POR DODI LEAL E João Mostazo

POR DODI LEAL E João Mostazo


Dodi Leal é mulher transgênera, artista-educadora de criações e processos pedagógicos de teatro e dança. Foi coordenadora de pesquisa-ação do Piá – Programa de iniciação artística da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo, desde 2015. Doutoranda em Psicologia Social pelo IP-USP. Licenciada em Artes Cênicas pela ECA-USP. Habilitada em Cinema e vídeo no quadro do Baccalauréat interdisciplinaire en arts da Université du Québec à Chicoutimi (UQAC, Québec-Canadá). Estudou Teatro do Oprimido com Augusto Boal e CTO-Rio. Pesquisa a poética de gênero na cena teatral.
João Mostazo é poeta e dramaturgo, autor das peças Fauna Fácil de Bestas Simples, Rompecabezas e A Demência dos Touros

photographer Leland Bobbé for an ongoing series entitled Half-Drag.

★ ASSISTA AQUI O VIDEO CLIP DA 2ª CONFERÊNCIA INTERNACIONAL [SSEX BBOX] & MIX BRASIL ★


A 2ª Conferência Internacional [SSEX BBOX] & Mix Brasil transformou o Centro Cultural São Paulo em um espaço onde muitas pessoas se sentiram compreendidas em pontos importantes de sua luta, além de promover a reflexão sobre novas estratégias de enfrentamento à homofobia e à transfobia.

Assista nossa websérie no Vimeo

Inscreva-se em nosso canal no Youtube

▼Assista ao breve resumo em vídeo da Primeira Conferência



Diante daquilo que se convencionou chamar de “a questão trans”, o que impede que qualquer homem ou mulher cis, se auto-denomine transgênero/a?

Vamos deixar as coisas bem ditas: não se trata de afirmar que todos/as somos trans – o que é, ao menos do ponto de vista político, obsceno. (Basta comparar a expectativa de vida de um homem cis de 78 anos no Brasil, com a das mulheres transgêneras no Brasil – 36 anos). Ao contrário, essa é uma pergunta deliberadamente ingênua: se trata aqui de colocar em questão os termos com os quais debatemos, no ardiloso cenário político atual.

O ponto a que queremos chegar é: se uma pessoa transgênera é aquela que transiciona gênero, o que define uma pessoa cisgênera? É aquela que não transiciona gênero. Elementar.

Mas o que quer dizer não transicionar gênero? Se não transicionar gênero significa identificar-se com o gênero que lhe foi atribuído no nascimento – você nasceu com pau, é homem; nasceu com boceta, é mulher etc. –, desconfiamos que estamos perdendo algo importante aqui. Essa identificação não é auto-evidente.

Não é sintomático que, nas sociedades ditas tradicionais, uma série de ritos tenham como propósito justamente afirmar essa identificação? “Você é homem de verdade? Então aja assim, assado…” “Você não é uma mulher? Por que está agindo como um homem?” etc.

Todos/as estamos acostumados/as com esse tipo de injunção, e com toda a opressão histórica que ela carrega. Politicamente, estamos totalmente do lado daqueles e daquelas que defendem que é preciso acabar com esses ritos urgentemente. Mas não é isso que pensaremos aqui. A reflexão proposta é: o que querem dizer esses ritos? Por que as sociedades tradicionais hegemônicas – patriarcais, machistas, cisnormativas e o escambau – por que elas têm essa necessidade absurda de afirmar uma correlação entre performance de gênero e corpo|genital? A razão para isso, e este é o ponto, é que não existe, a rigor, correlação possível aí. Há uma espécie de verdade inconsciente nesses ritos – perversos e opressores como são: nenhum homem é um homem; nenhuma mulher é uma mulher. Há sempre uma lacuna entre o gênero que performamos e o nosso gênero, adiantemos, real. Daí a necessidade de reafirmar a constelação normativa dos gêneros, numa perspectiva tradicional: é a necessidade que surge no bojo da incapacidade de lidar com essa verdade, com a verdade de que o gênero, enquanto tal, é, por definição, um impasse. Em alguns debates, estamos perdendo a noção desse intervalo fundamental e constitutivo da experiência de gênero.

Isso é paradoxal, porque em larga medida é exatamente esse o ponto principal da teoria de gênero: a desnaturalização da correlação entre performance e corpo|genital. O que parece que pessoas cisgêneras ainda não entenderam bem é que, mesmo entre pessoas cis, essa identificação é impossível. Uma pessoa cis pode se afirmar o quanto quiser como homem ou mulher, só porque tem pau ou boceta, mas ela nunca será, verdadeiramente, homem ou mulher, senão no interior da ordem simbólica determinada. Isso quer dizer que não existem homens e mulheres, que existe apenas como se fosse uma zona de indeterminação que antecede tanto um quanto o outro? Não exatamente: colocado assim, o problema está de ponta cabeça. A questão não é a zona de indeterminação que precede a particularização dos gêneros – isso seria substancializar o real em uma espécie de ancestralidade da ideia de gênero, profunda, inacessível, comum a todos.

Ao contrário, o próprio gênero, como tal, em todas as suas manifestações simbólicas, é em si constituído por essa fratura no simbólico – e é essa fratura que estamos chamando, a partir de Lacan, de real: o instante de fracasso da simbolização. A performance associada com tal ou tal gênero é sempre a performance do fracasso desse gênero.

A identificação simbólica de gênero –  homens ou mulheres que se identificam como homens ou mulheres – não existe no real. Homens e mulheres são, no real, o seu próprio fracasso simbólico. Essa é a grande lição da que a “questão trans” traz à tona.

O que quer dizer, então, ser trans ou cis, com relação a essa diferença já aludida aqui entre Real e Simbólico? Enquanto a normatividade cis se esforça para manter a ordem simbólica dos gêneros (homem tem pau, mulher tem boceta) de modo a garantir que as coordenadas simbólicas entre homens e mulheres permaneça inalterada, que a sua hierarquia permaneça rígida e as preferências performativas nas quais ela implica permaneçam intocadas (homens se vestem dessa maneira, falam dessa maneira, agem dessa maneira; mulheres desta…) – enquanto a normatividade cisgênera zela pelos papéis e expressão que os gêneros assumem, tradicionalmente, no interior de uma determinada situação simbólica, as pessoas transgêneras deslocam essa mesma ordem simbólica.

De certa maneira, a transgeneridade é o real da cisgeneridade: é o seu impasse constitutivo; é o ponto em que a ordem simbólica ameaça ruir; é o ponto de impossibilidade, a negação sobre a qual a ordem simbólica (e devemos acrescentar aqui, de passagem, imaginária) se sustenta.

De uma perspectiva psicanalítica, o real é aquilo que não pode ser simbolizado senão como fracasso de si mesmo; as pessoas trans são aquelas que, no interior da situação simbólica cisnormativa, não podem circular. Isso os noticiários deixam evidente, todos os dias.

Isso parece que elucida de alguma maneira o problema político que envolve as populações trans. Longe de querer racionalizar a violência, apenas refletimos aqui sobre o fato de a série de crimes (jurídicos e civis – impunes, na sua maioria) cometidos contra pessoas trans no Brasil ser profundamente sintomática: a performance transgênera, na medida em que é uma performance de permanente transição, pois não visa nunca chegar a lugar algum – é puro devir – é o real da performance cisgênera – a qual pretende, mesmo que isso seja impossível, chegar a algum lugar, a uma coordenada simbólica reconhecível (homem, mulher). É o seu real porque é a performance do puro-impasse: do gênero-enquanto-tal, e não de tal-e-tal gênero.

A passabilidade, ou a falta dela, assim, não se trata de um operador conclusivo. Não é o caso de dizer se uma mulher transgênera, por exemplo, poderá ou não ser verdadeiramente uma mulher; ao dizê-lo, já estamos aceitando uma noção que concebe o gênero como coordenada definitiva.

Ao contrário, se dissermos que isso não é possível, é apenas na medida em que uma mulher cisgênera também jamais pode ser verdadeiramente uma mulher, se considerarmos o impasse constitutivo da identidade de gênero “mulher”, no real. Ao mesmo tempo, no simbólico, a leitura de gênero que supõe a verdade sobre a identidade “mulher” pode legitimar socialmente uma mulher cisgênera. Tal como argumentamos aqui, a passabilidade diz respeito à expressão de gênero. Se a performance de gênero (cis ou trans) é o impasse da identidade de gênero (homem ou mulher), a expressão de gênero (com mais ou menos passabilidade de homens ou mulheres, de pessoas cis ou de pessoas trans) é o conteúdo explícito no qual matérias subjetivo-sociais são tensionadas. A expressão de gênero, que se dá tanto em ação gestual como em ação discursiva é simultaneamente o campo de luta por reconhecimento e receptáculo final das realizações de violência de gênero. A violência contra pessoas trans, então, ocorre no real (contra a performance de gênero trans), sobre o impasse simbólico (identidade de gênero homem ou mulher) que se concretiza, pela opressão, em sua expressão de gênero.

Vamos retomar a questão inicial, para não deixar dúvida: não estamos dizendo que todas as pessoas, no real, sejam trans. Não é isso. Não é isso porque transgênero/a, da maneira como eu entendo o termo, não é uma identidade de gênero: é uma performance. E não é uma performance simbólica, mas real. É a performance que diz que não existem identidades de gênero – que o gênero enquanto tal é sempre uma não-identidade consigo mesmo. Que a experiência do gênero – seja cis ou trans – é sempre a de um impasse interno. Para muitas pessoas cis, isso é uma verdade insuportável.

Ao mesmo tempo, e este é um ponto crucial que estamos apenas começando a compreender, e cujos marcadores sociais de desigualdade correspondetes a denotar, politicamente a performatividade trans ou cis não é subserviente a um impasse da identidade de gênero. A performatividade trans ou cis, como argumentamos aqui, escandaliza a fratura de uma inalcançável fixação de gênero, pois só há fixação possível na medida em que o que é fixado é o impasse. No entanto, reforçamos, não significa que o que realmente importa é não termos um saber para identificar gênero, mas que a performance é sempre um saber sobre termos ou não termos um saber para o gênero enquanto simbólico.

Se trazemos conosco a cicatriz que nos foi marcada na carne (identidade), ao entrarmos em cena (performance) – e sempre entramos –, não apenas provamos o impasse, mas vivemos a única maneira que gênero pode ser vivida: nas diferentes maneiras de lidar com este fracasso do que significa ser socialmente homem ou mulher.

Daí, o potencial político da performance transgênera: a exposição da fratura, a experiência do antagonismo fundamental que constitui a situação simbólica do gênero, na nossa sociedade. Algo análogo ao que Marx chamou de luta de classes: não a batalha infinita de uma classe contra a outra, mas o antagonismo fundamental da sociedade de classes: a luta interna de cada classe, que não pode nunca, no real, ser aquilo que afirma ser, no simbólico. A solidariedade das pessoas cisgêneras com as pessoas transgêneras deve ser essa, e somente essa: a solidariedade de um impasse.

Aquilo que nos une, aquilo que nos é comum, não é um terreno neutro de identidade, um campo aberto da utopia em que todos podem ser aquilo que imaginam que são – mas o campo minado da fratura no simbólico, onde ninguém nunca é idêntico a si mesmo, independente da sua performance particular de gênero; onde todos os sujeitos reconhecem e carregam consigo a cicatriz que lhes foi marcada na carne, antes de entrar em cena.