Escolha uma Página

A marquesa de Sade

out 31, 2017 | Publicações, Revista Bravo!

Por Renato Gonçalves

Por Renato Gonçalves

Doutorando em Ciências da Comunicação (ECA-USP), mestre em Culturas Brasileiras (IEB-USP) e pesquisador multidisciplinar da canção e da cultura.

Revista Bravo!

A Bravo! olha para as fronteiras do fazer artístico, dá acesso à nova arte, dialoga com os artistas e com o público que consome arte, debate tendências e sonha curadorias.

ASSINE

Crítica: Pajubá (2017), de Linn da Quebrada, revida o sadismo ao qual a população trans, travesti e transviada é submetida


Capa de “Pajubá” (2017), Linn da Quebrada

 

Mais de dois séculos após a morte de marquês de Sade (1740–1814), as frases que abrem Pajubá, primeiro álbum de Linn da Quebrada, parecem ressoar a visão do filósofo e escritor francês mais controverso de seu tempo: “Não adianta pedir que eu não vou te chupar escondida no banheiro/ Você sabe, eu sou muito gulosa, não quero só pica, quero o corpo inteiro” (Talento). Como na obra de Sade — em que personagens fortes dominam aquelas mais vulneráveis e se veem no direito de gozar do corpo alheio à sua revelia — Linn da Quebrada abre a Sodoma do banheirão e das esquinas para revidar o sadismo de uma sociedade que usa e descarta cotidianamente a população trans, travesti e transviada.

Trata-se de um disco direto e reto. A produção assinada por BadSista desenha uma complexa trama eletrônica, ideal para um formato de canção em que a força da fala e da rima são privilegiadas. Mais próxima ao rap que ao pop usualmente desenvolvido pelos demais artistas LGBT de sua geração, Linn da Quebrada busca lapidar a todo instante a sonoridade, o ritmo e o impacto das palavras que encadeia para que o seu recado não passe despercebido: “Faça chuca ou faça sol, é uó o ócio do comício em ofício…” (Bomba pra Caralho).

Na maioria das 14 faixas que compõem o disco, não faltam descrições acerca das artes da libertinagem que a persona Linn da Quebrada domina. Tais artes, propositadamente, chegam até mesmo a ser exaustivas. Fala-se, por exemplo, da sodomia e da orgia em Tomara (“Passa boy, passa boyada, já estou mais que acostumada”) e Submissa do 7º dia (“Sexo é sexo, tem amor e tem orgia”). Em Pajubá, sexo é abordado sem qualquer tipo de rodeio ou constrangimento. Nessa direção, talvez uma das canções mais explícitas seja Dedo Nocué. Gravada com Mulher Pepita, é uma ode à masturbação anal: “Que cu é esse? Quem quer cai dentro dele”, brinca a dupla, parodiando e subvertendo a canção infantil Que som é esse?, do extinto programa Castelo Rá-Tim-Bum, da TV Cultura.

A ênfase dada ao ânus — que, não coincidentemente, também está presente na arte gráfica do disco físico — em detrimento do “pau ereto” e do “macho discreto”, de Enviadescer (“eu gosto mesmo é das bichas”), nos traz uma nova configuração: é invertida a relação de dominação e submissão, usualmente representada por aquele que detém o pênis e aquele que deve ser penetrado. Nos limites dessa inversão, são celebrados sadicamente o “picadinho de neca” (Necomancia) e a castração, simbólica ou não, do homem: “Quando tiver indo embora, não esquece, deixa o seu pau em cima da mesa” (Bixa Travesty).

A posição de Linn da Quebrada enquanto uma mulher trans que fala de sua vivência no Brasil do século XXI reformula a representação da população trans e travesti na cultura. Se há 40 anos, na música popular, tivemos a travesti Geni como grande representante, na canção Geni e o Zepelim (Chico Buarque), hoje Linn coloca em cena a sua própria vivência periférica. No país que mais mata pessoas trans e travestis no mundo, a artista evidencia o sadismo, isto é, o prazer no sofrimento alheio, ao qual elas são submetidas diariamente. Na perspectiva social, descartados como objetos, são corpos que parecem existir somente para servir a satisfação sexual “clandestina” de homens e mulheres que as procuram na surdina e as rejeitam no convívio social, seja ao não respeitar os seus nomes sociais, não as contratando em empresas ou, no extremo real, as matando, sempre com requintes de crueldade. Pajubá é um revide a tudo isso.

Tomando emprestadas as duas principais antagonistas da obra de Sade, apresentadas em textos como Justine ou Os Infortúnios da Virtude e diversos outros, poderíamos dizer que enquanto Geni é a bondosa Justine, Linn da Quebrada é a impiedosa Juliette. As irmãs, separadas ainda na adolescência, sem pais nem qualquer tipo de herança, tiveram que enfrentar suas vidas a partir do zero. Cada uma encontrou um modo distinto de sobreviver. Justine seguiu o caminho da bondade. Assim como Geni, deu-se de coração e alma às mais diversas oportunidades que, no final, sempre revelavam a crueldade humana daqueles a quem ela servia. Juliette, assim como a Linn da Quebrada que é narrada em A Lenda, seguiu o caminho oposto: “Sabe que pra ter sucesso, não basta apenas estudar, isto dá sem parar, tão esperta, sabichona…”. Com a malícia necessária para saber que por trás do sujeito podem estar as estruturas mais perversas, Linn/Juliette toma o controle de todas as situações e é, ela mesma, a grande carrasca da história em prol do seu próprio prazer.

Resta saber se a artista será celebrada à altura de seu trabalho. Falemos isso, pois, muito embora atualmente haja discussões pró-sexualidade na arte versusa moralidade judaico-cristã que tenta censurá-la, Marquês de Sade, que, à época, denunciou a libertinagem dos títulos aristocráticos e das patentes religiosas de uma França pré-Revolução, dificilmente consta nos autos oficiais da literatura e da filosofia. Esse últimos, vale lembrar, são escritos sobretudo por aqueles que hoje clamam pela liberdade artística e que, por séculos, classificaram sua obra como “arte degenerada”. Ou seja, a moralidade não vê posição política e pode estar mais próxima do que supomos. Ainda bem que volta e meia surgem artistas como Sade e Linn da Quebrada.

Fonte: https://medium.com/revista-bravo/a-marquesa-de-sade-1800f481d7cb

Por Renato Gonçalves

Por Renato Gonçalves

Doutorando em Ciências da Comunicação (ECA-USP), mestre em Culturas Brasileiras (IEB-USP) e pesquisador multidisciplinar da canção e da cultura.

Revista Bravo!

A Bravo! olha para as fronteiras do fazer artístico, dá acesso à nova arte, dialoga com os artistas e com o público que consome arte, debate tendências e sonha curadorias.

ASSINE

Crítica: Pajubá (2017), de Linn da Quebrada, revida o sadismo ao qual a população trans, travesti e transviada é submetida


Capa de “Pajubá” (2017), Linn da Quebrada

 

Mais de dois séculos após a morte de marquês de Sade (1740–1814), as frases que abrem Pajubá, primeiro álbum de Linn da Quebrada, parecem ressoar a visão do filósofo e escritor francês mais controverso de seu tempo: “Não adianta pedir que eu não vou te chupar escondida no banheiro/ Você sabe, eu sou muito gulosa, não quero só pica, quero o corpo inteiro” (Talento). Como na obra de Sade — em que personagens fortes dominam aquelas mais vulneráveis e se veem no direito de gozar do corpo alheio à sua revelia — Linn da Quebrada abre a Sodoma do banheirão e das esquinas para revidar o sadismo de uma sociedade que usa e descarta cotidianamente a população trans, travesti e transviada.

Trata-se de um disco direto e reto. A produção assinada por BadSista desenha uma complexa trama eletrônica, ideal para um formato de canção em que a força da fala e da rima são privilegiadas. Mais próxima ao rap que ao pop usualmente desenvolvido pelos demais artistas LGBT de sua geração, Linn da Quebrada busca lapidar a todo instante a sonoridade, o ritmo e o impacto das palavras que encadeia para que o seu recado não passe despercebido: “Faça chuca ou faça sol, é uó o ócio do comício em ofício…” (Bomba pra Caralho).

Na maioria das 14 faixas que compõem o disco, não faltam descrições acerca das artes da libertinagem que a persona Linn da Quebrada domina. Tais artes, propositadamente, chegam até mesmo a ser exaustivas. Fala-se, por exemplo, da sodomia e da orgia em Tomara (“Passa boy, passa boyada, já estou mais que acostumada”) e Submissa do 7º dia (“Sexo é sexo, tem amor e tem orgia”). Em Pajubá, sexo é abordado sem qualquer tipo de rodeio ou constrangimento. Nessa direção, talvez uma das canções mais explícitas seja Dedo Nocué. Gravada com Mulher Pepita, é uma ode à masturbação anal: “Que cu é esse? Quem quer cai dentro dele”, brinca a dupla, parodiando e subvertendo a canção infantil Que som é esse?, do extinto programa Castelo Rá-Tim-Bum, da TV Cultura.

A ênfase dada ao ânus — que, não coincidentemente, também está presente na arte gráfica do disco físico — em detrimento do “pau ereto” e do “macho discreto”, de Enviadescer (“eu gosto mesmo é das bichas”), nos traz uma nova configuração: é invertida a relação de dominação e submissão, usualmente representada por aquele que detém o pênis e aquele que deve ser penetrado. Nos limites dessa inversão, são celebrados sadicamente o “picadinho de neca” (Necomancia) e a castração, simbólica ou não, do homem: “Quando tiver indo embora, não esquece, deixa o seu pau em cima da mesa” (Bixa Travesty).

A posição de Linn da Quebrada enquanto uma mulher trans que fala de sua vivência no Brasil do século XXI reformula a representação da população trans e travesti na cultura. Se há 40 anos, na música popular, tivemos a travesti Geni como grande representante, na canção Geni e o Zepelim (Chico Buarque), hoje Linn coloca em cena a sua própria vivência periférica. No país que mais mata pessoas trans e travestis no mundo, a artista evidencia o sadismo, isto é, o prazer no sofrimento alheio, ao qual elas são submetidas diariamente. Na perspectiva social, descartados como objetos, são corpos que parecem existir somente para servir a satisfação sexual “clandestina” de homens e mulheres que as procuram na surdina e as rejeitam no convívio social, seja ao não respeitar os seus nomes sociais, não as contratando em empresas ou, no extremo real, as matando, sempre com requintes de crueldade. Pajubá é um revide a tudo isso.

Tomando emprestadas as duas principais antagonistas da obra de Sade, apresentadas em textos como Justine ou Os Infortúnios da Virtude e diversos outros, poderíamos dizer que enquanto Geni é a bondosa Justine, Linn da Quebrada é a impiedosa Juliette. As irmãs, separadas ainda na adolescência, sem pais nem qualquer tipo de herança, tiveram que enfrentar suas vidas a partir do zero. Cada uma encontrou um modo distinto de sobreviver. Justine seguiu o caminho da bondade. Assim como Geni, deu-se de coração e alma às mais diversas oportunidades que, no final, sempre revelavam a crueldade humana daqueles a quem ela servia. Juliette, assim como a Linn da Quebrada que é narrada em A Lenda, seguiu o caminho oposto: “Sabe que pra ter sucesso, não basta apenas estudar, isto dá sem parar, tão esperta, sabichona…”. Com a malícia necessária para saber que por trás do sujeito podem estar as estruturas mais perversas, Linn/Juliette toma o controle de todas as situações e é, ela mesma, a grande carrasca da história em prol do seu próprio prazer.

Resta saber se a artista será celebrada à altura de seu trabalho. Falemos isso, pois, muito embora atualmente haja discussões pró-sexualidade na arte versusa moralidade judaico-cristã que tenta censurá-la, Marquês de Sade, que, à época, denunciou a libertinagem dos títulos aristocráticos e das patentes religiosas de uma França pré-Revolução, dificilmente consta nos autos oficiais da literatura e da filosofia. Esse últimos, vale lembrar, são escritos sobretudo por aqueles que hoje clamam pela liberdade artística e que, por séculos, classificaram sua obra como “arte degenerada”. Ou seja, a moralidade não vê posição política e pode estar mais próxima do que supomos. Ainda bem que volta e meia surgem artistas como Sade e Linn da Quebrada.

Fonte: https://medium.com/revista-bravo/a-marquesa-de-sade-1800f481d7cb