Erick Pires

Erick Pires

Graduando de Pedagogia pela UNESP FCL Araraquara. Pesquisador de Teoria Critica, Filosofia para crianças, Sexualidade e Gênero, Assexualidade e Educação Sexual. Assexual e principalmente arromântico. Amante de gatos, crianças, livros, amigos e pizza.

Assexuais existem

Pode até parecer difícil compreender na primeira impressão, pois quando digo que pesquiso assexualidade, as pessoas escutam “pesquiso a sexualidade”. Quando digo que sou assexual a única referência linguística mais próxima que alguém tem é com o termo assexuado, que não tem ligação alguma com o que é a assexualidade em si. E é por essa razão que o maior protesto que um assexual pode fazer, é dizer que ele existe. Pois em meio à toda essa sexonormatividade, em que a todo momento as pessoas colocam a sua assexualidade à prova – como se fosse uma realidade difícil de ser concebida – é necessário reafirmar que assexuais existem. Mas a compreensão destas palavras é um pouco mais ampla e ficará explicita neste artigo.

Compreender que assexuais existem, é compreender sua emergente luta e uma delas é compreender que o termo correto é assexual, e não assexuado. Não existe homossexuado, heterossexuado, bissexuado, panssexuado, etc. Então se estamos falando de igualdade entre as mais diversas orientações sexuais, estamos falando em todos os campos possíveis. Se a terminação do sufixo é “uais” isso serve para todas as orientações sexuais. E a linguagem revela o que há de mais intrínseco na nossa sociedade, se uma pessoa fala assexuado, é porque ela nunca parou para repensar em um mundo que não fosse fora da sexonormatividade, em um mundo que assexuais existem. Então se assexuais são uma orientação sexual legitima, e devem ter os mesmos direitos que outras orientações sexuais, isso se refere também à forma como preferem ser chamados.

Assexuais sofrem além da heteronormatividade também da sexonormatividade, ou seja, normas sociais que estabelecem a universalidade do interesse afetivo-sexual. Como se todos fossem alossexuais, e não existisse a possibilidade da existência de assexuais. A todo momento o sexo está sendo estimulado, na escola um insulto comum entre os meninos é o famoso “virjão” como se ser virgem fosse algo essencialmente ruim.

Antes da criação do termo homossexual os heterossexuais não precisavam se definir, pois não existia outra possibilidade de existir que não fosse o da heteronormatividade. O mesmo acontece com o surgimento da nomenclatura “assexual”, se torna necessário definir a alossexualidade – pessoas que sentem atração sexual – A alossexualidade é representada pela cor branca, que seria a união de todas as cores do arco íris. E a assexualidade é representada pela cor preta, que seria a ausência de todas as cores. Entre a cor branca e preta existe o que nós chamamos na comunidade assexual de área cinza, que seriam pessoas que não se encontram nessa binariedade e sentem atração sexual raramente (Grey-assexuais) ou sentem atração sexual por alguma determinada condição (Demissexuais, Fray-assexuais, Autossexual, Sapiossexual).

A área cinza é bastante ampla, Grey-assexuais raramente sentem atração sexual, Demissexuais sentem atração sexual apenas quando estão apaixonados, Fray-assexuais sentem atração sexual apenas quando não estão apaixonados, Autossexuais sentem atração sexual apenas por si mesmos e Sapiossexuais sentem atração sexual apenas por pessoas inteligentes. O interessante deste último é que a atração sexual não é proporcionada pela visão, mas sim pela audição que é estimulada pela linguagem, pelos sons. Se a assexualidade em si já não deixa muita dúvida sobre tudo o que a academia produziu acerca da sexualidade a Sapiossexualidade coloca tudo abaixo.

Mas independente da atração sexual, a assexualidade percebeu que existem atrações – no plural – entre elas a atração romântica, estética, sensual e sexual. E todas essas atrações não estão necessariamente interligadas com o prazer sexual. Ou seja, existem assexuais que são auto eróticos – se masturbam – e outros não. Existem assexuais que sentem atração romântica, e até definem a sua orientação romântica, por exemplo, assexuais que sentem atração romântica pelo mesmo gênero – homorromânticas – e essas pessoas podem se apaixonar, namorar, se casar e se quiserem podem até mesmo fazer sexo para agradar o parceiro, ou podem estar em um relacionamento aberto. Essa perspectiva que quero trazer para vocês, que a assexualidade não é uma prisão, e muito menos celibato – o celibatário sente atração sexual mas opta por não fazer sexo, já o assexual ele não sente atração sexual, então não é uma opção, e sim uma orientação legitima. Alguns assexuais românticos que eu entreviste dizem sentir felicidade ao ver a parceira sexual feliz, apesar de não sentir prazer algum no ato sexual.

Atração estética é quando você considera algo ou alguém bonito, atração sensual é a vontade de fazer um carinho, um abraço em alguém e o prazer sexual é separado de todas essas atrações. Existem 3 classificações para o prazer sexual, Sex positive – pessoas que consideram o sexo bom ou agradável -, Sex Neutral – pessoas que consideram o sexo normal, nem bom e nem ruim – e Sex Repulsed – pessoas que consideram o sexo algo repulsivo, não desejam fazer de forma alguma – pode ser difícil de compreender no começo, mas existem assexuais sex neutral e positive, porque a atração sexual é uma relação que você tem com o outro, e se você não tem essa atração, isso quer dizer que essa pessoa é assexual. Mas existem outras nuances, como a atração romântica e o prazer sexual, este último é a relação que o seu corpo e mente tem ao ser estimulado, se isso lhe causa prazer não interfere na sua assexualidade, até porque a assexualidade não é uma prisão. Muitos assexuais auto-eróticos demoraram para descobrir a assexualidade, pois normalmente a orientação sexual e o prazer sexual coincidem, mas em alguns casos não.

Muito foi falado sobre o que são assexuais e a diversidade que há entre eles, mas existem certos mitos acerca da assexualidade, como por exemplo o de que assexuais não sofrem, o que é mentira. A assexualidade no campo psiquiátrico ainda é compreendido como uma doença, no doutorado da Elisabete Regina – uma das primeiras doutoras a defenderem a tese da assexualidade no Brasil e no mundo – ela diz que “O desinteresse sexual/amoroso – construído social, histórica e culturalmente como transtorno psicológico ou fisiológico – tem sido ressignificado, a partir do início do século XXI, como forma distinta e legítima de sexualidade, situada no espectro mais amplo da diversidade sexual. ” (Minha vida de Ameba. Oliveira, Elisabete R. B, p 10)

Alguns poucos assexuais tomaram remédio para aumentar a libido, ou fizeram reposição hormonal com injeção para aumentar o nível de desejo sexual. Psicólogos geralmente não sabem ajudar e dizem que “isso logo vai passar” ou “você não conheceu a pessoa certa ainda” e o mais comum é “você é gay mas não quer admitir”. Todas as possibilidades acima são validas na sociedade sexonormativa, menos a verdade, de que assexuais existem. Reparem que a comunidade médica é proibida de usar a cura gay desde 1990, mas ainda hoje existe uma certa “cura assexual” tudo isso porque a assexualidade não é reconhecida como uma orientação sexual legitima.

Geralmente esses preconceitos não acontecem apenas na esfera médica, mas também no cotidiano. A maioria dos amigos e parentes não compreendem a assexualidade e geralmente uma pessoa alossexual já subentende que todas as pessoas também sentem atração sexual. Então é comum você conhecer alguém e a pessoa dar em cima de você – o que não há nada de errado – ou perguntarem a sua orientação sexual, para as duas situações você explica que é assexual – ou fala que não quer nada agora para evitar perguntas – e a pessoa normalmente fica pasma, pensa que você é reprimido, ou que você só tem medo de perder a virgindade, ou que você não se masturba, ou isso ou aquilo, mas dificilmente repensam um mundo fora do contexto sexonormativo até porque para eles é como se não existisse uma possibilidade de viver sem sentir atração sexual.

Nos dias de hoje é necessário pensar um tema em toda a interseccionalidade de raça, gênero e romântica dentro da perspectiva assexual. Além de toda essa hipersexualização social como deve ser habitar um corpo negro e assexual? Pessoas trans que também são hiperssexualizadas e que muitas trabalham com prostituição, como deve ser trans e assexual? Mulheres que são chamadas de frigidas caso não queiram ter relações sexuais. Corpos gordos, magros, musculosos, asiáticos, homorromânticos, birromânticos, intersexuais, falocentrismo masculino. Como é a vivencia de cada assexual e suas peculiaridades?

Para finalizar eu só gostaria de dizer que se você sabia que homossexuais existiam, é porque em 1869 o médico Karl-Maria Kertbeny criou o termo e começou a luta pelos direitos igualitários para homossexuais. E se você já sabia que assexuais existem, é porque em 2001 um adolescente chamado David Jay criou a AVEN (Asexual Visibility Education Network), o primeiro movimento assexual estruturado. Se você não sabia é uma pena, talvez você tenha feito piadas sobre quem não transa – como se fosse a coisa mais triste do mundo – Mas é possível se repensar a partir de agora e deixar esses preconceitos de lado, até porque não existe espaço para tantas regras em meio a tanta diversidade.