POR JÚLIA ROSEMBERG

POR JÚLIA ROSEMBERG

Mulher cis, branca, bi, corintiana, pós-balzaquiana e mãe da Antônia.

Criado em 2011, o [SSEX BBOX] é um movimento que atua na área da justiça social e procura dar visibilidade ao debate em relação às questões de gênero e sexualidade em várias partes do mundo.
Diante do cenário político atual, vemos uma saída possível para o cerco que se fecha: uma articulação dialógica e analógica. Sentar em roda, em mesas, em grupos com diversos atores sociais – militantes, ativistas, acadêmicos, artistas. Uma confabulação interseccional para pensarmos e desenharmos como agir a fim de refrear e resistir a essa onda de extremo conservadorismo que quer nos engolir com seus padrões de branquitude, heterossexualidade e cisgeneridade.

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Estive na 15ª Flip e digo: foi bonita a festa, pá. Já de cara, a abertura da Festa Literária de Paraty, que aconteceu entre 26 e 30 de julho de 2017, ouviu e viu a homenagem ao Lima Barreto pelos rostos e vozes de Lázaro Ramos e Lilia Schwarcz. (Muito diferente do ano passado, por exemplo, em que Ana C. foi a homenageada da Festa e na mesa de abertura – vejam só –  o debate de dois homens brancos).

A fundamental curadoria de Joselia Aguiar, segunda mulher da história da Flip a ocupar a posição, foi o que possibilitou que a programação oficial contasse com 23 mulheres* (ante 22 homens) e 30% de escritores/as negros/as.

Marlon James e Paul Beatty, na mesa O grande romance americano.

Antes e durante a Flip, muito se leu e ouviu, sobretudo de homens brancos heterossexuais e da elite, que a qualidade literária da Festa foi sacrificada em detrimento à pluralidade de vozes, inédita. “Reacionários”, definiram alguns/algumas em resposta.

Natalia Borges Polesso, Djaimilia Pereira de Almeida  e Carol Rodrigues, na mesa Pontos de fuga.

Mas, prefiro tratar a questão de uma outra perspectiva, menos binária e determinista e mais dialógica e dinâmica: os pontos cegos dos brasileiros homens (cis), brancos e de elite são (quase todos) atávicos. Não são e não foram circunstancialmente obrigados a se pensar em termos identitários, raciais, espaciais. Tampouco são e foram arremessados para fora de qualquer sistema.

Por isso, tratar a questão de forma polarizada, determinista e raivosa não vai nos ajudar a desatar os nós desses pontos cegos, que são muitos, em escalas e profundidades variadas. (Nunca é demais lembrar que todos, todas e todes nós temos nossos pontos cegos).

Penso ser uma estratégia, por exemplo, ajudar o interlocutor no desvelamento de se pensar enquanto branco em uma sociedade racista e questionar como juntos podemos equalizar a balança do sistema de privilégio e submissão. Falar, por exemplo, sobre a branquitude e a herança de se ser branco em uma sociedade que se fez porque escravizou tantos negros e tantas negras. Mostrar aquilo que é tão naturalizado nas relações de gênero, por exemplo, tocar um corpo sem permissão, furar uma fila, se impor com tom de voz.


Racismo em Português, o lado esquecido do colonialismo, livro de Joana Gorjão Henriques, lançado pela Tinta da China na 15ª Flip.

Ou seja, apontar que a noção de normalidade é uma distopia, que o mundo é feito de radiais, que a literatura não é uníssona.

Na última mesa da Flip, conversaram por mais de uma hora as amadas Ana Maria Gonçalves e Conceição Evaristo, que pregou para uma igreja abarrotada: “eu tenho dito que são normas ocultas da língua, porque só determinadas categorias sociais conseguem se apropriar dessas normas ocultas da língua”.

E finalizou contundente: “vamos continuar afirmando que o subalterno pode falar. Se a gente pensa que o espaço da literatura é um espaço de revelação, de identificação nacional, a nossa identificação não pode mais ficar de fora da literatura brasileira”.

Que venha a Flip 2018.

* Na programação oficinal não foram convidades escritores/as trans. Na off-Flip, programação paralela, Jaqueline Gomes de Jesus lançou dois livros: Homofobia e Transfeminismo.