POR CARLA SILVA

POR CARLA SILVA

Mulher preta, bissexual, feminista interseccional. Jornalista formada pela Universidade Anhembi Morumbi e pós-graduanda em Sociopsicologia pela Fundação Escola de Sociologia & Política de São Paulo (FESP-SP).

VEJA COMO FOI A 2ª CONFERÊNCIA INTERNACIONAL SSEX BBOX & MIXBRASIL

CONHEÇA MAIS SOBRE O DIVERSITY BBOX
CONSULTORIA DE DIVERSIDADE
INOVAÇÃO EM GESTÃO DE PESSOAS

 

No último sábado (11), cerca de trezentas pessoas se reuniram no Teatro Cásper Líbero conscientes da importância de uma coisa: precisamos falar sobre diversidade no JUCA. Os Jogos Universitários de Comunicação e Artes já estão em sua 23ª edição e é o evento mais esperado pelas oito universidades participantes – Anhembi Morumbi, Belas Artes, Cásper, ECA-USP, Mackenzie, Metodista, PUC Campinas e PUC-SP – e seus/suas alunos/as. Mesmo em meio a festas, jogos e toda a diversão que rola durante o JUCA, não podemos ignorar que o ambiente universitário ainda pode ser preconceituoso e opressor. O projeto “JUCA da Diversidade” é uma iniciativa do ex-aluno de Relações Internacionais da Belas Artes, Risaldo Carvalho Jr. em conjunto com a LAACA (Liga das Atléticas Acadêmicas de Comunicação & Artes) e a produtora Usina Universitária. Em desenvolvimento desde o mês de outubro do ano passado, o projeto pretende atuar em diversas frentes, conscientizando não só os atletas e suas respectivas torcidas, como os funcionários e fornecedores participantes do JUCA sobre as questões relacionadas à raça, gênero, sexualidade e pessoas com deficiência.

A primeira mesa de debate – composta por Charô Nunes, do Blogueiras Negras, Gláucia Costa, cientista da computação e estudante de teatro, mediada por Lívia Martins, do coletivo AfriCásper – deu início ao evento, trazendo questões sobre relações raciais. Gláucia apresentou dados sobre racismo, homofobia e violência contra a mulher e nos levou a uma reflexão sobre a desconstrução dos padrões estéticos e a valorização da estética negra.

Charô, por sua vez, relatou diversos casos de racismo na universidade e afirmou que fazer recortes e manter o olhar direcionado às interseccionalidades nos humaniza. Ao abrirem o espaço para perguntas, a mediadora priorizou as perguntas das mulheres negras que estavam presentes. Lívia explicou se tratar de um formato utilizado nos debates organizados pela AfriCásper para que a pirâmide de privilégios fosse invertida e a população minorizada tivesse mais voz.
Questionada pela plateia sobre qual é o papel dos aliados na luta contra o racismo, Charô foi contundente ao afirmar que o reconhecimento dos privilégios é fundamental – e encerrou suas considerações deixando a plateia em silêncio ao questionar: “Alguém está disposto a deixar sua vaga na universidade para ceder a uma pessoa negra?”

O debate sobre sexualidade levantou diversos pontos importantes, além de contar um pouco sobre a vivência e os projetos dos convidados da mesa. Pri Bertucci, do [SSEX BBOX], além de contar sobre a última conferência do [SSEX BBOX] e o projeto de consultoria e educação sobre diversidade que realiza em empresas e instituições – o Diversity BBOX – explicou, a pedido da mediadora Juliana de Borba, do Coletivo Colorido da Anhembi Morumbi, sobre a sigla LGBTQIA+ e a importância dos aliados nessa trajetória. Ficou evidente o desconhecimento da plateia – como também ocorre com a população brasileira – com os conceitos de identidade/expressão de gênero, orientação afetivo sexual e corpo/ genital. Magô Tonhon, também do [SSEX BBOX], deu uma aula ao falar sobre sua vivência enquanto mulher trans bissexual: afirmou querer fugir dos lugares existencialistas da sigla LGBTQIA, ao vê-los como armadilhas que impedem as pessoas de vê-la como uma pessoa comum. Contou sobre como é fazer mestrado na USP, um ambiente majoritariamente composto por brancos/as cis, onde teve seu “nome social” (termo com o qual não se sente bem) desrespeitado, mas ressaltou a importância de ocupar esses locais.

Debora Baldin, do Canal das Bee, também compôs a mesa e contou sobre o canal no YouTube e em como as responsabilidades foram crescendo ao longo do crescimento dele, recebendo até e-mails com pedidos de ajuda de pessoas LGBT que sofriam com a violência e a depressão. A partir disso, resolveu criar um financiamento online para poder viabilizar um psicólogo que pudesse ajudar essas pessoas – e daí vem surgindo o Bee Ajuda, um projeto de acolhimento virtual, que vai contar com profissionais que aceitem, conheçam e ajudem a população LGBTQIA+. Além do projeto, do qual pretende se tornar uma ONG referência na área de saúde mental, o financiamento também está sendo utilizado para viabilizar o primeiro curta metragem do Canal das Bee, que tem previsão de sair no meio deste ano.

O idealizador da Casa1, Iran Giusti, também foi um dos quatro convidados a compor a mesa sobre sexualidade e dividiu com a plateia todo o processo de criação da Casa1: desde quando apenas disponibilizava o seu apartamento para pessoas LGBT expulsas de casa, até a conquista do financiamento, aluguel, inauguração e atual funcionamento da casa. Em meio a tantas demandas de seus projetos, frisou a importância de estar ali participando do evento e da necessidade em acessar os universitários, para mostrar as diferentes realidades existentes fora da bolha de privilégios. Ao final das questões trazidas por cada convidado, um aluno questionou a plateia e pediu a reflexão de todos para que avaliassem se os/as alunos/as, as atléticas, as universidades e o próprio JUCA estavam preparados para receber pessoas trans e respeitá-las como são.

A última mesa tratou sobre gênero e contou com a presença de Carol Patrocinio, jornalista, Lívia Lima, do Nós, Mulheres da Periferia e o retorno de Magô Tonhon, do [SSEX BBOX], com mediação de Natália Belizario, do Coletivo Feminista da ECA-USP. O debate girou em torno de um tópico trazido pela mediadora: a absolvição do estudante de medicina da USP acusado de estuprar uma estudante de enfermagem. Enquanto Carol questionou a plateia para saber quem agiria caso presenciasse um caso de estupro, Magô tratou de falar sobre os estupros e as mais diversas violências que as pessoas trans sofrem em todos os ambientes. Livia Lima apontou que era muito valioso um debate como aquele acontecer no ambiente universitário, mas que as pessoas presentes não podiam esquecer que esse tipo de assunto, muitas vezes, quase nunca acontece na periferia. Todas as convidadas falaram das mais diversas formas sobre suas visões e vivências com o feminismo e ressaltaram que é importante ter a consciência de que existem pessoas que podem ser oprimidas pelo privilégio do(a) outro(a).

Para o encerramento, Carol salientou a necessidade de todos que estiverem presente no JUCA serem pontos de apoio, questionarem as posturas erradas, as músicas preconceituosas cantadas e qualquer atitude que possa ferir qualquer pessoa, principalmente a população minorizada. Os/as convidados/as aplaudiram de pé e as atléticas levantaram suas bandeiras, com reivindicações de respeito. Esperamos que, não só num evento como o JUCA, mas todo e qualquer meio universitário saiba aceitar, respeitar e apoiar as diversidades.