Por Jota Mombaça

Por Jota Mombaça

Jota Mombaça é também Monstra Errática e MC Katrina. É uma bicha não binária do Nordeste do Brasil, que faz estudos acadêmicos em torno de monstruosidades, perspectivas kuir e descoloniais, feminismos, contra-humanismos e ficções especulativas; faz também falatórios, arte de ação e funk. Ama rebolar.

★ ASSISTA AQUI O VIDEO CLIP DA 2ª CONFERÊNCIA INTERNACIONAL [SSEX BBOX] & MIX BRASIL ★

A 2ª Conferência Internacional [SSEX BBOX] & Mix Brasil transformou o Centro Cultural São Paulo em um espaço onde muitas pessoas se sentiram compreendidas em pontos importantes de sua luta, além de promover a reflexão sobre novas estratégias de enfrentamento à homofobia e à transfobia.

Assista nossa websérie no Vimeo

Inscreva-se em nosso canal no Youtube

▼Assista ao breve resumo em vídeo da Primeira Conferência

 

Não se pode dizer que o problema da colonialidade tenha passado desapercebido no marco dos estudos queer acadêmicos do Brasil. No mesmo ano (2012) que Hija de Perra publicou o ensaio citado no primeiro texto desta série, um interessante movimento de critica descolonial ganhou força na produção queer brasileira oficial. Destaco aqui dois textos dessa leva que se tornaram bastante populares entre pessoas estudiosas do assunto. “Queer nos Trópicos”, de Pedro Paulo Gomes Pereira, e “Subalterno quem, cara pálida? Apontamentos às margens sobre pós-colonialismos, feminismos e estudos queer”, de Larissa Pelúcio, ambos publicados no mesmo Dossiê Saberes Subalternos da Contemporânea – Revista de Sociologia da UFSCAR (2012).

2016-07-22-04-10-30

Esses dois textos compartem uma perspectiva bastante crítica quanto ao modo como, no que diz respeito à geopolítica do conhecimento afinada em escala global, a produção teórica queer brasileira deve desafiar, desde as margens, os postulados projetados como verdade pela colonialidade do saber, regime que visa definir – segundo uma hierarquia na qual os saberes do “Sul Global” são necessariamente inscritos por efeitos de subalternidade, ao passo que as produções euroestadunidenses são hiperestimuladas e sobrevalorizadas – o que conta ou não como “teoria de ponta”.

Tais reflexões têm a importância de situar os termos definidos pelo cânone queer global, questionando sua universalidade ao mesmo tempo em que afirmam, desde o contexto igualmente situado da produção teórica queer brasileira, uma singularidade perante as generalizações feitas por autores euroestadunidenses. Nesse sentido é que as proposições de Paul B. Preciado, especialmente as contidas em Testo Yonqui, são criticamente avaliadas e confrontadas em ambos os textos. Não se trata, contudo, de uma tentativa de invalidação das contribuições do autor, mas de uma problematização contundente quanto ao caráter universal dessas proposições com vistas à insuficiência de seus modelos para uma análise da realidade brasileira concreta.

Dos dois textos mencionados, é o “Queer nos Trópicos” que vai mais fundo nessa problematização da obra de Preciado. Para uma revisão crítica do conceito de “farmacopornopoder” – que, grosso modo, postula a preponderância dos dispositivos fármaco (biotecnológico) e pornô (semiótico-técnico) nos processos de subjetivação e de produção de gêneros na contemporaneidade –, Pedro Paulo Gomes Pereira evoca a experiência de Cida, travesti com quem conviveu durante uma etnografia realizada em 2004 num abrigo para pessoas portadoras de aids nas proximidades de Brasília.

Depois de apresentar brevemente a história de vida de Cida e traçar um paralelo com a de Preciado, o autor concede especial atenção à relação “de sua fonte” com a umbanda, enfatizando o modo como esse conhecimento mítico-religioso e as ritualizações que ele implica interatuam junto a uma série de outros elementos – técnicos, discursivos, performativos – na produção de seu corpo. No texto, a relação entre religiosidades afrobrasileiras e processos de subjetivação e corporificação de mulheres trans e travestis é abordado a partir de uma série de referências a outras pesquisas acadêmicas sobre o tema. Levando em conta essas narrativas sobre travestis adeptas de umbanda, candomblé ou quimbanda, Pedro Paulo busca problematizar a centralidade dada por Preciado (e por outros autores europeus importantes para o desenvolvimento dos estudos queer, como Michel Foucault) aos elementos de matriz biotecnológica na produção dos corpos, afirmando a insuficiência de modelos universais a partir de um quadro complexificado pela interação de elementos míticos e rituais com fluxos de imagem, silicone, hormônios etc., no corpo de travestis afro-religiosas do Brasil.

fb_img_1469208551884

Dessa maneira, “Queer nos Trópicos” pretende excitar uma reconfiguração possível do arcabouço teórico queer consolidado nos estudos sobre vivências trans e reivindica, para isso, uma analítica queer sensível ao modo como diferentes contextos acionam diferentes mediadores para a produção dos gêneros e sexualidades. Com esse movimento, o autor consegue desbancar a relação de poder geopolítico que garante aos saberes projetados desde os centros globais de produção de conhecimento a possibilidade de definir os modelos analíticos que serão aplicados nas margens. No entanto, para dar cabo disso, depende de reconstruir com sua própria voz a experiência de Cida e de outras travestis.

Ao comparar a história de Cida com a de Preciado, por exemplo, o autor em nenhum momento alude à própria história, ou assume a implicação que o próprio corpo tem no tipo de produção conceitual que ele leva adiante em seu texto. O que Pedro Paulo oferece como contraponto à experiência de Preciado narrada em primeira pessoa é a experiência de Cida narrada em terceira pessoa. Dessa maneira, não obstante desbanque a tradição universalizante das produções de conhecimento eurocêntricas a partir de um enfoque singularizado pela densidade do contexto brasileiro, o seu texto se sustenta por sobre um apagamento sistemático das próprias marcas corpo-políticas de quem escreve – o que desdobra uma continuidade insuspeita entre o que autor faz e o que ele critica.

Se ao criticar a dimensão colonial do queer no mundo sudaca Hija de Perra evoca sua experiência para interrogar, desde a própria dissidência sexual e de gênero, a matriz queer de conhecimento, oferecendo dessa forma uma resistência efetiva à interpelação queer como efeito de poder acadêmico; o giro decolonial das pessoas teóricas de gênero do Brasil segue limitado a assinalar escalas hierárquicas entre contextos acadêmicos distintos (os do Norte e do Sul globais), sem com isso, em momento algum, questionar a própria academia – com sua linguagem teórica normalizada, sua tematização das vidas de pessoas reais e suas hierarquias consolidadas por sistemas rígidos de avaliação institucional – como território-chave para a atualização do queer como referencial indissociável da colonialidade do saber no contexto brasileiro (sudaca e terceiro-mundista).

2016-07-22-04-09-23

Assim, falta à elite teórica do queer nos trópicos reconhecer de que modos a colonialidade do queer não se dá somente de fora para dentro – isto é, do mundo euroestadunidense para os contextos periféricos –, mas também de dentro para dentro, por efeito de um “colonialismo interno” levado a cabo pelos mesmos teóricos de gênero que ora questionam a supremacia do queer do Norte sobre os queer do Sul. Nesse sentido, a oposição macro-estrutural Norte e Sul produz contraditoriamente um apagamento das tensões Sul-Sul e contribui para a perpetuação de modos de dominação epistemológica, ética e política não previstos por autores como Pedro Paulo Gomes Pereira.

Desaprender o queer dos trópicos tem assim o sentido de uma desnaturalização radical dos procedimentos acadêmicos, incluindo uma problematização das relações sujeito-objeto que ajudaram a consolidar a elite teórica queer do Brasil, assim como uma revisão critica dos efeitos de interpelação que a apropriação do queer desdobrou em territórios como o nosso. Em tempo: não posso deixar de registrar que esse texto não necessariamente escapa àquilo que critica, pois que consiste em mais um exercício teórico sobre o queer, produzido desde a posição de bicha gorda não binária e acadêmica, e não num programa de ação para as pessoas dissidentes sexuais e de gênero. A diferença deste texto é que, se ele interpela algo, é a própria elite queer e seus procedimentos críticos, fazendo de objeto aqueles que, até agora, não participaram do debate senão como sujeitos: as pessoas pesquisadoras.

p.s.: quando falo em “elite teórica queer do Brasil”, refiro-me à rede de teóricos de gênero e sexualidade consolidados, bem posicionados nos rankings formais de produção de conhecimento, empregados por universidades de renome, majoritariamente brancos e cisgêneros. Falo de gente como Richard Miskolci, que durante o I Seminário Queer do SESC (que não por acaso ficou conhecido como Cisminário) chegou a afirmar que a ausência de pessoas trans*, racializadas e dissidentes sexuais na programação do referido evento se devia a uma “falta de vocabulário” que ele, e a equipe por ele formada, estava tentando suprir com suas pesquisas, falas e publicações.

LEITURAS

PELÚCIO, Larissa. Subalterno quem, cara pálida? Apontamentos à margem sobre pós-colonialismos, feminismos e estudos queer. Contemporânea, v. 2, n. 2, p. 395-418, jul./dez. 2012. Disponível em: <http://www.contemporanea.ufscar.br/index.php/contemporanea/article/view/89/54>. Acesso em: 18 ago. 2016.

PEREIRA, Pedro Paulo Gomes. Queer nos trópicos. Contemporânea, São Carlos, v. 2, n. 2, p. 371-394, jul./dez. 2012. Disponível em: <http://www.contemporanea.ufscar.br/index.php/contemporanea/article/view/88/53>. Acesso em: 18 ago. 2016.

j