Júlia Rosemberg

Júlia Rosemberg

Mulher cis, branca, bi, corintiana, pós-balzaquiana e mãe da Antônia.

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Fui convidada a participar do VI Colóquio Internacional de Estudos Sobre Homens e Masculinidades, que aconteceu em Recife, entre 02 e 05 de abril. O convite me deixou muito animada – e curiosa – para abrir novas frentes de diálogo e reflexões sobre masculinidades, assunto que muito me interessa e, além do mais, Benedito Medrado e Jorge Lyra – do Instituto Papai – são amigos muito queridos e que estavam à frente do evento incrível e muitíssimo bem organizado.

Dentre outras atividades, coordenei o grupo de trabalho sobre direitos sexuais & arte, corpo, memória e cultura. Foram apresentados 11 trabalhos acadêmicos, sobre os mais variados temas: representações do masculino na literatura brasileira; mídia, poder, esporte e as masculinidades hegemônicas; sexualidade, política e amizade um conto do Senel Paz; performance hardcore, masculinidade e a emergência do corpo blindado, dentre outros.

No decorrer das apresentações, fui me dando conta de que o termo masculinidade hegemônica foi incluído nas narrativas como uma categoria – se é posso chamar assim – estanque: me intrigou a imaterialidade do marcador identitário masculinidade hegemônica.

Por isso, abri o debate perguntando (claro que a partir da ótica de cada um/a) quais os componentes inerentes à dita masculinidade hegemônica, uma vez que, se não existe algo essencial ou universal às masculinidades, a mesma lógica pode e deve ser aplicada ao que se considera suas hegemonias.

Muito bem tecidas as respostas que seguiram na linha da imaterialidade. Mas minha indagação foi na perspectiva de podermos nomear essa masculinidade hegemônica, dar forma, cor, consistência a essa categoria quando referida.

E, para mim, a importância de nomear essa masculinidade hegemônica, de dar forma, cor, consistência a essa masculinidade hegemônica é justamente porque existe o outro grupo ou, para ficarmos nos mesmos termos, a outra categoria: a das identidades em sujeição.

Minhas reflexões partem da prática: no meu cotidiano de trabalho – como consultora de diversidade em gênero e sexualidade -, e na minha condição identitária – como uma mulher cisgênera –, materializo e nomeio, com facilidade, a que considero eu como sendo a grande masculinidade hegemônica: corpos brancos, com pênis, que se autodeterminam homens (ainda não cisgêneros, apenas homens), que não têm nenhum tipo de deficiência, gostam de mulheres e de futebol, têm entre 25 e 50 anos, moram nas grandes cidades, estão empregados e ocupam cargos de liderança, têm carro e cartão de crédito. E eu só posso, eu só consigo materializar e nomear essa masculinidade hegemônica porque a linha que costura todas essas características que citei se chama privilégio.

O privilégio de se ter nascido com pênis numa sociedade falocentrada, o privilégio de se ter nascido branco numa sociedade racializada e racista, o privilégio se ter um corpo funcional numa sociedade excludente, o privilégio de gostar e transar com pessoa do gênero oposto numa sociedade homofóbica. E tantos outros. E se eu consigo ver os privilégios que essa masculinidade hegemônica carrega, consigo mais que ver, sentir, os desprivilégios de não pertencer a esse projeto de supremacia.

Na prática, vejo que os homens, brancos, cis e sem deficiência incorporaram e estão incorporando muitíssimo bem o discurso da diversidade humana e estão vendendo às empresas – igualmente compostas, em cargos decisórios, por homens, brancos, cis e sem deficiência – seus serviços de consultoria.

Me pergunto muitas coisas, dentre elas se nesses serviços em favor da diversidade corporativa existe um verdadeiro engajamento na mudança demográfica da empresa. Trocando em miúdos: no final do dia, os/as gestores/as e o departamento de RH terão uma atitude de ação afirmativa pró mulheres, trans, negras/os, pessoas com deficiência?

***

Muitas reflexões, contatos, trocas: o VI Colóquio Internacional de Estudos Sobre Homens e Masculinidades me deu a chance de conversar com pessoas que estão pesando e produzindo conhecimento sobre os homens e as masculinidades, mas uma evidência ululou bem nas minhas fuças: temos quilômetros mil de distância entre o discurso e a prática. Sem dúvida, o diálogo é um caminho importante, mas está na hora de materializamos o muito que já aprendemos. [to be continued]