por NELSON NETO

por NELSON NETO

Formado em jornalismo, já trabalhou como repórter para as revistas da Editora Mix Brasil e está assessor de comunicação na Coordenação de Políticas para LGBT (CPLGBT) da Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania (SMDHC) na Prefeitura de São Paulo.

 

★ ASSISTA AQUI O VIDEO CLIP DA 2ª CONFERÊNCIA INTERNACIONAL [SSEX BBOX] & MIX BRASIL ★

A 2ª Conferência Internacional [SSEX BBOX] & Mix Brasil transformou o Centro Cultural São Paulo em um espaço onde muitas pessoas se sentiram compreendidas em pontos importantes de sua luta, além de promover a reflexão sobre novas estratégias de enfrentamento à homofobia e à transfobia.

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▼Assista ao breve resumo em vídeo da Primeira Conferência

 

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No dia 19 de novembro a 2ª Conferência Internacional [SSEX BBOX] & Mix Brasil armou uma polêmica mesa com a seguinte pergunta: “é possível uma agenda comum entre cada uma das letrinhas?” Então, estavam lá a lésbica Mônica Saldanha; a bissexual Terra Grammont, a mulher trans Magô Tonhon, a queer Jota Mombaça, o intersexual Alex Bonotto, e a assexual Aruã Siqueira Torres e eu, Nelson Neto, enfrentando este desafio para uma platéia com certa de cem interessadas, interessados e interessadas. Todas, todos e todes da mesa trouxeram contribuições importantes para a troca de ideias e possibilidade, o texto que segue é a minha apresentação ao falar na cadeira de fala dos gays.

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“Sendo a proposta de nosso encontro a ambiciosa busca por uma possível agenda comum entre cada um dos grupos da nossa diversa comunidade LGBTQIA, peço licença para não falar exclusivamente sobre a orientação sexual a qual esperam que eu apresente nossas pautas. De modo bastante genérico, elas já são conhecidas historicamente, inclusive dentro de um contexto jurídico-politico como o casamento civil e outras temáticas.

Mas não é só isso.
Falar sobre e por nós gays é bastante complexo e, assim como esta conferência e a própria [SSEX BBOX] pedem, é preciso pensar fora da caixa.

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Quando falamos “GAY” é fácil associar pelo senso comum o homem branco cisgênero capitalista que se relaciona com outro homem como tal descrito. Sabemos: somos bem mais plurais e complexos do que isso. Somos também pretos, pobres, magrelos, gordos, favelados, motoristas de taxi, Uber e ambulância. Somos garçons, jornalistas, entregadores de pizza, somos trans, somos secundaristas, moradores de ocupações no centro da cidade, somos CEO de empresas estrangeiras, somos estrangeiros, refugiados, imigrantes, migrantes. Somos tantos que não há como eu representar cada um em suas particularidades.

Saído da caixa e do armário, eu os destruo.

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ANTES DO DENOMINADOR: O MÍNIMO COMUM

Assim como acontece quando pensamos “GAY” como uma imagem simbólica comum representada por um homem branco cisgênero capitalista que se relaciona com outro homem como tal descrito, falar sobre Direitos Humanos como um mínimo comum entre nós não basta.

Pensar em “humano” é, de algum modo curioso, pensar em um “humano” dentro de diversas categorias dentro ou à borda da nossa limitada caixa ocidental, judaico-cristã e capitalista. Não universalizamos, ainda, o contexto de “humano”. E universalizar e totalizar conceitos é sempre perigoso.

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Qualquer homo sapiens sapiens fora da categoria social comum imaginada sobre o que é “humano” é tirada sua humanidade. Portanto, este humano, antes de ter seu Direito Universal, ele precisa existir como tal dentro das categorias ética e moral ocidentais, judaico-cristãs e capitalistas.

Mesmo todos nós, nesta sala, sendo homo sapiens sapiens não temos os mesmos direitos. Algumas/alguns de nós podem fazer xixi em um banheiro de pizzaria no centro da cidade, já outras e/ou outros não podem como aconteceu com uma de nossas companheiras aqui da [SSEX BBOX].

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Esta é a atual lógica do: “Penso, logo existo” do filósofo, do século XVII, René Decartes. Isso porque caso você não pense dentro das normas sociais morais e éticas do seu tempo você não existe, e se você não existe, não há direitos para você.

Direito ao casamento, direito ao seguro Dpvat, direito ao seguro fiança, direito ao nome social, direito ao banheiro público, enfim… Direitos Humanos.

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Estamos nesta, aqui e agora, pois sabemos que existimos, mesmo que nossas mais diversas existências nos seja tirada na vida social ética e moral em voga.

Acredito que eu tenha chegado ao comum entre nós: a existência.

Existimos com mais ou menos vulnerabilidades que nos tornam mais ou menos precárias/os – ou privilegiadas/os – dentro do nosso espaço-tempo chamo de sociedade patriarcal, LGBTQIAfóbica, machista, misógina, racista, eugênica, fundamentalistas e conservadora.

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Caso eu tenha chegado ao comum, quero chegar ao mínimo com a seguinte pergunta: “se existimos, em qual lugar existimos?

Este comum salta aos olhos de todas, todos e todes nós. A existência se dá em um lugar chamado Cidade.

Eu gostaria de trazer uma analise histórica mais profunda apresentada pelo professor norte-americano David Harvey, mas o tempo não nos permite. Vou me esforçar aos 10 minutos que tenho, ou quase cinco que me restam para apresentar uma proposta a vocês.

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Pulando os séculos para o nosso espaço-tempo, é no termo “cidade” que se tem uma história icônica e simbólica profundamente inserida na busca de significas políticos. A Cidade de Deus, a cidade edificada no morro, a relação entre cidade e cidadania – a cidade como objeto de desejo utópico, como um lugar distintivo de pertença em uma ordem espaço-temporal em movimento perpétuo -, tudo isso confere à cidade um significado que mobiliza um imaginário político crucial de desejo humano de existir.

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Já perceberam a quantidade de cidades que existem dentro de uma mesma cidade?

Existem cidades de direitos, nem sempre espaços públicos, e existem cidades de privilégios, nem sempre privados.

Neste sentido, lutar pelo nosso Direito à Cidade é nos rebelar contra tudo e todos que nos tira a humanidade, ou seja nosso direito de existir, que deve ser um direito comum.

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Quantos de nós, nesta sala, já pensaram que existem LGBTQIA em ocupações dos movimentos dos sem teto, nos momentos dos sem terra, nos movimentos dos trabalhadores? Quantos de nós já pensaram que existem muitos de nós imigrantes, refugiados, secundaristas ocupando escolas e as assembléias legislativas? Quantos de nós fazemos greve nos bancos, nas escolas, hospitais e nas empresas de transporte público? Quantos de nós saímos de nossas aldeias para a Cidade reivindicar nossas pautas? Quantos de nós fazemos passeatas, pois um/a jovem preta/o é morto a cada 23 minutos? Quantos dessas/es jovens pretos e pretas somos nós? Quantos somos de nós que vamos às ruas pois uma mulher é violentada a cada 11 minutos e cinco são mortas a cada 24 horas? Quantos de nós saímos para frente de uma pizzaria quando uma de nós não pôde fazer xixi no banheiro do estabelecimento? Somos muitos, muitas e muites pelo direito de existir nestes lugares hora de direito, hora de privilégio chamada Cidade.

DEPOIS DO MÍNIMO COMUM: O DENOMINADOR

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Acredito que, até aqui, deixei mais ou menos claro nosso possível ambicioso caminho ao Direito à Cidade. Mas fica a pergunta qual é o melhor modo de lutarmos por este direito?

Não tenho uma resposta definida. Minha sugestão é que ocupemos a [SSEX BBOX], depois daqui, para colocarmos a cachola para funcionar, as possibilidade e estratégias são muitas. Entretanto, eu gostaria de colocar algumas nesta nossa conversa:

A primeira é mais interna, entre nós. Que tal a gente parar de apontarmos privilégios alheios e começar a usar nossos próprios privilégios à favor da expansão ao nosso Direito à Cidade?

Embora os movimentos sociais frequentemente se tornem presa de um grava sectarismo e de rachas, eles estão começando a criar uma ideologia mais coerente a partir das particularidades das diferentes reivindicações setoriais.

E a noticia boa é que já estamos fazendo isso aqui e agora.

Neste sentido, precisamos estar dentro dos mais diferentes lugares. Precisamos reivindicar nossas pautas como sindicas e síndicos do prédio que moramos, ser conselheiros municipais nos mais diferentes conselhos, estar nas associações de bairro, nos sindicados de classe, precisamos conversa com as LGBTQIA dos movimentos de moradia e dos movimentos sem terra, das centrais sindicais. Precisamos estar no Executivo, Legislativo e Judiciário. Precisamos estar nas ruas, nas ONGs que atendem refugiados, imigrantes, mulheres e crianças violentadas física, psicológica e sexualmente, pessoas com deficiência e moradores em situação de rua.

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Precisamos ser conselheiras e conselheiros tutelares.

Para cada lugar ocupado por um fundamentalista e conservador precisamos marcar nossa presença e tomar este lugar, pois é nosso por direito também.

Precisamos articular uma rede de Economia Solidária onde microempreededoras/es LGBTQIA estejam à frente: compraremos roupas das empresas que usam trabalho escravo ou com uma costureira sapatão, travesti, homem trans, bissexual, gay… Comeremos pizza onde a companheira travesti não pode fazer xixi ou comeremos no restaurante da nossa companheira LGBTQIA?

Acredito que a partir disso, e muito mais trocas que teremos hoje, poderemos ter nosso possível MÍNIMO DENOMINADOR COMUM: O DIREITO À CIDADE.”

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