Charlie Glickman

Charlie Glickman

Educador de sexualidade e treinador por mais de duas décadas. Teve a honra de testemunhar as incríveis transformações que pisar na sexualidade autêntica pode criar.Tem como objetivo ajudar as pessoas a descobrirem novas maneiras de experimentar o sexo, criar a vida que maximiza sua alegria e construir relacionamentos felizes.

Original Disponível aqui
Tradução livre: Natália Nigro de Sá.
Mai/2017.

Há muitas coisas que podemos fazer para tornar o mundo um lugar melhor. Podemos reduzir o nosso consumo de recursos insubstituíveis, podemos desenvolver a capacidade de criar compaixão nos relacionamentos, podemos apoiar pessoas em crise ou necessidade – há muito a ser feito. E há uma coisa que acho que tem um potencial ignorado para melhorar as coisas. O mundo será um lugar melhor quando mais homens derem a bunda.

Mas antes de você começar a pensar nisso, eu quero ser claro sobre algo. Eu não acho que todos os homens gostem do prazer anal e do prazer da próstata. Há muitas razões pelas quais alguém pode não gostar, desde o fato de simplesmente não ser o que curte até o fato de sere sobrevivente de agressão sexual e perceber brincadeiras anais como disparador de estresse. Nunca vou dizer que todos devem fazer coisa alguma, especialmente quando se trata de sexo, pois existem tantas experiências e histórias diferentes.

Dito isto, o jogo anal tem o potencial de oferecer aos homens cis (e seus parceiros de qualquer gênero) insights que nada mais poderia. Eis o porquê.

Caminhando uma milha “em seus sapatos”

Como educador sexual, posso atestar que um dos desafios mais comuns nas relações heterossexuais é que os homens, muitas vezes, querem se apressar para o passo da relação sexual e veem as preliminares como uma tarefa a ser feita para “preparar sua parceira.” E eu conheço esta sensação – eu certamente já tive o desejo de acelerar as coisas devido à minha excitação, embora, felizmente, isso seja algo que superei ao longo dos anos. Mas até mesmo a palavra “preliminar” pressupõe que o objetivo final é a relação sexual, como se o destino fosse mais importante do que o caminho.

Essa dinâmica é fonte de muita frustração nos relacionamentos e é, pelo menos em parte, devido à maneira física em que o sexo funciona para os homens cis. A menos que explorássemos a penetração anal, o sexo acontece fora de nossos corpos. É muito mais fácil fazer isso quando você tem uma dor de cabeça, está a fim de uma rapidinha ou quer apenas foder. Isso é especialmente verdadeiro para os homens mais jovens, uma vez que os caras mais velhos são mais propensos a precisar de estimulação direta para ter ereções, e também porque a novidade do sexo, quando somos mais jovens, muitas vezes nos deixa tão excitados que nos apressamos.

Mas quando o sexo é algo que acontece dentro de seu corpo, seja por via vaginal ou anal, você geralmente precisa de um pouco mais de aquecimento. Levar as coisas um pouco mais devagar e atender a nossa excitação faz uma grande diferença. E como nos sentimos física, emocional, relacional e mentalmente, pode ter uma influência muito maior do que quando o sexo acontece fora de seu corpo. Claro, muitos homens entendem isso, pelo menos intelectualmente. Mas receber a penetração anal nos dá a oportunidade de entender tudo isso em um nível mais profundo. Uma vez que você teve que explicar a um parceiro que ele precisa ir mais devagar,  que você precisa de mais aquecimento ou lubrificação antes da penetração, se torna muito mais fácil para você se lembrar disso quando estiver sendo ativo no sexo anal. Pense nisso como caminhar uma milha vestindo os sapatos da outra pessoa. Eu falei com homens e colegas suficientes que compartilharam histórias semelhantes para eu realmente acreditar que isso pode fazer a diferença. Isso tem muito potencial para melhorar nossos relacionamentos.

Aguente como um homem

Mas, além disso, há algo incrivelmente poderoso em estar totalmente presente na sua masculinidade, ao mesmo tempo que está sendo passivo. Muitas pessoas veem o “ser penetrado” como “o papel da mulher”, ou acham que ser comido significa que os homens perdem seu status masculino. Isso me soa profundamente lamentável, especialmente à luz das formas em que o sexismo e a homofobia se entrelaçam para reforçar o desempenho da masculinidade. Mesmo o uso de xingamentos como “eu estou tão fodido” ou “vai se foder” ou “vai tomar no cú” se relacionam à ideia de que ser penetrado é degradante. Quando aprendemos que podemos estar fortemente enraizados à nossa masculinidade ao mesmo tempo que nos abrimos para a penetração, quando descobrimos como manejar essas duas questões ao mesmo tempo, podemos explorar novos e incríveis territórios.

Percebemos que não precisamos entender gênero ou masculinidade como uma experiência de tudo ou nada. Podemos rever a penetração como simplesmente uma maneira de experimentar o prazer, sem torná-lo um marcador do degradante. Podemos aprender uma lição da comunidade de  gay bears, ursos e “aguentar como um homem”, o que pode nos tornar mais fortes e mais resilientes. Quando mais homens aprenderem a fazer isso, o mundo será um lugar muito melhor.

Redefinindo o Sexo

E não esqueçamos que, quanto mais deixarmos de concentrar as relações sexuais ao pênis/vagina como a definição de “sexo”, e quanto mais pudermos expandir nossas definições de prazer e como experimentá-lo, mais espaço abriremos para a diversidade sexual e de gênero, para diferentes tipos de prazer e amor, para a justiça social e igualdade sexual. Claro, há muitas maneiras de fazer isso, mas o prazer anal dos homens tem um potencial incrível para ajudar a inclinar-nos a estas questões, deixar a homofobia e curar nossas feridas sexuais.

Cura Sexual

Quer outro motivo? O ânus e o assoalho pélvico estão fortemente ligados às nossas experiências de vergonha. Pense em como um cão coloca o rabo entre as pernas quando fez algo ruim e está sendo punido. As pessoas têm respostas muito semelhante, mas como nos falta uma cauda e somos bípedes, isso se torna menos visível. Há uma razão pela qual as pessoas que estão estressadas às vezes são chamadas de “cú fechado”. E muitos caras estão tão fora de contato com a pélvis que dificilmente a movem enquanto caminham. Receber contato carinhoso e amoroso naquela parte de nossos corpos pode nos sustentar à medida que caminhamos em direção à nossa cura. A capacidade de “encontrar nossos cús” está profundamente ligada à nossa capacidade de estar plenamente presente em nossos corpos. E quanto mais pudermos fazê-lo, mais poderemos abrir nossos corações às pessoas que nos rodeiam.

Penso que o sexo anal vai salvar o mundo? Não. E, como educador sexual e alguém que gosta de receber prazer anal e de próstata, eu sei, tanto da experiência profissional quanto da experiência pessoal, que o sexo anal pode fazer uma grande diferença na forma como os homens cis se sentem em relação ao sexo e como constróem seus relacionamentos com outras pessoas.

Então, me emociono ao anunciar que Aislinn Emirzian e eu escrevemos o Guia Definitivo para o Orgasmo de Próstata: Exploração Erótica para Homens e seus Parceiros. Está cheio de dicas e idéias para tornar a próstata divertida, se você é novo ou está fazendo isso há anos.

 

CURTA APROVEITE SUA PRÓSTATA + DEBATE

Todos os Gêneros: Circuito [SSEX BBOX]

A próstata, o ponto G masculino, não pode – de acordo com a “virilidade” tradicional – ser explorada. É este o tema do minidocumentário de Vinícius Nascimento e Priscilla Bertucci: em nome de um corpo coletivo, os homens se proíbem de experimentar o próprio corpo.

sábado 17 de junho de 2017 às 15h

[duração aproximada: 60 minutos – 15 de curta e 45 de debate] Sala Vermelha (piso 3) – 100 lugares

Entrada gratuita

distribuição de ingressos
público preferencial: duas horas antes do evento | com direito a um acompanhante
público não preferencial: uma hora antes do evento | um ingresso por pessoa

[classificação indicativa: 16 anos]

Atendimento – Email: atendimento@itaucultural.org.br
Fones: 11 2168 1777 / 2168 1776
Avenida Paulista, 149 – São Paulo/SP