Tradução por Christina Rostworowski da Costa

Tradução por Christina Rostworowski da Costa

Esse texto foi extraído do vídeo Vida Mega espiritual – episódio 88

Olha, é muito fácil colocar os “pingos nos is” e as pessoas em seu devido lugar nos comentários online e respostas no Twitter.

Sério, eu consigo mudar a cabeça das pessoas sempre que eu deixo comentários agressivos nas páginas da internet. Eu sou guerreiro da justiça social.

Este é o meu teclado, está vendo? Eu sou invencível quando estou com ele. Eu posso falar qualquer coisa, sem nenhum tipo de consequência. Me ajuda a espalhar a justiça social por aí. Sabe? Tipo gigante.

O que acontece se eu te pego fazendo algum tipo de comentário politicamente incorreto? Mando bala com meu protocolo de cinco passos.

PRIMEIRO PASSO: ignoro a sua opinião.

SEGUNDO PASSO: assumo um monte de coisa sobre o que você, na verdade, quis dizer e te informo sobre o que você quis dizer com o que escreveu.

TERCEIRO PASSO: Eu te corrijo. Te digo o que você deveria pensar, além de deixar bem claro que você é uma pessoa horrível.

QUARTO PASSO: Hora de escrever tudo em CAPS LOCK, assim que você tentar defender a sua liberdade de expressão.

QUINTO PASSO: Por fim, hora de usar as técnicas Trump e escolher uma palavra que defina quem você é para todo sempre, tipo, “você é racista!”, “machista!”, “misógino!”, “homofóbico!”, “heterofóbico!”, “transfóbico!”, “humanofóbico!”…

Sou tipo um médico informando diagnósticos complicados… Quando rotulo alguém com uma palavra, não preciso usar meu cérebro para entender a pessoa. Afinal, eu já sei o que significa a palavra que usei para rotular a pessoa. Então, eu só preciso entender a palavra que decidi usar para me referir à pessoa, ao invés de entender a pessoa.

NA REAL, EU NÃO DEFENDO UMA CAUSA

O meu negócio é partir na cruzada contra qualquer coisa que eu não represento – ou seja, tudo e qualquer coisa, já que eu não defendo nada mesmo.

É tipo assim: eu me armo com as virtudes do câncer e espalho estas virtudes por aí, nos meus ataques.

Eu passo os meus dias e noites vigiando a internet atentamente, caçando qualquer coisa que não seja politicamente correto, o que é tipo quase tudo hoje em dia, sabe? Eu sou praticamente o Batman do mundo virtual. Em geral, passo quatro horas por dia navegando pelo Twitter compulsivamente. Tenho 83 seguidores, e sigo tipo umas 800 mil pessoas. Ou seja, as pessoas estão mega interessadas no que eu tenho a dizer.

Daí, fico online umas outras cinco horinhas, outras oportunidades de garantir a justiça social. Eu consigo fazer tanta coisa em um dia só, que não dá nem para dimensionar a quantidade de coisa que eu faço.

MEU OBJETIVO NA VIDA É ESTAR CERTO

A minha sorte é que estou sempre certo. A minha capacidade de estar sempre certo vem da minha capacidade de mostrar como todo mundo está sempre errado.

Olha, tem que fazer um baita esforço para manter este alto nível de inteligência o dia inteiro, como eu mantenho. Por isso, eu me preparo para a minha jornada diária de guerreiro da justiça social ao repetir frases de empoderamento pessoal pela manhã. Coisas tipo, “eu não sou responsável por como eu me sinto! Eu não sou responsável pela forma como vivencio o mundo! Eu não sou responsável pela minha vida! O problema está sempre nos outros! ”

– Você está bem?

Como assim?! Como você ousa fazer este tipo de pergunta? Você não tem o direito de perguntar se está tudo OK! A letra K é uma letra ofensiva, que expressa o ódio – afinal, a KKK usa a letra k em seu nome! As leis deveriam proibir o uso da letra k! Você é racista!

– Bom, como está a sua estabilidade emocional?

Você não tem o direito de me perguntar sobre a minha estabilidade! Eu tenho um tio que tem um problema no ouvido interno que afeta o seu equilíbrio! Você está atacando as pessoas que têm este tipo de problema! Você é ouvidofóbica!

Eu não concentro meus esforços na mudança, porque não é assim que se facilita o processo de transformação. Ao invés disso, saio gritando por aí e exijo que os outros mudem, e exijo principalmente que eles façam a mudança que eu quero ver acontecer.

Minha frase motivacional preferida é, “exija que os outros sejam a mudança que você quer ver no mundo”.

Tem gente que entende tudo errado e acha que eu não estou buscando o bem do mundo, mas arrumando uma briga para me sentir importante e chamar a atenção das pessoas. Nossa, nada a ver! Na real, isso aí nada mais é do que pensamento marxista de quinta categoria, o que é mega ofensivo. E você dizer isso é um ataque pessoal contra mim, já que sou ruivo. Você é ruivofóbica! Nossa, preciso de um espaço seguro e acolhedor.

Ser um guerreiro da justiça social é tipo ter a liberdade de fazer bullying com as pessoas ao fingir que estamos ajudando elas. Mas não é nada disso, na real. É algo completamente diferente. É tipo ter carta branca.

Você deveria poder dizer aquilo que você pensa. Mas antes de sair falando, você deveria ter que dar o alerta de possíveis gatilhos, mas depois de um mês fazendo isso, as minhas emoções seriam engatilhadas pelo seu alerta de gatilho. Daí, eu exigiria que você desse um alerta de gatilho sobre o alerta de gatilho. E depois de um mês disso, as minhas emoções seriam engatilhadas pelo seu alerta de gatilho, sobre o alerta de gatilho. Então, eu exigiria que você fizesse os ajustes necessários para atender às minhas demandas novamente e, se você não tivesse conhecimento de causa, você diria que eu nunca me contento com as coisas. Isso é manifestação de ódio, porque eu não me identifico como eu.

Como guerreiro da justiça social, sou especialista em comunicação. Se você também o fosse, saberia que xingar as pessoas é essencial à comunicação eficiente da sua opinião. E saberia que quem usa mais letras maiúsculas e aperta o enter mais vezes, é o vencedor de qualquer discussão virtual.

De nada, mundo! Que sorte a sua eu existir! É difícil fazer o que eu faço. Eu dou conta porque eu tenho certeza de quem eu sou.

Você sabia que as pessoas que todo mundo gosta de conviver são aquelas que sempre têm certeza do que são e pensam? Sim! É isso mesmo!

E mesmo assim, eu sempre faço o sacrifício de ficar sozinho online. As pessoas bem que queriam passar mais tempo comigo, afinal de contas, sou um poço de alegria.

Mas eu tenho o dever de servir e proteger a sociedade contra todos, menos de mim mesmo.