Por Júlia Rosemberg

Por Júlia Rosemberg

Mulher cis, branca, bi, corintiana, pós-balzaquiana e mãe da Antônia.

 

Criado em 2011, o [SSEX BBOX] é um movimento que atua na área da justiça social e procura dar visibilidade ao debate em relação às questões de gênero e sexualidade em várias partes do mundo.
Diante do cenário político atual, vemos uma saída possível para o cerco que se fecha: uma articulação dialógica e analógica. Sentar em roda, em mesas, em grupos com diversos atores sociais – militantes, ativistas, acadêmicos, artistas. Uma confabulação interseccional para pensarmos e desenharmos como agir a fim de refrear e resistir a essa onda de extremo conservadorismo que quer nos engolir com seus padrões de branquitude, heterossexualidade e cisgeneridade.

 

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Começo, ou continuo, com uma questão:

por que uma mulher cis escrevendo sobre masculinidades? Primeiro porque as questões de gênero devem ser pensadas, pautas, discutidas do ponto de vista relacional. Fazendo um paralelo com o debate das relações raciais, os modelos e estruturas que produzem o racismo devem necessariamente incluir os brancos e as questões relativas a branquitude e seus privilégios. Como as questões da masculinidade são de ordem da relação, temos que debulhar como as masculinidades operam nos homens e nas mulheres. Depois, como diz meu amigo Benedito Medrado – Instituto Papai-, não estamos aqui inventando a roda: o movimento de mulheres há anos pauta a questão da masculinidade convidando os homens a se questionarem como uma categoria dentro do sistema de opressão e subalternidade.

Donald Trump Jr.

Aqui, quero dividir algumas reflexões sobre o que ando pensando, lendo, falando e estudando sobre masculinidades, principalmente as denominadas masculinidades hegemônicas. Além disso, também quero trazer provocações mais amplas sobre a construção da identidade de gênero dos homens cisgêneros.

Pensar as masculinidades na perspectiva de identidade gênero implica necessariamente desconstruir e questionar uma organização cotidiana considerada socialmente como “natural”, “normal”. Pensar as masculinidades na perspectiva de identidade gênero implica necessariamente falar sobre machismo, patriarcado, privilégios e falocentrismo.

Mas, as masculinidades não são estados homogêneos, monolíticos, coesos: as masculinidades contemplam divisões internas, tensões e contradições de diversas ordens.

Quando falamos de masculinidades hegemônicas, o que que queremos dizer? Porque vivemos em um mundo, num plano astral, em que as materialidades são determinantes, são as materialidades que nos definem quase por completo. Somos serem encarnados, encorpados, coloridos.

Então, quando falo de masculinidades hegemônicas preciso ancorar, encarnar, dar corpo e cor a esse grupo que é composto por corpos brancos, com pênis, sem deficiência, que se autodeterminam homens, heterossexuais, que moram nos centros urbanos, são escolarizados, estão empregados e ocupam cargos de liderança, têm carro e cartão de crédito. E que param de ouvir.

E quando isso acontece, quando eles param de ouvir, a metade paradoxal da população, ou seja, nós mulheres, ficamos sem interlocução. Um bom exemplo da falta de escuta, dessa falta de interlocução é o controle dos corpos.

A masculinidade hegemônica passa pelo controle dos corpos: são os homens cisgêneros que decidem que nós não podemos abortar. A mulher cisgênera pode colocar peito de silicone, deve. Homem trans fazer mastectomia, não pode, é doente.

Vejo outra falta de escuta, que é a relação com a terra, com os recursos naturais: a masculinidade hegemônica usurpa os tecidos e fluidos da terra. A masculinidade hegemônica ri disso. Vira de costas e dorme. Sem se preocupar com o dia seguinte, com o que vem amanhã.

A masculinidade hegemônica fala difícil. Dá muitos nós nos nomes, nomes sem nós. Só eles. Só deles. Para eles.

Mas não devemos cair da armadilha do essencialismo. Penso que é uma pena estarmos num momento de discursos tão essencialistas, que estão cabendo tão bem nessa polarização generalizada. Essa busca um estado puro, tão impermeável e monolítico.

E, se não devemos cair nessa armadilha do essencialismo, precisamos olhar com atenção o que estamos ensinando, voluntaria e involuntariamente, aos nossos meninos, ou melhor dizendo, o que estamos ensinando aos corpos nascidos com pênis.

Meninos não choram.

Aja como um homem.

Esconda suas emoções.

Não seja viado.
Fala direito, engrossa essa voz.

Não seja mulherzinha.

Você tem que ser forte.

Você já é um homem.

Será que estamos –  todos, todas e todes nós – ajudando os corpos nascidos com pênis a serem seguros em suas masculinidades? Ou ainda, que tipo de estereótipo e arquétipo de masculinidade estamos escarando, ofertando?  Que eles têm que ser maiores, melhores e mais rápidos?  Que eles têm que transar com o maior número de mulheres?

Que tipo de estereótipos e arquétipos masculinos vemos nos filmes, nas propagandas, nos videogames e na pornografia? Podemos afinar ainda mais o nosso olhar: quais os arquétipos e estereótipos de homens brancos e de homens negros vemos na TV, no cinema, lemos nos livros, nos videogames?

E: que projeto de masculinidade nossa sociedade está querendo produzir e perpetuar?

O efeito desigual das relações de gênero propulsionado e promovido por esse projeto de masculinidade, por essa masculinidade hegemônica, só vai ser equalizado quando os homens brancos, cis, hétero, sem deficiência, se pensarem nessa equação de igualdade-desigualdade, toparem discutir e abrir mão dos privilégios e ouvirem todos os pedidos de mudanças, mudanças concretas e simbólicas, mudanças na relação com o planeta, mudanças estéticas, éticas e políticas.

Que haja uma aliança robusta e consciente em busca de um equilíbrio fora e dentro da matéria.
Uma aliança para mudanças da prática cotidianas, nas micro e macro relações.
Os pontos cegos têm que ser escancarados. Precisamos falar sobre eles.
E para a construção desse mundo equilibrado, precisamos nós e eles, eles e nós sermos aliados.
E isso é um convite a todos, todas e todes.

El falo descentrado. judith butler, donna haraway y beatriz preciado