POR Magô Tonhon

POR Magô Tonhon

Coordenadora de Relações Institucionais do [SSEX BBOX] Brasil. Mulher trans, bissexual, filha de Oxum Opará, é arquiteta e taróloga, criadora do Canal Voz Trans* no Youtube. Mestranda em cultura, educação e saúde na USP, pesquisa gênero e sexualidade.

★ ASSISTA AQUI O VIDEO CLIP DA 2ª CONFERÊNCIA INTERNACIONAL [SSEX BBOX] & MIX BRASIL ★

A 2ª Conferência Internacional [SSEX BBOX] & Mix Brasil transformou o Centro Cultural São Paulo em um espaço onde muitas pessoas se sentiram compreendidas em pontos importantes de sua luta, além de promover a reflexão sobre novas estratégias de enfrentamento à homofobia e à transfobia.

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▼Assista ao breve resumo em vídeo da Primeira Conferência

 

▼Resolvi escrever sobre a 2ª CONFERÊNCIA INTERNACIONAL [SSEX BBOX] & MIXBRASIL que vai acontecer do dia 10 ao dia 20 de novembro de 2016.

▼Eu tenho uma relação de afeto com o projeto. A primeira vez que eu saí de casa mais consciente acerca de minha transgeneridade foi para ir à um evento chamado Ocupação [SSEX BBOX] que eu soube pela internet e ia acontecer na Casa da Luz aqui em São Paulo. Eu vinha de um longo e doloroso processo de aceitação de minha identidade trans que me causou profunda dor e conflitos mil. No meu caso o diálogo com o reconhecimento que tinham de mim e com o reconhecimento que eu forçosamente me obrigava a ter começou muito cedo. Era como se eu tivesse adotado aquela ‘prótese identitária cis’ e me obrigasse a caber nela, sem perceber eu havia adotado o discurso de mim sem nenhum questionamento.

Reconheciam-me desde cedo enquanto trans, mas eu levei muito tempo para entender minimamente que não, mulheres não eram apenas as que tem vagina e homens não eram apenas os que tinham pênis :a pílula da cisgeneridade que tomamos desde cedo.

O meu processo foi confuso e ao meu ver bastante escasso de representações positivas. E não só o meu. Creio que por ter me havido primeiro com a minha orientação afetivo-sexual não-monosexual, muito da identidade estava ainda naquela época confundida, borrada, misturada com o desejo. Vim do interior oeste do estado de São Paulo para a capital. Esse processo de compreensão levou muito tempo e ainda não se esgotou. É um constante diálogo com as representações que nos oferecem e aquelas que nós mesmas escavamos e que estão expostas por aí.

Eu nunca tinha me atentado para símbolos até então banais da expressão de gênero que em mim finalmente encontrava espaço para florir – “até no capim vagabundo há desejo de sol”. então sem muito pensar nem ensaiar saí de casa decidida a comprar um bastão de cera que em contato com os lábios solta uma cor, mais conhecido como batom. Era um roxo com fundo rosa. Roxo 63 da Tracta era o nome. Eu namorava há quase 3 anos com um homem cis bissexual naquela época. Fomos juntos para a Ocupação [SSEX BBOX] e lá eu conheci Daniela Andrade e Carolina Gerassi que foram verdadeiras DIFERENTONAS na minha vida a partir daí. Tanto uma quanto a outra se dirigiram à mim no feminino. Era a primeira vez que eu enfim aceitava consciente tal tratamento embora não tivesse ainda aceitado meu nome de’ batismo trans’ que já tinha sido me dado por um estranho durante uma noite qualquer. Eu me lembro de, depois do debate, ter descido pra dançar e perguntei pro meu namorado: não tá estranhando me ver com a boca roxa? E ele riu dizendo “engraçado mas eu tenho a impressão que você sempre usou e eu nunca reparei”.

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▼Eu conheci o Pri, fundador do [SSEX BBOX] logo em seguida por indicação de uma pessoa que eu também tinha acabado de conhecer e ele me convidou para fazer parte da pré-produção do projeto da Primeira Conferência. Eu já havia trabalhado como ‘domadora de egos inflados’ algumas vezes, mas no mercado da moda. Além de outras atribuições eu fui vendedora de uma grife de roupas estampadas e eu quem havia cuidado da pré-produção de diversos eventos de lançamento de coleção embora nunca tenham me creditado tal tarefa.

Achei que eu pudesse ajudar, que seria útil e necessário não só a mim. A ajuda de custo era baixa dado o volume de trabalho e muito embora eu tivesse acabado de conhecer o responsável pelo projeto, vi de perto que a premissa de falta de recursos era verdadeira e não truque! Aceitei fazer além do que havia me disposto. Eu tinha vontade e podia dispender de dois meses inteiros para fazer da Primeira Conferência meu café da manhã, meu almoço e meu jantar. Para além da vontade+potência eu também tinha, mesmo dentro de todas as limitações, privilégios que contaram nesta decisão.

Inicialmente eu achei que o [SSEX BBOX] era uma GRANDE MARCA INTERNACIONAL com alguma corporação por trás, fiquei até receosa que tivesse ganhando RIOS DE DINHEIROS [RISOS JOCOSOS] por meio de algum edital capturado do governo ou coisas do tipo. Lembro de ter gargalhado bastante quando vi o QUÃO LIMITADA E VICIADA EM EXEMPLOS POUCO HONESTOS a minha visão infelizmente era. Éramos poucas pessoas, querendo fazer algo bastante grande, não em importância, mas de tamanho mesmo. Trazer pessoas de diversas localidades, não poder contribuir com todos com o mínimo de ajuda de custo necessária, não ter grana pra pagar cachê tão merecido destxs verdadeirxs operárixs do debate de gênero e sexualidade não normativos.

Foram muitos os ataques. Alguns propositais, outros motivados por essa precariedade de experiências que vemos acontecer bastante quando se trata do assunto. Como por exemplo fóruns e seminários que se pretendem representativos mas que não parecem preocupados em representar e em fazer do diálogo mais potente enquanto plural e que recebem incentivo dos governos para tal. A Primeira Conferência reuniu mais de 100 pessoas para debater e dialogar entre si. Pessoas plurais, com maior ou menor precariedade, seja de deslocamento seja de estadia em terras paulistanas. A equipe de produção se resumia a 4 pessoas comigo e uma delas se dispôs a contribuir financeiramente para a realização da conferência. E foi graças à esta contribuição privilegiada que conseguimos terminar de pagar as passagens e algumas singelas ajudas de custo para algumas pessoas. Foram muitos os desrespeitos com motivações variadas que enfrentamos: pessoas que ocupavam cargos no governo na época em Brasília que disseram ‘não ter recebido’ o email com a passagem e portanto não vieram nem telefonaram para avisar que não viriam, por exemplo. Pessoas que vieram mas não apareceram pois estavam fazendo coisas mais importantes como comemorar aniversário de casamento [risos], pessoas que não ligaram pra avisar que não iam poder ali estar. A fornecedora das comidinhas que teriam no camarim levou o nome nas divulgações por exemplo mas não entregou as comidinhas [risos e mais risos].

Alguns desrespeitos aqui outras chateações acolá e outras coisinhas mais, geralmente causadas pelos imprevistos mil dentre outras limitações. Por exemplo: outras figuras que, representando órgãos do governo disseram que batalhariam alguma ajuda como contribuir para as passagens das pessoas que convidamos e que durante a conferência até estiveram presentes para divulgar ‘o trabalho do Estado’ e a ‘melhoria da polícia militar’ no trato com a população T [risos e choros copiosos] mas que, depois da Conferência, não compareceram com a ajuda prometida.

Enfim, foram muitos os “desafios” que surgiram. Éramos quatro com uma equipe recém conhecida de voluntárixs muitíssimo obstinadxs e que tiveram o privilégio de dispor de mais de uma semana de seu tempo em novembro de 2015 pra fazer acontecer a Primeira Conferência. Minha Lua em Câncer guarda alguns rancores com muito carinho! Mas meu ascendente também canceriano me traz a salvação [RISOS EXAGERADOS] com os exemplos mais que positivos desta experiência.

Foram muitos os confrontos intra-militância. Foram muitos os questionamentos e sim eles devem acontecer. Conseguimos reunir pontos de vista muitas vezes antagônicos em uma mesma mesa, com um público que era TUDO, MENOS PASSIVO que faziam perguntas que tencionavam o debate. Quem não se lembra da mesa de MÍDIA E REPRESENTAÇÃO com Helena Vieira, Laerte e Thammy (hoje do Partido Progressista)? Dentre outras mesas. As mulheres e pessoas trans negras arrasaram no debate sobre Queer e colonialidade, Sueli Feliziani do olhar crítico, Jota Mombaça da expressão de afetos de guerra [como esquecer do EU NÃO VOU CONSEGUIR FALAR DESSE TEMA DE UMA MANEIRA SÓ BONITINHA], Tatiana Nascimento das palavras encantadas que batem por dendê.

Não foi um evento mais do mesmo, sabe? Pelo menos não pra mim. E muito embora o debate sobre o apagamento, invisibilidade de produções e reflexões fora do eixo Sul-Sudeste Brasileiro seja legítimo e necessário inclusive em termos de se aprofundar nele, quando não se tem muito além de recursos escassos, conseguir somar pessoas vindas de Natal, Salvador e Ceará, de fora e dentro das academias, teve um significado GRANDIOSO ainda que fossem precárias em número de participantes, mesmo que estivéssemos longe do ideal. Não é motivo para se contentar mas ao meu ver já foi motivo de grande comemoração.

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E aí a gente vê a importância da imagem e percebe que precisamos treinar nossos olhares para além do que se apresenta. “SE PODES OLHAR, VÊ. SE PODES VER, REPARA!” Abaixo algumas possíveis afirmações maniqueístas que suponho haver e ter havido na mirada sobre o projeto.

▼O projeto tem um nome em inglês norte americano, o responsável por ele morou oito anos lá = COLONIZADOR, IMPORTADO DOS STATES, QUEER DE LÁ QUER CAPTURAR O QUEER DAQUI.

▼O projeto acontece em parceria com o Mix Brasil que acontece há 24 anos em São Paulo = CONTA COM TOTAL APOIO FINANCEIRO, IMAGINA QUE NÃO TEM DINHEIRO? DISFRUTAM DE TOTAL APOIO INSTITUCIONAL.

▼A Conferência será no Centro Cultural Sâo Paulo = NOSSA, ESTÃO RECEBENDO PRA ISSO, CERTEZA, PODEM ALTERAR TODA A ESTRUTURA E USUFRUIR CEM POR CENTO DO ESPAÇO COMO BEM QUEREM.

▼A Conferência contou com a presença de poucas pessoas fora do eixo Sul/Sudeste = NÃO CHAMARAM POIS MENOSPREZAM AS PRODUÇÕES NORTISTAS/NORDESTINAS, ATÉ QUANDO O SUL/SUDESTE VAI SE ACHAR A PIRAQUÊ DOS BISCOITOS?

▼ O diretor do [SSEX BBOX] não nasceu nos states. Nasceu no Brasil, cresceu no Brasil, mas se morou 8 anos nas terras do norte então automaticamente já não é mais brasileiro. Engraçado que não é também nem estadunidense. Eis a experiência da diáspora? Desde que voltou a habitar terra brasilis, o responsável pelo projeto esteve em constante diálogo e atenção para as estruturas que capturam e re-nomeiam vivências e existências genuinamente brasileiras. Foram muitas as mudanças que derivaram desta experiência de voltar a ter contato direto com o que aqui se produzia. Vivemos conectadas em uma rede global. Não se deixou de acompanhar o que aqui surgia e se insurgia ‘simplesmente’ por estar há milhares de quilômetros de distância! Além disso, embora personalizar seja uma armadilha, o projeto foi recebendo influências de variadas contribuições e não é um bloco monolítico, fechado em si mesmo numa ideia estagnada.

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▼ todo agradecimento do universo para as pessoas que permitiram essa parceria com o festival que já acontece há bastante tempo por aqui mas que não era um espaço voltado para as experiências que a Conferência SSEX BBOX tinha para agregar como por exemplo uma programação de debates, workshops, palestras, apresentações musicais, performances, rodas de conversa dentre outros.  A conferência veio a somar e só pôde acontecer onde aconteceu não por acordos espúrios como os que estamos acostumadxs a presenciar mas pelo fato do local do festival ser ali, no CCSP. Seria, foi e ainda é positivo que se somassem as forças do Festival + Conferência e decidimos ocupar esse espaço.

▼ isso não significa que a equipe de produção do SSEX BBOX, do Festival e do CCSP SEJAM COMPOSTAS PELAS MESMAS PESSOAS. Nem que se pode usufruir do espaço como bem entendemos. Há regras institucionais que devem ser cumpridas em contrato sob risco de penas, como horário para cumprir, limite de uso de infra-estrutura técnica ou você achou que teria a todo momento alguém das 3 equipes de produção e técnica DISPONÍVEIS para o que eventualmente precisássemos? Se você achou isso, bem vinda a realidade de um trabalho de produção que assim como as histórias de lucas silva e silva TUUUDO POOOODE ACONNNTECEEEER! Hahaha

 É impossível falar da Segunda sem falar da Primeira.

▼A presença de pessoas gringas no evento não são este ano e nem foram ano passado, aleatórias. Fazem parte da rede de amizades que foi construída e fortalecida nos anos em que habitou nos states o diretor do projeto. E justamente por se tratar de laços de amizade, toparam participar da Conferência sem cachê na maioria das vezes. E mesmo conscientes do risco que significava trazer pessoas que poderiam ter um discurso em si mesmado, o que presenciamos foram pessoas que saíram do Brasil transformados por esta experiência, contato e diálogo sem pretensão de colonização.

As pessoas gringas estavam de fato abertas a esta experiência como uma nova experiência e não como mera materialização de um discurso gringo em terras tupiniquins.  Não é e nem poderia ser de nossa responsabilidade esta abertura, embora tenhamos semeado dentre os participantes que mais importante era o contato e o diálogo atento também às problemáticas e estruturas que se entrelaçam e que estão para além de nosso controle. Mas o fato de não ser exatamente uma responsabilidade, não me impede de comemorar e celebrar que isso tenha acontecido.

▼Trabalhei nas coxias, não acompanhei muito dos debates. Tivemos uma pessoa disposta a vir para a cidade com os próprios custos para voluntariar como fotógrafa [beijos Dani Villar] além de uma pessoa daqui que se dispôs a gravar grande parte das mesas com equipamento próprio [beijos meu namorado olha que coincidência!].

▼ Deixei de estudar para as provas do Mestrado para poder dar conta da Primeira Conferência e não me arrependo até porquê acabei sendo aprovada e exatamente por este motivo e demanda que estou mais afastada da pré-produção da Segunda. Desta vez, não estarei na coxia apenas, também vou abrir e fechar cada atividade.

▼ Tenho orgulho de fazer parte deste projeto que não está livre de diversos entrelaçamentos que produzem questões, que demandam tempo e disponibilidade de trabalho de pessoas que já estão bastante repletas de demandas pessoais mas que se esforçam para fazer acontecer com cuidado um encontro como este. E me orgulho menos por paixão que o orgulho aciona e mais por saber que fiz o que eu consegui fazer. Exercício difícil e que não poupa ninguém, este de deixar de dar tanta importância ao ego e valorizar mais a potência que tem os encontros.

Se pudermos de alguma forma contribuir para que mais destes encontros aconteçam tornando concreta a máxima de que esta conferência é apenas mais uma possibilidade de nos encontrarmos então os esforços já terão valido a pena. E que nas próximas a gente possa contar com mais potência [$] para poder materializar a vontade de incluir cada vez mais pessoas, universos e pontos de vista plurais uma vez que todxs partilhamos deste ‘holograma de colonização’ em que vivemos. Quem será que é diferentona o bastante para habitar uma nuvem do google drive, não é mesmo? hahaha

▼ Quem está na Segunda fazendo as vezes de Magô na Primeira, é o Guilherme que desde quando chegou como voluntário ano passado muito somou nas atividades que aconteceram durante o ano e que o SSEX BBOX  encabeçou. Obrigada a todas as pessoas envolvidas, a todas as pessoas que foram e que são voluntárias e as que ainda serão também. Obrigada as pessoas que se dispuseram a multiplicar o que puderam e escolheram. Conscientes ainda que falte bastante compreensão dos processos que nos engolem e sabendo que não podemos exatamente nos desprender das estruturas que somos parte e que tentamos transformar de dentro pra fora, é que propomos que todos possam sair da ilha para ver a ilha pelo menos por um minutinho!

▼ Já percebemos que se o financiamento coletivo para realização da Conferência hamburgueria fosse já teria conseguido angariar fundos necessários para acontecer, não é mesmo? Teimosos que somos, e dentro de todos os privilégios que dispomos sem deixar de considerar nossas precariedades inerentes continuaremos insistindo para que os encontros sejam mais potentes que os textões.

Ajude-nos a divulgar o financiamento coletivo e também a programação da Conferência que desta vez vai focar em debates e mesas apenas nos finais de semana, sextas depois das 16 e sábado e domingo o dia inteiro. Durante a semana acontecerão cursos e workshops além de exibição de filmes com rodas de conversa no final. A entrada será gratuita, ainda que saibamos que o deslocamento dentro da malha urbana na cidade de São Paulo seja bastante complexa, difícil e mais privilegiada na linha amarela do metrô que na vermelha ou azul por exemplo! O CCSP fica na estação Vergueiro na linha azul do metrô.

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▼Confira a programação: http://migre.me/vd96v

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▼Assista ao breve resumo em vídeo da Primeira Conferência: https://youtu.be/LQTrdaoAtGM

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