Por Mônica Saldanha

Por Mônica Saldanha

Sapatona viciada em videogame e referências bibliográficas. Educadora em sexualidade, integrante do Grupo de Pesquisa em Sexualidade Humana da UNISAL, faz pesquisas nas temáticas de gênero e sexualidade, com foco em teoria e existências lésbicas.

A 2ª Conferência Internacional [SSEX BBOX] & Mix Brasil transformou o Centro Cultural São Paulo em um espaço onde muitas pessoas se sentiram compreendidas em pontos importantes de sua luta, além de promover a reflexão sobre novas estratégias de enfrentamento à homofobia e à transfobia.

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Quando fui convidada para um texto sobre lésbicas que fizeram e fazem história no Brasil, tanto por sua atuação junto ao movimento feminista quanto por seu envolvimento no campo das artes, fui tomada por duas emoções distintas: a satisfação por poder participar de um projeto como esse e o incômodo pela certeza de que surgiram, mais uma vez, os mesmos nomes.

Não que eu considere pouco importante a contribuição daquelas que estão frequentemente em listas de “personagens LGBT” brasileiros, mas porque, ao escolher as mesmas figuras, terminamos por reproduzir a lógica de que um de nós pode “representar” os outros sempre, a lógica que diz que um de nós já é suficiente – já “chegou lá” – e que, por isso, é desnecessário continuar reclamando espaço.

Sendo assim, apaguei o “lésbicas famosas Brasil” que havia digitado na barra do Google e decidi apelar a uma ferramenta de busca mais refinada: a memória das mulheres que atuam cotidianamente junto a essas lésbicas que queríamos encontrar. Em questão de minutos, nomes foram surgindo (ninguém indicou Ana Carolina, o que eu considero uma vitória, visto que Ana é sempre lembrada em listas lésbicas, apesar de se declarar bissexual – pelo menos nas entrevistas que eu li), nomes que eu desconhecia, nomes que marcaram também a minha trajetória, nomes que emergiram recentemente e que têm ocupado papel importante na construção de uma sociedade mais diversa.

Selecionei – com muita dificuldade – apenas algumas delas e decidi expandir um pouco o universo da Arte pra incluir, também, os esportes, a produção de conteúdo na Internet e outros engajamentos cotidianos que, embora não sejam tão visíveis, dão força à comunidade lésbica.

AMANDA NUNES – primeira campeã brasileira do Ultimate Fight Championship (UFC), a lutadora baiana é, também, a primeira declaradamente lésbica a ganhar um cinturão do mais famoso evento de MMA do mundo. Depois de conquistar o cinturão, Amanda ainda derrotou a ex-campeã mais famosa do UFC, Ronda Rousey, e fez questão de apontar a importância da namorada, a também lutadora Nina Ansaroff, na sua conquista.

Casa, comida, inglês e treinos: como namorada ajudou Amanda a ser a 1ª campeã gay do UFC

BELIZA BUZOLLO – quadrinista que assina o Na Ponta da Língua, Beliza mistura humor e ativismo feminista e LBT. A artista foi publicada pela primeira vez na fanzine Divertida Diversidade, compilou seus trabalhos no Tumblr e acabou por promover, junto com a produtora Letícia Rezende, uma ocupação artística em sua cidade natal, Uberaba.

Beliza Buzollo e seus quadrinhos sobre mulheres que gostam de mulheres

https://www.facebook.com/Na-Ponta-da-L%C3%ADngua-1545758632382885/

CASSANDRA RIOS – escritora nascida na década de 1930, na cidade de São Paulo, Cassandra Rios trabalhou a temática lésbica em suas obras, foi censurada e presa pelo governo de Getúlio Vargas e sofreu um processo de apagamento que quase excluiu seu nome da história da literatura nacional. Cassandra chegou a ter todos os seus livros censurados em 1977 e foi condenada pela justiça por distribuir literatura pornográfica, embora fosse sucesso de público e tenha recebido elogios de Jorge Amado. Cassandra foi a primeira mulher a atingir a marca de um milhão de exemplares vendidos no Brasil e seu livro, A Volúpia do Pecado, é reconhecido como a primeira obra nacional a discutir a descoberta da lesbianidade e a construção do amor entre mulheres.

Nos anos 70, ninguém foi mais censurado no Brasil do que Cassandra Rios

http://eventos.livera.com.br/trabalho/98-1020715_30_06_2015_14-54-30_4931.PDF

Cassandra Rios: a Safo de Perdizes – Entrevista com Hanna Korich


J LO. BORGES
– historiadora formada pela UERJ, Jennifer Borges – a J. Lo. – também é tatuadora, começou a grafitar por incentivo de amigas e se tornou arte educadora em escolas do Rio de Janeiro, onde nasceu. Selecionada pela Rede Nami para realizar um curso de arte urbana e empreendedorismo social, hoje J. Lo. faz parte da AfroGrafiteiras, uma associação de mulheres que usam a arte urbana para discutir temas políticos e promover os direitos da população negra e das mulheres. Alguns trabalhos da artista foram expostos na Galeria Scenarium, em 2015.

‘Preta, pobre e periférica, não imaginei estar numa galeria de arte’, diz artista

https://www.facebook.com/jloborges

LOUIE PONTO – com vídeos espontâneos e divertidos, Louie, que é mestranda em Crítica Feminista pela UFSC, discute temas ligados a sexualidade, gênero, feminismo, literatura e o que mais vier. A plataforma utilizada, a Internet – em especial o YouTube, onde ela mantém seu canal, e o Twitter, onde responde prontamente a todo mundo que puxa papo – permite o acesso direto a um público bastante diverso. Além de trazer temas difíceis, como relacionamentos abusivos e lesbofobia, com leveza e didática, o trabalho da youtuber ajuda as jovens a se relacionarem melhor com a família. É comum ler depoimentos de mães e pais que passaram a compreender e apoiar os filhos LGBT acompanhando o canal – e se tornaram, eles mesmos, fãs da Louie.

http://twitter.com/louieponto

http://www.youtube.com/louieponto


LUANA HANSEN
– a rapper negra, lésbica e feminista que usa a arte para levantar discussões políticas profundas tem uma trajetória de vida marcante.  Ganhadora do prêmio Hutúz, principal premiação do hip hop nacional, Luana foi a única brasileira a participar do Somos Mucho Más, primeiro festival de hip hop feminino da América Latina. Luana também apóia outras artistas que usam a música como instrumento político através do estúdio montado em sua casa, o ESAPAS – Estúdio de Sons Alternativos Para Aterrorizar o Sistema.

https://soundcloud.com/luanahansen

Negra, lésbica e feminista, Luana Hansen vai representar o rap brasileiro em Cuba

Entrevista com Mc Luana Hansen

SUPER – personagem principal da webserie homônima, idealizada por estudantes de cinema da UFSC e premiada na Rio WebFest, festival dedicado às novas mídias.  A série, produzida de forma totalmente independente e cujos episódios foram disponibilizados através do YouTube, contou com uma equipe composta majoritariamente por mulheres e trabalhou temas como empoderamento feminino, assédio e homosexualidade.

Conheça “Super”, websérie catarinense que ganhou prêmio em festival do gênero no Rio de Janeiro

https://www.superwebserie.com/

RAFAELA SILVA – Rafaela quase deixou o judô em 2012, quando sofreu ofensas racistas após ser desclassificada das Olimpíadas de Londres. Quatro anos depois, conquistou a primeira medalha de ouro brasileira nas Olimpíadas de 2016, no Rio de Janeiro. A carioca, nascida na Cidade de Deus, aproximou-se do esporte em 2000, através do Instituto Reação, criado pelo também medalhista olímpico Flávio Canto.

Negra, pobre e Silva: o primeiro ouro da Rio 2016 é a cara do Brasil

As irmãs, que brigavam todos os dias na escola e na rua, tiveram suas vidas completamente transformadas pelo judô.



THALITA COELHO
– doutoranda em Crítica Feminista pela UFSC, Thalita foi responsável pelo trabalho de catalogação e descrição da obra inédita de Jorge Amado, escrita durante seu período de exílio, na dissertação Entre esparsos e inéditos: a mala de Jorge Amado. Atualmente envolvida em pesquisa sobre a construção de personagens mulheres em movimentos políticos, ela também se dedica à finalização do seu primeiro livro, Desmemoria, e utiliza as redes sociais para divulgar textos autorais com a temática lésbica.

http://facebook.com/tcoelholiteratura

http://twitter.com/textoslesbicos


VANGE LEONEL – cantora, compositora, escritora, Vange foi um ícone da luta LGBT e feminista no Brasil. Entre as suas obras estão a peça As Sereias da Rive Gauche, a compilação de crônicas Grrrls – Garotas Iradas, e os livros Baladas para as Meninas Perdidas,  Lésbicas e Joana Evangelista.

Vange Leonel estréia peça sobre lésbicas dos anos 20

Sexo, música e verossimilhança embalam Vange Leonel

Em julho desse ano, recebemos uma notícia triste e devastadora: Vange Leonel faleceu.

 

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