Por Nelson Neto

Por Nelson Neto

Formado em jornalismo, já trabalhou como repórter para as revistas da Editora Mix Brasil e está assessor de comunicação na Coordenação de Políticas para LGBT (CPLGBT) da Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania (SMDHC) na Prefeitura de São Paulo.

★ ASSISTA AQUI O VIDEO CLIP DA 2ª CONFERÊNCIA INTERNACIONAL [SSEX BBOX] & MIX BRASIL ★

A 2ª Conferência Internacional [SSEX BBOX] & Mix Brasil transformou o Centro Cultural São Paulo em um espaço onde muitas pessoas se sentiram compreendidas em pontos importantes de sua luta, além de promover a reflexão sobre novas estratégias de enfrentamento à homofobia e à transfobia.

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▼Assista ao breve resumo em vídeo da Primeira Conferência

 

De tão triste a gente chega achar engraçado. Mas de engraçado mesmo não tem nada. Vivemos um processo em que o fundamentalismo e o conservadorismo brasileiro avança cada vez mais e a História recente nos conta muito bem quem está nos primeiros lugares da fila onde o que resta é a ilegalidade, a prisão e a morte: pretas/os, pobres, bichas, sapatões, bissexuais, travestis e transexuais, maconheiros… e todo esse nosso rolezinho que não é pequeno. Sim, vivemos em tempos sombrios e sabe o que é o pior? São os anjos que estão em guerra. Acorda bicha que é o teu que tá na reta, e sempre esteve.

Não é de hoje que o movimento gay (estou falando só das bichas aqui, tá? Então tá) recebe críticas de diversos outros movimentos por ter uma postura, digamos, elitista. Claro, nem toda bicha se enquadra aí, não é mesmo? Mas sabemos que, de fato, o problema não é mesmo todas as bichas e seu movimento, há muitas por aí que faz um trabalho decente de militância, mas quem sou para julgar as irmãs? A questão mesmo está que poucas bichas, bem pouquinho mesmo, acho que não chega a meia dúzia (que bom que são poucas), que têm diversos privilégios, estão pouco se fodendo para o todo e ainda ganhando dinheiro para vomitar contra outros grupos sociais.

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Gravura de Robert W. Richards

Estes seres-homenzinhos-brancos-normativos-weyprotein não conseguem perceber que a sua sexualidade, a sua orientação sexual é uma via de diferenciação da norma hetero-cisgênero (falei até bonitinho), mas resumindo: bicha branca privilegiada, a senhora também pode apanhar de lampadada na cara. Aliás, tanto pode que, mesmo um grupo enorme de travestis, transexuais, gays, lésbicas e bis pretas apanhando e morrendo na periferia das cidades, o que vai para os jornais e na home do site gay é justamente a bicha branca que apanhou e tem advogado para correr atrás dos ‘direitos’. Tá buoa querida!

Bicha, melhore. Melhore mesmo.

Não adianta tentar estar dentro das normas: ir para a academia, casar, ter filhos, morar no centro da cidade… não adianta, pois em algum momento do seu dia a senhora vai tá trocando fluídos com alguém que tem a mesma coisa que você no meio das pernas, e te contar uma coisa aqui no seu ouvido: isso ainda é ético e moralmente punível em nosso tempo sombrio.

Mas não é só isso. Não, não é só uma questão de olhar para o próprio umbigo e perceber que ele é, pelo menos, parecido como de muitos.

É preciso, como emergência, entendermos que estamos falando aqui é que do outro lado; aqueles que proliferam uma pauta ideológica baseada no liberalismo, onde se dá de modo bastante fluído o conservadorismo e o fundamentalismo, onde os regimes de Estado são norteados pela repressão e a liberdade está alinhada ao poder de consumo de cada indivíduo; que devem ser o foco de combate, não nós mesmos apontando o dedo para a cara um dos outros dizendo o que cada um tem o que fazer. O que você está fazendo para poder sobreviver, bicha branca? Se escondendo dentro dos padrões capitalistas, dentro de costumes religiosos que dizem que você é um pecador se dar o brioco?  Bicha, melhore.

Mas calma, minha gente. A gente sabe que nos movimentos lésbico, bi e trans também há seus conflitos internos, mas, por uma questão de legitimidade de fala me abstenho de nomear aqui. Estou super aberto em ouvir compartilhar ideias e estratégias pra gente fazer um role mais legal.

O recado é: não podemos ser os anjos em guerra nestes tempos sombrios.