essas arenas globais.

No coração de empresas multinacionais – ainda que para além destas empresas, em outras arenas globais – se desdobra a masculinidade das novas elites corporativas e empresariais. Essas elites são de difícil acesso, inclusive para os pesquisadores do Norte, diferentes estratégias de abordagem foram implementadas: o estudo das representações midiáticas dos gestores, o estudo de seus traços documentais, ou ainda a inserção da geração mais jovem (que foi a minha abordagem). Alguns(mas) pesquisadores(as) engenhosos(as) são destinados(as) para ter um acesso mais direto e estou certa de que em breve aprenderemos muito com os resultados dessas pesquisas.

A pesquisa sobre masculinidades não é, claro, a única chave para a compreensão da ordem neoliberal global, mas vai ajudar na compreensão do funcionamento das instituições neoliberais, ainda que em contextos nos quais as decisões são tomadas e as estratégias estacionadas. Como, por exemplo, os projetos de empresas multinacionais que saqueiam as terras, deslocam populações, destroem ecossistemas, geram violência social ou geram poluição para os próximos mil anos são concebidos e implementados? A análise da dimensão de gênero na cultura empresarial, assim como os projetos de vida dos homens que dirigem essas empresas, nos permitirão compreender mais e, assim, melhor lutar contra esses modos de gestão e de exploração.

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★ Magô Tonhon – Mulher transexual, bissexual, é arquiteta e urbanista mestranda em Cultura, Educação e Saúde pela Universidade de São Paulo (USP); pesquisa gênero e sexualidade e é criadora do canal Voz Trans* no Youtube, por meio do qual discute questões relacionadas à população LGBT. É produtora do projeto [SSEX BBOX], trabalhou na 1a Conferência Internacional [SSEX BBOX] & Mix Brasil, e desenvolve ações pontuais para o projeto.

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1 R.W. Connell, Ruling Class, Ruling Culture. Studies in conflict, power and hegemony in Australian Life, Cambridge University Press, Cambridge, 1977.

2 NdT : Sobre o termo, George Hoare et Nathan Sperber escrevem : « Em grego antigo, o termo (hegemonia) deriva de eghestai que significa « dirigir », « conduzir ». Esta palavra se tornará mais tarde eghemon que, durante a guerra de Péloponnèse, designa a cidade mais poderosa, numa posição de liderança dentro da aliança de diferentes cidades gregas», Introduction à Antonio Gramsci, La Découverte, Paris, 2013, p. 94.

3 R.W. Connell, James Messerschmidt, « Hegemonic Masculinity : Rethninking the Concept », in Gender & Society, vol. 19, n°6, 2005, p. 829-859.

4 NdT : Em francês no texto.

5 NdT : Sobre este assunto, ver: Pauline Debenest, Vincent Gay et Gabriel Girard, « Les masculinités et les hommes dans les mouvements féministes, entretien avec Raewyn Connell » em Féminisme au pluriel, Syllepse, Paris, 2010, p.59-76.

6 Demetris Z. Demetriou, « Towards a genealogy of R.W. Connell’s notion of ‘‘structure’’, 1971-1977 », in Nathan Hollier (dir.) , Ruling Australia, Australian Scholarly Publishing, Melbourne, 2004, p. 24-44.

7 R.W. Connell, Terry Irving, Class Structure in Australian History : Documents, Narrative and Arguments, Longman, Melbourne, 1980.

8 Syed Farid Alatas, Alternative Discourses in Asian Social Science : Responses to Eurocentrism, Sage Publishers, New Dehli, Thousand Oaks et Londres, 2006.

9 Dipesh Chakrabarty, Provincialiser l’Europe. La pensée postcoloniale et la difference historique, trad. Nicolas Vieillescazes et Olivier Ruchet, Editions Amsterdam, Paris, 2009 edition originale : 2007).

10 Jean Comaroff, John L. Comaroff, Theory from the South : Or How Euro-America Is Evolving Towards Africa, Paradigm Publishers, Boulder, Colorado, 2011.

11 Chilla Bulbeck, Re-Orienting Western Feminisms : Women’s Diversity in a Postcolonial World, Cambridge University, Press, Cambridge, 1998.

12 Ashis Nandy, The intimate ennemy. Loss and recovery of self under colonialism, Oxford University Press, New Dehli, 1983. NdT : Un portrait intellectuel et politique d’Ashis Nandy a été réalisé par : Marc Saint-Upéry, « L’expérience impériale et l’esprit indien », in La Revue des Livres, n°5, mai-juin 2012.

13 Octavio Paz, Le labyrinthe de la solitude, nouvelle édition augmentée, trad. Jean-Clarence Lambert, Gallimard, Paris, 1990 (édition originale : El laberinto de la soldedad, 1950)

14 Chinua Achebe, Le monde s’effondre, trad. Michel Ligny, Editions Présence Africaine, Paris, 1966 (édition originale : Things Fall Apart, 1958)

15 Raewyn Connell, « La vocation de la sociologie : un travail collectif à l’échelle mondiale » in Dialogue global, vol. 3, n°3, mai 2013, p. 4-6. Disponível em: http://isa-global-dialogue.net/wp-content/uploads/2013/07/v3i3-french.pdf

16 Uma lista dos trabalhos de Raewyn Connell sobre o trabalho intelectual está disponível em seu site: http://www.raewynconnell.net/p/intellectuals_20.html