por Mônica Saldanha

por Mônica Saldanha

Sapatona viciada em videogame e referências bibliográficas. Educadora em sexualidade, integrante do Grupo de Pesquisa em Sexualidade Humana da UNISAL, faz pesquisas nas temáticas de gênero e sexualidade, com foco em teoria e existências lésbicas.

FOTOS POR DANI VILLAR

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A 2ª Conferência Internacional [SSEX BBOX] & Mix Brasil transformou o Centro Cultural São Paulo em um espaço onde muitas pessoas se sentiram compreendidas em pontos importantes de sua luta, além de promover a reflexão sobre novas estratégias de enfrentamento à homofobia e à transfobia.

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Fiquei particularmente feliz ao ser convidada para a mesa “LGBTQIA+: mínimo denominador comum”, da 2ª Conferência Internacional [SSEX BBOX] porque, na convivência com os diversos grupos de militância e até mesmo no campo acadêmico, fica fácil perceber a dificuldade em se estabelecerem diálogos entre as realidades de vulnerabilidade e marginalização das populações LGBTQIA+. É urgente a discussão de propostas que perpassem as experiências das comunidades que integram o movimento sem, de um lado, hierarquizar opressões e, de outro, apagar as diferenças.

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Eu recebi a incumbência de representar a comunidade lésbica como um todo. Pediram que eu apresentasse, então, pautas da nossa comunidade para que pudéssemos abrir diálogos e projetos comuns. Este, por si só, é um desafio, uma vez que há uma série de especificidades que emergem deste grupo: as lésbicas brancas, negras, indígenas, as lésbicas mães, as lésbicas com deficiência, as lésbicas não conformes em relação ao gênero, entre tantas outras. Eu poderia passar o resto da noite apenas enumerando pautas de cada uma destas subcomunidades. A princípio, pensei em fazer isso e pedi a várias amigas que me enviassem temas e pautas que consideravam relevantes para essa mesa.Entretanto, pensando na proposta de diálogo, acabei optando por um outro caminho.

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Há, do meu ponto de vista, pelo menos duas formas de enxergarmos o movimento LGBTQIA+. Podemos vê-lo como um movimento que congrega diversas minorias sociais – ou populações vulneráveis – em busca de integração e reconhecimento social, uma abordagem que ignora as fragmentações do sujeito e entende a identidade como a sua descrição fiel, estável e prédiscursiva. Sob este ponto de vista, seria interessante enumerar pautas e especificidades com o objetivo de dar visibilidade a cada uma das subcomunidades e possibilitar a sua inclusão.

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Por outro lado, podemos vê-lo como um movimento que questiona os discursos e relações sociais que criam as condições de abjeção em que vivemos. A pesquisadora gaúcha Guacira Lopes Louro define queer como “a diferença que não quer ser assimilada”; é com este sentido que a especificidade das experiências não normativas surge nesta segunda abordagem: a experiência de abjeção é o ponto a partir do qual se articula um questionamento à norma. Ou, trazendo a perspectiva da antropóloga indiana Veena Das: a voz que dá um testemunho de violência denuncia o caráter criminoso da ordem social.

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Não se reivindica, portanto, a simples inclusão, mas a transformação das redes de relações que produziram a posição de abjeção da qual o discurso dissidente se enuncia. Deste modo, destacam-se o caráter político e discursivo da norma e das identidades, as descontinuidades e fragmentações do sujeito, abre-se espaço para discutir as experiências comuns e específicas que integram e atravessam cada uma das letras dessa sigla que só cresce. Podem-se discutir projetos e pautas comuns, reivindicações que não limitem ou apaguem umas às outras, mas que se somem no esforço de transformação.

Considerando a primeira abordagem, do movimento LGBTQIA+ como uma congregação de diferentes comunidades, sob um viés identitário liberal, poderíamos citar como pautas lésbicas a igualdade de direitos, o reconhecimento das nossas relações, o direito à reprodução assistida, o combate à fetichização dos nossos corpos e relacionamentos.

Entretanto, se nós entendermos o movimento como uma congregação de diferentes minorias, cada uma restrita ao seu universo e totalmente diferenciada das outras, como entender, por exemplo, a experiência da mulher lésbica que, durante um período da sua vida, se relacionou com homens? A da lésbica mãe? Como entender as experiências e realidades dessas mulheres sem, de um lado, reduzi-las para encaixá-las em um modelo identitário ou, de outro, relativizar a sua percepção de si mesma no mundo – ou seja, sua identidade? Para isso, devemos aceitar que é possível duas pessoas partilharem experiências sem que, pra isso, necessariamente, adotem a mesma identidade, tenham de apagar, esconder suas diferenças, reivindicar uma mesma posição política dentro da teia de relações que cria os limites entre identidades.

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Este não é, entretanto, um convite a abandonarmos nossas identidades, mas a pensá-las inseridas nos contextos sócio históricos em que emergiram, compreender os limites da política identitária e trabalhar com as zonas cinza que denunciam a fragilidade dos sistemas binários. Como destaca Joan Scott, há aí um paradoxo insolúvel com o qual precisamos aprender a conviver: a identidade a partir da qual reivindicamos inclusão é, ela mesma, produzida pelo discurso hegemônico que nos exclui. Entender a identidade como um efeito da marcação da diferença, que só pode existir enquanto houver um sistema de categorização e hierarquização atuando sobre nossos corpos, é essencial para percebermos nossas aproximações e lidarmos com nossos afastamentos.

Eu venho pensando o movimento LGBTQIA+ como um movimento de transformação social, que congrega uma variedade de experiências sexuais e de gênero não normativas, mas cujas identidades não são estáticas e facilmente delimitadas entre si; há muitas dessas zonas cinza que nos convidam a transpor os limites e encontrar o que há de comum entre nós. Desse modo, fica muito fácil pensar em pautas comuns porque o sistema que marginaliza e vulnerabiliza a mulher lésbica é o mesmo sistema que marginaliza e vulnerabiliza a travesti, a bissexual, o homem trans, o gay, o intersexo. São “braços” diferentes deste sistema ou relações diferentes com cada um desses “braços”, são experiências que se entrecortam, convergindo em alguns pontos e afastando-se em outros, mas são todas experiências decorrentes de um mesmo sistema de hierarquização e disciplinamento do corpo, de controle e de normatização.

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Considerando o movimento LGBTQIA+ como uma comunidade que partilha experiências sexuais e de gênero não normativas, cujo espaço de abjeção e cujas identidades se delineiam a partir de relações de poder, é difícil pensar em pautas exclusivas. Entendendo as identidades como posições de sujeito, é possível abordar um mesmo tema sob diversos olhares e, em vez de promover discordâncias e embates, compreender cada fenômeno social em sua complexidade.

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O diálogo, nesse contexto, surge como ferramenta que possibilita a essas vozes se unirem, cada uma acrescentando sua contribuição, para que se se compreendam os fenômenos de maneira cada vez mais complexa, multifacetada e rica. Entretanto, me refiro aqui a diálogo como um esforço não apenas de ouvir e racionalizar as palavras do outro, mas um esforço para se deixar tocar pelo testemunho que vem dele. Um esforço para acessar a experiência da qual esse discurso parte, um esforço de ouvir com empatia e afetividade, que me permita ver as semelhanças entre nós. Esse diálogo afetivo que me permite ver no outro um pouco de mim e vice-versa borra os limites – impostos pelo discurso normativo – que constituem nossas identidades e nos possibilita ver para além delas sem, contudo, nos esquecermos de como elas se constituíram.

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