por Helena Vieira

por Helena Vieira

Helena é travesti, transfeminista, pesquisadora de Teoria Queer,  É curadora do site do [SSEX BBOX] e colunista do Brasil Post e também de ‘Os Entendidos’, blog parceiro da Revista Fórum.

★ ASSISTA AQUI O VIDEO CLIP DA 2ª CONFERÊNCIA INTERNACIONAL [SSEX BBOX] & MIX BRASIL ★

A 2ª Conferência Internacional [SSEX BBOX] & Mix Brasil transformou o Centro Cultural São Paulo em um espaço onde muitas pessoas se sentiram compreendidas em pontos importantes de sua luta, além de promover a reflexão sobre novas estratégias de enfrentamento à homofobia e à transfobia.

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Escutar é mais que ouvir . É alcançar níveis diferentes na escala de audição. É valorizar e dar significado às palavras. E precisamos entender e saber em que nível escutamos o outro.

Texto copiado de: http://www.portaldomarcossantos.com.br/2013/05/09/escuta-empatica-e-mais-que-ouvir/
Copyright © Blog do Marcos Santos

Não pretendo escrever um texto acadêmico, nem mesmo um texto comum de opinião. As reflexões que tenho construído sobre a necessidade do diálogo como investimento político partem, em princípio, da relação que construi com o ativismo transfeminista, pensando, não somente minhas vivências, mas principalmente as relações que se constituem a partir das nossas formas de lutar e de lidar com aqueles que ocupam no mundo lugares outros, de privilégios, de transversalidades destes privilégios e da eterna instabilidade identitária. O mundo não é um lugar estável, assim como não são estáveis nossas formas de ser, de nos relacionarmos e de viver, o diálogo, talvez, seja o mecanismo de apreensão do instável, do errático, das dores e de seus sentidos.

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Ao defender o diálogo não tenho a intenção de tomá-lo como estratégia única, séssil, totalizante. Não. A fuga dos modelos totalizantes da realidade e da ação política constituem-se, a meu ver, como central no enfrentamento das nossas vulnerabilidades, tão esmagadoras e singulares, tanto nas respostas que nossas subjetividades ofertam ao mundo, quanto nas inúmeras formas de sentir dor, de entender esta dor e de, eventualmente, nos prepararmos para transformar o mundo e nossas realidades, coletivamente. O diálogo, como estratégia política é, fundamentalmente, a forma como podemos reabilitar a política, protegendo, a ela e ao mundo, daquilo que nos põe em risco constante: a desumanização, a precarização da nossa existência e das formas de ser no mundo, como animais políticos que somos e como sujeitos de nossas histórias.

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No contexto das lutas identitárias (escrevo desde as lutas transfeministas e queer) os lugares dos quais falamos ocupam papel central nos debates, estar no mundo da política ( não somente a partidária e a macropolítica, mas todo aquele espaço de interação humana) é entranhar-se num emaranhado de relações com sujeitos que gozam, muitas vezes, de condições mais efetivas de falar, de bocas e vozes que são produtoras das verdades do mundo, que tendem a nos excluir e construir inúmeras ausências. Contudo, e este talvez seja o desafio do diálogo, como construir formas de falar, de ser ouvido e claro, de ouvir, nestes contextos?

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É neste sentido que penso o diálogo no paradigma do investimento. Investir é selecionar, é uma ação direcionada, pensada e que visa dar valor a algo esperando que a partir dele haja algum retorno, neste caso, um retorno político. Nenhum investimento é seguro, sem risco e todo investimento demanda esperança. O sociólogo indiano Arjun Appadurai, em seu texto “ Los riesgos del dialogo”  aponta dois riscos fundamentais que precisamos assumir quando dialogamos. Em primeiro lugar, o risco de que não sejamos compreendidos ou de que sejamos mal interpretados, pra isso, segundo ele, selecionamos palavras, entonação e mecanismos de romper a barreira entre o “ eu” e o “ outro” afim de evitar este risco, contudo encontrar posições de escuta é o caminho mais seguro para que nos entendamos durante o exercício de dialogar.

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O segundo risco, paradoxalmente, é o de que sejamos entendidos plenamente, surpreendente, porém, Appadurai explica que o diálogo ocorre sobre certos limites e condições, sobre temas em relação aos quais podemos agir. Durante um diálogo não estão “ à mesa” nossas convicções mais fundamentais, deste modo, por exemplo, o diálogo entre cristãos e mulçumanos deve versar sobre a convivência e não sobre suas concepções de Deus ou de vida religiosa, tal desafio é realmente importante de ser compreendido, pois, em muitos casos, ao dialogarmos assumimos uma postura proselitista, abandonamos o paradigma do entendimento e migramos para as formas de convencimento, é comum que tomemos por bom o diálogo em que o outro sai convencido de nosso ponto de vista, o que, em hipótese alguma é o objetivo de um diálogo. Não há a necessidade de convencer ninguém, é preciso, outrossim, que o diálogo nos permita conhecer as narrativas, as dores, os anseios e os temores que residem no outro. Neste ponto é que surge a necessidade de pensarmos não a fala, mas a escuta.

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Rubem Alves, em seu famoso texto “ Escutatória” aborda um dos principais problemas ao conversarmos, que é a falsa escuta, ou o processo de escuta que nomeei de escuta autoritária.  É comum, por exemplo, enquanto ouvimos alguém nos contar sobre seus sofrimentos e problemas pessoais, que em seguida, comecemos com “ Ah, mas isso é fácil perto do que estou passando” ou “ Nossa, mas sabe que estou vivendo coisas assim também”, instalando, naquele momento, uma competição pela dor, uma competição sobre quem sofre mais ou acumula mais tragédias. Ainda, no mesmo sentido, em algumas situações, dialogamos em busca de uma falha, de um erro no discurso do outro que embasará nossa fala seguinte. Não há, deste modo, escuta, ela está destruída a priori em nome de uma postura autoritária, em que minha necessidade de ser ouvido é infinitamente superior a minha disposição de ouvir.

Como é possível construir entendimento sem escuta? Quando conversamos, o que estamos fazendo? Disputando os louros da piedade? A glória dos melhores argumentos?

Dialogor não é debater. O debate tem também sua importância como estratégia política e também implica em ouvir e considerar, mas nele, é possível que haja vencedores. Um diálogo não é algo a ser vencido, mas a ser travado, ele não é exatamente o resultado de si, mas o processo e as mudanças que ocorrem nos sujeitos envolvidos.

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Nos ativismos, sobretudo nos virtuais, mas também nos ativismos em universidades, movimentos estudantis e sociais diversos é comum nossa forma de falar seja, via de regra, agressiva, silenciadora. É no grito, nas acusações, cada vez mais comuns e subjetivas que temos, em alguma medida, construído nossas formas de lutar. Neste sentido penso que o diálogo precisa compor as muitas estratégias de luta, como uma nova epistemologia, uma epistemologia da convivência, de entender os saberes e as formas de ser que precisam ser “ ativadas” em situações que requerem de nós postura pedagógica, dialógica. O diálogo e a criação de pontes e laços é, talvez, o maior dos desafios na construção de nosssas lutas diárias.

ENCONTRO: PORTA DOS FUNDOS