Por Júlia Rosemberg

Por Júlia Rosemberg

Mulher cisgênera, branca, bissexual, psicóloga social, corintiana, coordenadora do [SSEX BBOX] Brasil. Há 15 anos, dedica-se à inclusão social de negros, de pessoas com deficiência e da população LGBT no mercado de trabalho formal. Atualmente está empenhada em aumentar seus impactos positivos no planeta para que as gerações vindouras, incluindo a de sua filha Antônia, possam usufruir de recursos suficientes para viver.

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Em meados de 2016, estabelecemos uma parceria com o Instituto Itaú Cultural, no âmbito da mostra Todos os Gêneros. Realizamos, por meio do Diversity BBOX, três formações para xs funcionárixs do Instituto no que tange conceitos e práticas relacionadas à identidade de gênero, orientação afeitvo-sexual, dentre outros aspectos.

Durante a semana Todos os Gêneros realizamos o Circuito [SSEX BBOX], com roda de partilha – Feminismo Interseccional -, mesa de debate – Pingos nos Is: a inclusão radical e a comunicação não-violenta e mostra de filmeUm dia com Laerte e [SSEX BBOX], o filme. Além disso, assistimos e analisamos os 192 depoimentos coletados na cabine Todos os Gêneros.

O resultado você confere aqui:

A INCUMBÊNCIA

Entre os dias 25 de junho e 2 de julho de 2016, o Itaú Cultural disponibilizou ao público participante da mostra Todos os Gêneros uma cabine de filmagem, a fim de que as pessoas interessadas pudessem responder a sete questões sobre identidade de gênero e sexualidade, machismo, corpo e recomeços.* O [SSEX BBOX] foi convidado a assistir a todos os depoimentos e elaborar um texto analítico: é o que propomos aqui, sabendo que se trata de um dos possíveis recortes, não o único e definitivo.

OBSERVAÇÕES ESPONTANEAMENTE LÍQUIDAS

Ao assistirmos a todos os 192 depoimentos, alguns aspectos puderam ser identificados a olhos nus, por meio do que chamamos de observações espontaneamente líquidas.

a) Percebemos uma enorme diversidade de ideias e respostas, que reforçam as (obviamente) inúmeras experiências de vida, já que consideramos serem as perguntas disparadoras de vivências subjetivas.

b) Poucas pessoas cruzaram as respostas de algumas das sete perguntas por meio de análises ou relatos de experiências interseccionadas, considerando gênero, corpo e raça, por exemplo. 

c) Muitos respondentes, sobretudo os homens brancos, não extrapolaram ou expandiram questões de corpo e identidade, levando em consideração em suas respostas apenas experiências de ordem individual.

d) As mulheres negras, por outro lado, compuseram o grupo de respondentes com mais consciência das experiências raciais e de identidade de gênero.

Extraindo o sumo do que foi dito, vislumbramos uma nítida possibilidade de agrupamento de ideias em três grandes temas: “relações raciais”, “sexualidade e identidade de gênero” e “experiências relativas ao machismo”.

BREVES REFLEXÕES SOBRE RELAÇÕES RACIAIS  

“Quanto mais silenciada a branquidade, mais difícil combater fora do terreno onde ela reina.”
Liv Sovik, em Branquidade: Identidade Branca e Multiculturalismo

“Por que às vezes é tão assustador não se encaixar?” Responderam a essa questão 28 pessoas, que abordaram com mais ou menos profundidade aspectos referentes a um padrão vigente, a uma não aceitação em um determinado grupo ou a um desenquadre em relação a moldes socialmente estabelecidos. E a pergunta “Como seu corpo define quem você é?” foi respondida por 31 pessoas, que versaram sobre liberdade ou privação em relação à interação corpo-sociedade, sobre o corpo como definidor de traços de personalidade ou sobre aspectos relativos à matéria e seu caráter transitório.

No discurso emergido das respostas de pessoas brancas (principalmente homens), verificamos experiências exclusivamente individuais, como olhares, gestos, sensações: o corpo é um lugar seguro onde se pode existir. Observamos uma expressiva falta de consciência racial em termos de branquitude e privilégios. Ou seja, a experiência corporal das pessoas brancas respondentes não passa pela noção de dor, privação, medo, cerceamento. Pior: nem tangibiliza o contrário, o fato de que apenas por serem brancas têm acesso garantido a inúmeras regalias econômico-sociais. Por outro lado, a noção de raça e de racismo é expressada contundentemente pelos respondentes negros, sobretudo mulheres negras, que sobrepõem pelo menos dois marcadores identitários: cor e gênero.

Enquanto as pessoas brancas, especialmente os homens, não se enxergarem pertencentes a uma raça, o enfrentamento do racismo, da discriminação e do preconceito será continuamente enfraquecido pela falsa ideia de democracia racial. Classificar-se como “branco(a)” e se conscientizar dos privilégios inerentes a essa cor/raça é um dos primeiros passos para encararmos honestamente o problema do racismo no Brasil. Responder à pergunta “Qual o meu papel como uma pessoa branca no enfretamento do racismo?” é um bom exercício para a expansão da consciência.

Outro aspecto fundamental para reflexão é que nenhuma pessoa respondente mencionou ter qualquer tipo de deficiência física, auditiva ou visual. Isso nos faz assumir (inclusive o risco de assumir) a premissa de que nenhum respondente tem deficiência física, auditiva ou visual. Posto isso, observamos uma possível falta de consciência corporal de pessoas sem deficiência (com seus privilégios) em uma sociedade arquitetonicamente excludente, para ficarmos apenas na noção espacial. Uma ótima pergunta reflexiva é “Como é ter acesso físico aos espaços e estruturas de difícil acesso?”.

FLUIDOS E RUÍDOS SOBRE GÊNERO E SEXUALIDADE

Sem delongas, a pergunta “Qual a diferença entre sexo, identidade de gênero e orientação sexual?” confundiu quem a respondeu, seja pela formulação ambígua – o ideal seria corpo/genital em vez de sexo, já que esse trata das práticas sexuais –, seja pela falta de clareza geral em relação a cada um desses elementos – sexo, identidade de gênero e orientação sexual (aos quais acrescentamos mais um: papel/expressão de gênero).

Aqui, paramos para um rápido comentário sobre o termo “sexo” na pergunta citada: não há gênero no sexo biológico em si, o que existe é uma expectativa social de gênero em relação ao corpo/genital. Dessa forma, ninguém “nasce” mulher ou homem por ter vagina ou pênis.

A taxativa e cruel ideologia heterocisnormativa, perpetuada por uma sociedade autoritariamente patriarcal, reproduz acriticamente a falsa ideia de congruência entre corpo (ter nascido com pênis, vagina ou configuração ambígua), identidade de gênero (o entendimento que a pessoa tem sobre ela mesma, como ela se descreve e se reconhece), papel/expressão de gênero (como a pessoa se apresenta, sua aparência e seu comportamento) e orientação afetivo-sexual (para qual direção caminha involuntariamente o desejo afetivo e/ou sexual de uma pessoa).

Essa perspectiva ideológica heterocisnormativa concebe, aceita e alinha apenas duas possibilidades (e azar de quem não se reconhece dessa forma):

Baralho da Pluralidade, elaborado por www.diversitybbox.com

Mas a grande novidade (?!) é que existem inúmeras (talvez 7 bilhões e 300 milhões) possibilidades de existir no mundo, em relação tanto às configurações corporais quanto às identidades, às expressões, aos desejos… E, acima de tudo, são possíveis todas as combinações entre esses elementos, como naqueles livros infantis em que se misturam imagens de meninos usando patins de gelo, meninas de biquíni e capacete de astronauta.

A boa notícia é que muitxs respondentes da pergunta “Existem outros gêneros além de homem e mulher?” consideraram em suas respostas gêneros não binários (queer, fluido, neutro), bem como o gênero em uma perspectiva de construção social, dissociando, aqui sim, a falsa congruência entre corpo e identidade de gênero.

Por fim, afirmações, devaneios e respostas relativas à orientação sexual (à qual nós do [SSEX BBOX] nos referimos como orientação afetivo-sexual) não mencionaram a opressão de vivermos em uma sociedade sexo-normativa, em que os assexuais são bombardeados com frases de efeito do tipo “sexo é saúde”. Essa também é uma boa reflexão para a qual convidamos xs leitorxs.

AS RAÍZES PODRES DO MACHISMO PRENDEM NOSSOS PÉS

A pergunta “Como o machismo afeta você?” foi respondida por 31 pessoas, em sua maioria mulheres. Relatos viscerais, na lata, sem entretantos, e aqui misturados, deram conta de ilustrar o que é vivido por todas nós:
O machismo afeta a minha liberdade porque tenho medo de andar na rua, de beijar minha namorada em público. O machismo afeta minha vida profissional porque meu chefe acha que sou menos por ser mulher. O machismo afeta minha vida pessoal porque meu marido pensa que eu devo fazer mais pelos meus filhos do que ele. O machismo afeta meu jeito de me vestir, de falar, de me comportar, o machismo afeta minha subjetividade. O machismo enfraquece a sociedade, fecha portas e janelas.

Nós, mulheres, somos diariamente afetadas, expostas e vítimas de comportamentos violentamente misóginos, pois muitos homens perpetuam a crença de que somos suas propriedades, objetos de vitrine. Somos colocadas em uma sociedade que nos coisifica, nos fatia em bundas, peitos e xoxotas. Sentimos na pele, nos poros, no ventre o machismo infiltrado, embrenhado, aprofundado. O machismo vaza no mundo, no Brasil, em São Paulo.

Uma pesquisa de 2010** revelou, em sua amostra, que 90% dos homens entrevistados acreditam que existe machismo no Brasil, mas 74% deles não se consideram machistas. Precisamos, todas, todos, todes*** nós, descortinar o véu do machismo, desnaturalizá-lo, desmantelar essa estrutura para criar novos alicerces que deem conta de responder positivamente à pergunta: “Mulheres e homens têm de fato os mesmos direitos e as mesmas condições de existir?”.

POR FIM, O COMEÇO

O resultado de todas as respostas, análises e reflexões são duas sensações contraditórias que nos permeiam: cansaço e entusiasmo. O cansaço decorre de olhar para trás e ver o rastro das passadas lentas e curtas de uma espécie que ainda se edifica por meio de diferenciações profundas, excludentes, como se fôssemos – ou precisássemos ser – homogêneos, monolíticos e acromáticos. Temos muitos quilômetros a percorrer.

Mas, por outro lado, o entusiasmo nos tonifica porque existe de fato uma contracorrente cada vez mais robusta, consciente e preparada para construir uma sociedade mais justa, cooperativa e preocupada com o planeta – afinal, ele é a nossa grande casa e isso esperamos que ninguém jamais perca de perspectiva.

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* 25/6: O que é ser homem e o que é ser mulher? 26/6: Qual a diferença entre sexo, identidade de gênero e orientação sexual? 28/6: Existem outros gêneros além de homem e mulher? 29/6: Como seu corpo define quem você é? 30/6: Por que às vezes é tão assustador não se encaixar? 1/7: Como o machismo afeta você? 2/7: Quantas vezes você já recomeçou na vida?

** VENTURINI, Gustavo; GODINHO, Tatau (Orgs.). Mulheres Brasileiras e Gênero nos Espaços Público e Privado: uma Década de Mudança da Opinião Pública. São Paulo: Fundação Perceu Abramo; Edições Sesc SP, 2013.

*** Usamos o “e” em todes como tentativa de inclusão do gênero não binário na língua portuguesa e como alternativa para a usual generalização no masculino.

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