POR HELENA VIEIRA

POR HELENA VIEIRA

Helena é travesti, transfeminista, pesquisadora de Teoria Queer,  É eduradora do [SSEX BBOX] e colunista do Brasil Post e também de ‘Os Entendidos’, blog parceiro da Revista Fórum.

Assista o vídeo ★ Corpo: Artigo Indefinido

Criado em 2011, o [SSEX BBOX] é um movimento que atua na área da justiça social e procura dar visibilidade ao debate em relação às questões de gênero e sexualidade em várias partes do mundo.

A 2ª Conferência Internacional [SSEX BBOX] & Mix Brasil transformou o Centro Cultural São Paulo em um espaço onde muitas pessoas se sentiram compreendidas em pontos importantes de sua luta, além de promover a reflexão sobre novas estratégias de enfrentamento à homofobia e à transfobia.

 


foto Dani Vilar

Corpo, gênero e sexualidade são temas que, recentemente, têm tido imensa centralidade no debate político nacional: as questões trans, a pauta do aborto,  o casamento homoafetivo, as formas de violência baseadas em gênero e orientação afetivo-sexual. As posições a este respeito são muitas e os embates, na política institucional (partidos, parlamento, órgãos públicos) e nas redes sociais, intensos, não é surpresa, portanto, que comecem a fazer parte destas discussões outros atores políticos, como empresas, corporações e conglomerados.

Contudo, tais atores têm causado um conjunto de reflexões sobre as quais é importante refletirmos, questões tais como: é relevante a atuação de uma empresa como a Coca Cola em relação às questões da diversidade? Não é mercantilização das pautas LGBTs? Mas a Globo é nefasta, devemos confiar na representatividade que ela diz promover? Além do marketing, quais ações essas empresas têm tomado em defesa da comunidade LGBT? É possível fazer marketing pró-LGBT e ainda assim apoiar financeiramente campanhas de deputados LGBTfóbicos? As respostas que encontramos entre LGBTs militantes e não militantes variam, desde defesas irrestritas até condenações veementes.


foto reprodução internet

O caminho, penso, para construir essa reflexão parte, em primeiro lugar, de uma leitura sóbria da realidade, tanto das condições materiais da população LGBT, até as contradições do capitalismo e os limites da inclusão impulsionada fora do âmbito do Estado, das políticas públicas e das garantias legais de direitos, e, obviamente, passa também por nossas utopias e posicionamentos frente ao mundo que queremos construir.

O que quero dizer com uma leitura sóbria da realidade? Ora, é fundamental que observemos os processos de apropriação e mercantilização de símbolos sociais, pautas sociais e identitárias, é deste modo que o capitalismo opera, ele converte em mercadoria, desde os bens materiais, até os imagéticos, simbólicos sociais e de luta, logo, a bandeira do arco-íris, o jargão LGBT e outros aspectos de uma cultura simbólica consolidada ao longo de anos é passível de mercantilização, não apenas pela natureza “apropriadora” das dinâmicas capitalísticas, mas também, e principalmente, pelo que pode representar em termos de lucro o uso desta ou daquela linguagem, e determinada escolha de público.


foto reprodução internet

Essa é a primeira das sobriedades que devemos ter ao observar o marketing voltado à comunidade LGBT partindo de empresas como a Uber, Coca Cola, Skol e tantas outras. Há nisso alguma perversidade? Depende, afinal, não é incoerente nem mesmo errado que empresas lucrem com publicidade voltada a um público específico.

A questão é: isso representa avanço para os direitos da comunidade LGBT? O que devemos esperar destas empresas? É possível construir diálogo com elas e tentar, considerando as limitações estruturais, promover a cidadania LGBT?

A promoção dos avanços para uma comunidade em específico, no capitalismo, depende, fundamentalmente, de um conjunto de atores: empresários, sociedade civil, mídia, governos e tantos outros, afinal, ainda que a Lei garanta um direito e ainda que o Estado implemente uma política, a condição social da população é também atravessada pelos estigmas produzidos pela cultura, de modo que, os veículos de mídia e propaganda possuem um papel importante, podem tanto produzir e fortalecer os estigmas em relação à população LGBTQIA+ , como podem operar em sentido contrário. Neste sentido, penso que seja importante que haja uma publicidade LGBTQIA+ ou que as pautas da população trans, por exemplo, tenham recentemente enchido as telas da Rede Globo.


foto reprodução Rede Globo – A Força do Querer by Michael Segh

Entretanto, a entrada das questões LGBTs associadas às marcas específicas não resolve muita coisa. Há uma longa discussão, entre ativistas LGBTs ao redor do mundo, em relação aquilo que chamam de “pink money”, ou o poder de consumo de LGBTs, sobretudo de gays, lésbicas e bissexuais. Contudo, a fatia de mercado que representa o “pink money” diz respeito, fundamentalmente, a LGBTs das classes A e B, enquanto que, por exemplo, a realidade brasileira tem milhões de LGBTs pobres, diz respeito, como se pode ler em inúmeras notícias a este respeito, à figura do homem gay sem filhos ou família, consumidor de cultura, moda, cheio de bom gosto e de gostos caros. Ou seja, mesmo as políticas mercadológicas voltadas para o público LGBT está marcado por uma profunda seletividade.


foto por Michael Segal Photography – O casal Lance Bass e Michael Turchin

A noção de dignidade ou inclusão pelo consumo, promovida, neste caso, não pelo Estado, mas pelo empresariado, está atrelada às camadas que tem poder para consumir.

De maneira que, se a empresa X ou Y almeja alguma forma de engajamento em relação a comunidade LGBT, ela terá desafios como:

1) Incluir pessoas LGBTs em seus quadros de funcionários.

2) Organizar e estruturar a empresa para receber adequadamente estes funcionários, estabelecendo, por exemplo, um código de conduta que reduza as possibilidades de discriminação, adequando sistemas eletrônicos ao uso do nome social, e banheiros e uniformes de acordo com a identidade de gênero das pessoas.

3) Construir uma política de atendimento, no caso das empresas de serviços, que respeite o cliente LGBT. Sem adequações desta natureza, não se pode falar que haja comprometimento real, haverá, tão somente, interesse no lucro, e isso, não sendo ilegal ou incoerente, não é, de forma alguma, um avanço para a comunidade LGBT.

Ainda no que diz respeito às campanhas publicitárias e seu impacto sobre o imaginário social a respeito da população LGBT, é fundamental que recebem assessoria ou consultoria de grupos, coletivos ou movimentos LGBTs.


foto reprodução internet

É preciso que tenhamos clareza de que não há, por parte de nenhuma empresa ou grupo empresarial um comprometimento ingênuo com as questões LGBT. Não é destes grupos que vamos esperar conquistas, avanços coletivos ou garantia de direitos. É preciso ter isso claro, a nossa cobrança deve ser direcionada, principalmente, aos Governos, pois é deste modo que ampliamos a cidadania, o emprego e também a nossa participação nos bens sociais e comuns. Contudo, é fundamental que estejamos atentos, quando esta ou aquela empresa decide se opor, afinal, se não podem mudar profundamente nossa realidade, que não a tornem pior. O boicote é um instrumento legítimo em relação às marcas LGBTfóbicas, sobre isso é marcante o boicote, nos EUA, liderado por Harvey Milk à cerveja Coors, produziu uma mudança na postura da marca, além de demonstrar organização coletiva.

Às empresas que se pretendem comprometidas com a questão LGBT, um recado: construam representatividade, conversem com pessoas LGBTs, entendam nosso perfil, nossas demandas e também nossa potencialidade. Ao governo, entre tantas outras questões, precisamos, emergencialmente, de políticas de empregabilidade.


foto reprodução internet

O DIVERSITY BBOX, por exemplo, é uma iniciativa preocupada em auxiliar às empresas e instituições a estabelecer ações voltadas à população LGBTQIA+ de forma responsável, coerente e honesta, atendendo aos diversos níveis de inclusão e representatividade.

Além disso, dialoga diretamente com quatro Objetivos do Desenvolvimento Sustentável: