POR CARLA SILVA

POR CARLA SILVA

Mulher preta, bissexual, feminista interseccional. Jornalista formada pela Universidade Anhembi Morumbi e pós-graduanda em Sociopsicologia pela Fundação Escola de Sociologia & Política de São Paulo (FESP-SP).

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O clima era de frio e uma leve garoa, mas a tarde de eventos que estava por vir na Casa 1 foi tão inspiradora que só quem estava presente sabe o quanto foi valioso presenciar cada momento. Em meio à decoração acolhedora, com grandes almofadas e o aroma de lavanda no ar, deu-se início a Roda de Conversa “Wisdom Woman Brasil – um movimento internacional crescente de mulheres que acreditam que está na hora de começar a olhar para uma direção mais revolucionária e construir nosso mundo a partir de um paradigma diferente. Karine Caetano, Camila Pickersgill e Drix Feitosa, com mediação de Pri Bertucci propuseram começar a roda com uma pequena homenagem à Dandara Kataryne, travesti de 42 anos, brutalmente assassinada na capital cearense em fevereiro. Com o objetivo de propiciar um espaço de acolhimento, foram discutidas questões diversas: desde a violência sofrida pela população T, passando pela arte como forma de expressão da feminilidade, até uma rica introdução aos conceitos do sagrado feminino. Após debater assuntos tão importantes e delicados, os exercícios de dança e meditação voltaram a equilibrar e fortalecer as energias do ambiente e dos corações de quem estava presente, que se solidarizam e sofrem com as injustiças dessa violência.

O céu já começava a mudar de cor, com a chegada do pôr do sol. O ambiente foi reorganizado para dar início a Roda de Conversa “Jornal Mulherio” – um jornal feminista publicado de 1981 até 1988 que contou com a colaboração de feministas históricas como Sueli Carneiro, Fúlvia Rosemberg, Inês Castilho, Adelia Borges, Carmen da Silva, Carmen Barroso, Lélia Gonzales e Albertina Costa. O jornal teve lançada recentemente uma edição comemorativa, o Mulherio+35. Sueli Carneiro, Inês Castilho e Albertina Costa chegaram para compor a mesa e, um pouco antes da roda de conversa, Sueli concedeu uma entrevista especial ao [SSEX BBOX], que você pode conferir no final desta matéria. Júlia Rosemberg, filha de Fúlvia Rosemberg – bastante homenageada na ocasião – mediou a conversa.

O ambiente da roda de conversa era de um encontro de várias amigas, de identidades de gênero, orientação afetivo-sexual, faixa etária, raça e classe tão diversas e que decidiram se reunir para trocarem conhecimento, ideias e vivências sobre questões que as atingem e afligem. Enquanto Inês e Albertina davam uma aula sobre a história do Mulherio – e de outros meios de comunicação que foram essenciais para o crescimento e progresso da luta feminista ao longo da história – e a importância de preservar e acessar essas memórias históricas, Sueli falou de como o racismo e o sexismo sempre foram ferramentas de poder do patriarcado para violentar as mulheres desde muito cedo. O debate gerou vários desdobramentos e nas duas horas de duração da roda de conversa, foi possível ouvir sobre liberdade sexual feminina, transfeminismo, divisão da esquerda, ecofeminismo, apropriação de pautas feminista e negra pela esquerda e até uma proposta de retomar um antigo projeto da plataforma política feminista. É possível dizer que naquele momento, mais uma parte da história da luta das mulheres foi escrita, com direito a um encontro geracional de uma riqueza imensurável e o compromisso de lutar todas juntas, lado a lado, para que não se dê nenhum passo atrás na luta feminista.

 

Tudo está organizado a partir do poder patriarcal e o machismo está a serviço desse poder. O futuro do feminismo passa por nós, mulheres negras. Não podemos perder tempo com a discussão brancas versus negras. Sem organização política, não iremos à lugar algum. Não adianta ativismo de sofá, de internet. O passo transformador é de uma agenda política e só com essa organização feminista isso será possível. Tem que funcionar como uma agente da transformação.

Sueli Carneiro

 

Olhando para trás, ao longo da história do Mulherio, como você vê a importância das edições mais antigas e dessa nova edição comemorativa lançada recentemente? Como estamos debatendo bastante sobre feminismo e feminismo negro atualmente, o quanto é importante ter um conteúdo como esse para que meninas e mulheres negras possam ter o primeiro contato com esses movimentos?

Sueli: Eu recebi com muita emoção o convite para essa reedição comemorativa do Mulherio. É a oportunidade de fazer um retorno à nossa trajetória de movimento social, um dos mais pujantes que a sociedade brasileira pôde assistir e que foi protagonista de tantas lutas e tantas vitórias. É nesse contexto do qual o Mulherio se insere, que foi um instrumento extraordinário para alavancar esse protagonismo – é esse movimento que muda o Estatuto Jurídico das Mulheres no Brasil. Então é uma experiência extraordinária com um resultado extraordinário. Talvez poucos outros movimentos sociais tenham conquistas tão importantes, tão transformadoras e tão revolucionárias como o feminismo foi capaz de realizar em diferentes dimensões. Do ponto de vista cultural, do ponto de vista jurídico, alterou radicalmente a vida das mulheres no Brasil. Apesar de ser um movimento vitorioso, o Brasil tem certa dificuldade de preservar suas memórias, mantê-las vivas e fazer a transferência para as novas gerações. São histórias que frequentemente, principalmente das lutas e conquistas sociais, se perdem como esforço coletivo em torno de ideias mestras, corajosas e transformadoras da sociedade brasileira. Essa reedição não apenas presta tributo a uma companheira muito querida, muito respeitada e a quem todas devemos muito em termos de elaboração conceitual, teórica, de solidariedade e cumplicidade em diferentes dimensões da vida das mulheres, como a Fúlvia Rosemberg, mas é a oportunidade de prestar esse tributo a ela. Mobiliza-nos a fazer o resgate dessa trajetória de lutas que o Mulherio encarnou e que nos enche de orgulho. É por essa trajetória e por essa contribuição libertária e emancipatória que nós, mulheres brasileiras, demos a sociedade e que está registrada um pouco nessa publicação.

Como é, ao longo desses anos, caminhar e manter atual o Geledés – esse projeto que é uma referência quando o assunto é negritude e feminismo. Desde seu início até hoje, houve muitas mudanças?

Sueli: O Mulherio celebra, com essa edição comemorativa, 35 anos da emergência dessa publicação e o Geledés completa, no ano que vem, 30 anos de existência. São histórias que correm paralelas, interconectam-se em muitos momentos. Em abril de 2018, pretendemos celebrar essa trajetória inusitada de uma organização de mulheres negras que foi pioneira em muitas frentes de luta das mulheres, mas trazendo o recorte de raça, gênero e classe para debate. Acredito que o Geledés contribuiu para o ativismo, com seu programa de ação, para pautar a questão da mulher negra em dimensões onde até então não existia, como por exemplo: no âmbito dos Direitos Humanos, no âmbito da temática de saúde da mulher, no plano das comunicações, na questão de mercado de trabalho, no recorte das políticas públicas, das questões das desigualdades de gênero, na educação… Em todas essas dimensões, nos foi possível trazer uma contribuição, que pretendemos celebrar. Mas, sobretudo, acredito que a maior contribuição que o Geledés deu para a história da mulher negra no Brasil foi ter inspirado a emergência de organizações de mulheres negras de norte a sul do país. Hoje temos organizações de mulheres negras em todo o território nacional e muitas inspiradas na experiência pioneira do Geledés de tratar a questão da mulher negra a partir de uma determinada perspectiva, que é a de dialogar com todas as dimensões da vida social, trazendo a perspectiva das mulheres negras. Nós temos muito orgulho dessa trajetória, de chegar aos 30 anos com essa organização cheia de vitalidade e reconhecimento público e ainda apontando para as novas gerações essa história de luta que concretizamos ao longo desses anos.

Pensando em algumas questões que atingem as mulheres negras, como a violência obstetrícia, a depressão e a anemia falciforme, gostaria que você falasse um pouco sobre o programa brasileiro de orientação na área de saúde física e mental específico para mulheres negras, o único existente, criado por você. Por que é tão importante existir um programa como esse e dar luz a essas questões, por conta da negligência que as mulheres negras sofrem no âmbito da saúde física e mental?

Sueli: Uma das características do Geledés foi desenvolver competências e lideranças específicas em diferentes áreas. Nós tivemos um programa de saúde que durante uma década foi liderado por uma companheira – que hoje não pertence mais a organização, a Edna Roland – que trouxe à tona a importância de pautar o recorte racial no âmbito das temáticas de saúde, especificamente das mulheres. Essa incidência política resultou na introdução do quesito cor no Sistema Municipal de Saúde que, pela primeira vez, desagregou os dados de morbidade e mortalidade das mulheres por cor e que permitiu o reconhecimento dessa prevalência de um conjunto de fatores de saúde sobre mulheres negras. Também alavancou o de bate pela criação do Programa Nacional de Saúde da População Negra, que é um programa que tenta reconhecer essas questões. Ou seja, trabalhamos para que a política pública reconhecesse e viesse a traduzir essas necessidades em oferta de serviços públicos, que é a estratégia dessas lutas: fazer o poder público reconhecer e dar escala no tratamento diferenciado do qual essas pesquisas se referem. Esse é um ponto de agenda que continua como uma necessidade de luta política, de incidência e de ativismo que gira em torno de assegurar que as mortes das pessoas negras, que são possíveis de prevenir e evitar venha a receber a atenção que possa reduzir esta realidade. A luta é por política pública! O movimento negro já construiu a política adequada para dar conta dessa realidade, que passa não apenas pela saúde física como também pela saúde mental. Porém, não temos tido força e solidariedade política para fazer esse plano se expandir em nível nacional, como é a prescrição que ele tem. Esse é um dos desafios! A compreensão do problema e a elaboração foi um esforço do qual o Geledés participou e na origem foi pioneiro, com seu programa de saúde, de trazer a luz todas essas intercorrências que a racialidade coloca no tema da saúde no Brasil.

Atualmente, o assunto “geração tombamento” traz muitas discussões no meio feminista. Falando de feminismo negro e da valorização da estética negra, você acha que é possível desvincular a questão da estética da luta?

Sueli: As mulheres e meninas negras tem todo o direito de travar sua luta do jeito que elas bem entenderem. Se é “tombamento”, é uma etapa da compreensão, um estado de consciência, a necessidade que está impulsionando neste momento e é tão legítimo quanto qualquer outra etapa. A minha geração também trabalhou a questão da estética negra, fez o black power… Ou seja, cada geração e todos os movimentos, não apenas o feminismo negro, mas todo pensamento transformador precisa de forma e conteúdo, como também precisa de uma estética que o represente e simbolize. Se o feminismo negro está buscando no tombamento essa estética, tem todo o direito de fazer. Não cabe a mim, da geração anterior, julgar isso. A minha geração fez a sua luta e fez também os seus experimentos estéticos para representar essa luta. É direito de cada geração fazer suas coisas à sua maneira e o jovem pode tudo! E tem a prerrogativa de poder errar também. Você sabe o que é isso? É uma delícia, errem muito, se deem ao luxo. Quem não pode errar somos nós, das gerações mais antigas.

Tem alguma escritora ou artista, seja nacional ou internacional, que em sua opinião, esteja fazendo um bom trabalho falando sobre feminismo negro?

Sueli: O que eu mais gosto desse momento é que existe uma polifonia. É uma multiplicidade de vozes, coisa que na nossa geração não aconteceu. Hoje você tem a Voz da Periferia, que é um ruído estrondoso; você tem as acadêmicas negras, que estão aprofundando a questão do feminismo interseccional; você tem as articulistas. Eu fiquei sete anos da minha carreira sendo a única articulista negra em um jornal de expressão nacional, era uma angústia essa solidão. Hoje você tem um monte de mulheres e eu adoro um monte delas: Djamila Ribeiro, Stephanie Ribeiro, Joice Berth, Luana Tolentino… É até injusto pedir para que eu cite nomes, pois são muitas mulheres ótimas. E a todo o momento aparece um novo nome, todas escrevendo muito, escrevendo bem, com muita ousadia e até irreverência. Nunca tivemos um momento tão fértil, tão bonito e tão diverso no interior da comunidade de mulheres negras. Elas também vêm expressando um novo tipo de sororidade, que é algo extremamente bonito. Então eu sou tiete de todas! Há anos eu venho dizendo: “meninas, aceitem esse bastão!”, porque essas são as lutas mais justas que travamos pela humanidade. Hoje eu nem preciso dizer isso, pois o bastão está seguro na mão de uma multiplicidade de mulheres negras. Acho que Lélia Gonzales, Sueli Carneiro e Beatriz Nascimento estão felizes, onde quer que estejam – as que se foram e as que aqui permanecem – de ver essa “meninada” muito corajosa por aí.