POR TRISTAN TAORMINO

POR TRISTAN TAORMINO

Escritora premiada, educadora sexual, palestrante, cineasta e apresentadora de rádio. Ela é editora de vinte cinco antologias e autora de oito livros, incluindo OPENING UP: Um Guia para Criar e Sustentar Relações Abertas, além da série antológica Best Lesbian Erotica. Como oradora, ela é especialista em uma gama diversificada de tópicos, desde o fortalecimento sexual e sexualidade LGBTQIA+ até não-monogamia e feminismo.

TRADUÇÃO: Chris Rostworowski

Esta menina é diferente


Aprendi como é ser queer antes mesmo de ser queer, pelas ruas felizes de Provincetown– graças ao meu pai gay e à Marilyn Monroe

Como típica filha de pais divorciados, eu morava com minha mãe e via meu pai nos feriados e férias escoares. Aos 15 anos, tive a oportunidade de passar as férias de verão todas na casa do meu pai, e ele, por acaso, morava emProvincetown, Massachussetts. Foi também nestas férias que tive minha primeira experiência de emprego, trabalhando em uma loja de artigos de couro. Passava a maior parte do meu tempo livre na companhia de dragqueens e perdida na paixonite pela menina lésbica das entregas, a Nina. Lembro-me do meu sorriso besta toda vez que ela vinha fazer entregas na loja, com seus cabelos pretos, músculos, uma espécie de meninão crescido. Nunca passou pela minha cabeça que meus amigos de LongIsland, Nova York, não estavam curtindo o mesmo tipo de férias de verão que eu. Foi nestas férias que passei perfume pela primeira vez, e uma travesti de nome Lola foi quem me ajudou a escolher a fragrância – era a que ela usava, e eu amava o seu cheiro. Parecia maçã com baunilha. Foi o verão dos potluckdinners, jantares aleatórios das lésbicas, preparado com o que tivesse de ingrediente pelo caminho, e dos tea dances, festas dançantes pelos jardins, no crepúsculo, noBoatslip. Foi o verão de assistir aos flertes do meu pai com outros homens, naCommercial Street. Um verão digno de ser lembrado.

Meu pai era bem próximo de um performer chamado Jimmy James, que se caracterizada de Marilyn Monroe. Eles chamavam a performance de “imitação feminina”, nas era muito mais do que isso. Jimmy era a pessoa mais incrível, mais glamorosa que eu conheci. Ao contrário das queens que vestiam vestidos baratos, brilhantes, e mal conseguiam acertar a sincronia labial, Jimmy cantava as músicas de Marilyn e conversava com o público, imitando a voz da diva. Noite após noite, a sua transformação era mágica. Quando nos encontrávamos durante o dia, Jimmy era bonitinho, animado e tinha um senso de humor inteligente.

Ao ser tomado pelo vestido de lantejoulas rosa-pêssego, peruca loira e pulseiras de brilhantes, ele incorporava a Marilyn. Ela era linda e sexy, atrevida e ousada – e eu queria ser ela. Não a Marilyn que eu vira em A Malvada, com meu pai, nem a Marilyn os pôsteres e camisetas que estavam por toda a parte. Eu queria ser a Marilyn que o Jimmy era.

Aprendi como era ser lésbica em um prédio de tijolinhos tomado por heras, com uma atleta-barra-agitadora chamada Jen, que adorava causar. Descobri como era ser sapatão com camisetas de algodão pré-lavadas e frases de efeito tipo “Leia Meus Lábios”, “Eu Gosto de Meninas”, “Aqui Lambemos Buceta: Pode Me Mandar pro Inferno”, “Comemos Bunda: Haja Camisinha, Senhor” e adesivos autocolantes com lemas do movimento, tipo “Foda-se o Seu Gênero”, “Chupe Meu Pau Lésbico”, “Queer Sempre, em Qualquer Lugar”, “Lide com Fisting”. Aprendi como era ser femme com o livro MotherCamp e Joan Nestle, e com meninas que se parecem com meninos.

Na minha primeira semana de aulas na faculdade, quando recebemos as orientações dos alunos mais velhos, sobre como as coisas funcionam, conhecei Jessie, jogadora de futebol, tímida, vinda de uma cidade pequena no norte do estado de Nova York e que morava no mesmo prédio que eu. Dividíamos a carteira na aula de Cálculo. Nenhuma de nós conseguia entender a letra do nosso professor maluco na lousa, mas nunca tivemos problemas para entender os bilhetinhos cheio de garranchos que passávamos uma para a outra, o dia inteiro, como se fossemos melhores amigas no colegial. Jessie era sensível, divertida, de uma energia leve, easygoing, e tinha os olhos azuis mais maravilhosos do mundo. Jessie se assumiu lésbica na frente de todo mundo, durante uma das reuniões do nosso prédio da residência universitária. Foi prontamente abraçada por todos, em meio a palavras de incentivo, assim que terminou de contar. Lembro-me de voltar para o meu quarto naquela noite, com a sensação de que ela era uma das mulheres mais corajosa que eu conhecia. Naquele ano, Jessie começou a namorar uma menina que parecia a Elizabeth Taylor quando jovem, e eu adorava vê-las juntas.

Todos os alunos do primeiro ano tinham de participar de seminários de conscientização, e o Workshop de Conscientização de Gênero era organizado por alunos queer. Em uma das atividades propostas, tínhamos que nos apresentar e dizer se éramos gays ou lésbicas, e falar em primeira pessoa sobre como era ser gay ou lésbica.

“Se você não é gay ou lésbica, tente se lembrar de situações em que você se sentiu diferente ou rejeitado, e trace um paralelo com a situação do grupo”, disse um dos facilitadores, mais velha, bem vestida, com óculos tartaruga e sapatos pretos pesadões. Algumas histórias que ouvimos sobre ser gay eram verdadeiras, mas nunca tínhamos como saber quem estava de fato dizendo a verdade. Eu sabia que Jessie estava.

Parecia que todos os alunos da Universidade Wesleyan eram queer, ou pelo menos queriam sê-lo. Havia broches com triângulos rosas, pôsteres de diferentes grupos de alunos gays e casais do mesmo gênero de mãos dadas, por toda a parte. Qualquer festa organizada pela aliança de alunos gays, lésbicas e bissexuais era um evento imperdível. Pense nas melhores músicas, nos melhores looks – e, ao final da noite, meninos sem camisa e meninas de topless, dançando e pulando até o dia amanhecer.

Meu flerte com Jessie durou um ano, quando finalmente resolvi falar que já não aguentava mais brincar daquilo, e pronto, dei um beijo nela. Simples assim, em pleno segundo ano. Bom, eu queria fazer isso, então, fui lá e fiz. Quase morri do coração e fiquei com medo do que poderia acontecer depois. O que acontece quando duas meninas se beijam? Jesssie virou a minha primeira namorada. Na realidade, ela foi a primeira namorada de muitas meninas. Jessie era praticamente uma agência “recrutadora” de uma pessoa só, mas era tão verdadeira e sem expectativas na forma de conduzir as coisas, que não haveria como desconfiar que as filhas de alguém poderiam estar em perigo em sua presença. Aceitar a minha orientação sexual e tomar uma atitude em relação ao que eu sentia aconteceu assim, de uma vez só. Acho que o único motivo pelo qual eu não me coloquei em cheque naquele momento foi o fato de ter o privilégio de estar em um ambiente em que era bom – talvez até ótimo – ser queer. Foi só virarmos um casal e eu me vi caminhando pelo campus de mãos dadas com Jessie, assim como fizera com qualquer outra pessoa com quem namorei antes. Muitos dos meus amigos eram queer, e eles me diziam, “Oba! Seja benvinda à família!”

A forma que escolhi contar para a minha mãe passou longe do ideal. Tinha voltado para casa em um dos feriados escolares, e estava falando no telefone com Jessie há cerca de uma hora. Minha mãe insistia em bater na porta do meu quarto, mandando eu desligar. Aquilo me deixou frustrada e eu entrei na sala de estar alucinada.

Ela fez algum comentário nada-a-ver, tipo, “Não sei quem é esta Jessie, e porque você tem que ficar falando com ela tanto tempo assim.”

“Ela é minha namorada! E eu sou bissexual!”, gritei, p. da vida.

Nem me lembro do que ela disse na sequência.

Contar para o meu pai, gay, foi muito mais tranquilo. Ele disse algo como, “Que ótimo – qualquer coisa que te faça feliz”. Curiosamente, não houve qualquer manifestação empolgada do tipo “benvinda ao clube”, ou coisa que o valha.

Minha relação com Jessie não durou muito tempo; a nossa sintonia realmente era de amizade. Acho que as pessoas não perceberam – aliás, nem eu – que eu realmente estava levando a coisa à sério. Não tinha nada a ver com fase, ou com experimentar coisas novas. Até eu conhecer a Jen. A Jen era A LÉSBICA-MOR da faculdade. Aluna do último ano, mega inteligente, cheia de opiniões para dar e assumida to-tal. Todo mundo sabia quem ela era; além de ser ativista, falava aos quatro cantos sobre coisas tipo sexo, SM e pornografia. Jen também assistia às aulas vestida de gravata e camisa masculina. Esqueça a lésbica simpática, atlética, que todo mundo acha charmosa. Ela era daquelas lésbicas fortonas, másculas, assumida no seu gênero e estilo, e eu sentia atração por ela. Nos conhecemos na biblioteca, enquanto ela finalizava o TCC dela – aprovado com honras ao mérito – e nossos primeiros encontros foram lá. Nosso primeiro beijo foi na escadaria da biblioteca e eu senti tanto desejo que achei que fosse explodir em um milhão de pedacinhos, aos seus pés. Jen sabia – e como sabia – flertar, tão segura de si, tão deliberada e generosa na escolha de suas palavras, tão poderosa ao me enfeitiçar. Tomada por aquela mulher, eu só pensava em me entregar, em dar tudo a ela. Jen era a lésbica mais inteligente e sangue-nos-olhos que eu conhecia – e virou a minha namorada.

Todas as noites, antes de dormir, Jen lia em nossa cama Lesbian Sex World, da Susie Bright, para mim, em voz alta. (Foi ela, aliás, que organizou a palestra da Susie Bright na faculdade, naquele bimestre). Que conexão que tivemos, que entrega àquela relação. Foram tantas coisas pela primeira vez com Jen. Jen foi a primeira menina com quem morei. Foi com ela que vivi o meu primeiro terremoto, estávamos as duas na cama, junto com o seu labrador amarelo. Experimentei pela primeira vez o prato que se tornou o meu predileto da vida, pelas mãos de Jen: sushi. Jen foi a primeira mulher a me comer com um vibrador. Jen foi a primeira mulher a me amarrar. A me bater. Para quem dei a bunda. Fui submissa com ela pela primeira vez, fui dominada por ela pela primeira vez, e invertemos os papeis. Assistíamos pornô gay juntas. Ela foi a primeira mulher que eu comi usando um strap-on. Foi a primeira mulher para quem fiz um strip-tease. Jen foi a primeira mulher para quem comprei uma gravata. Foi ela que me disse para comprar meu primeiro par de Doc Martens. Ela era tão clara e articulada em relação aos seus desejos e à política, tão aberta em relação ao sexo, que eu tinha certeza que poderia contar qualquer coisa para ela. Jen era minha amante, minha mentora, minha professora de assuntos lésbicos, e boa parte do que eu sou hoje veio dela.

Antes da Jen, eu me sentia no armário não só em relação ao meu desejo por mulheres, mas também de explorar as infinitas possibilidades do sexo. Me assumir finalmente trouxe a liberdade que eu precisava para fazê-lo. Minha experiência com meninos nunca foi ruim ou uma tortura; aliás, foi bem satisfatória, do ponto de vista físico. Nem sempre consegui me conectar com eles intelectual ou emocionalmente, e sempre senti que alguma coisa estava faltando. Apesar de minha experiência com homens ter começado bem cedo, eu nunca tentei nada de novo, nem experimentei nada, nem dei vida às minhas fantasias. Ser lésbica coincidiu totalmente com a minha liberação sexual em geral, e os dois processos de despertar se mesclaram, para mim.

Minha mãe conheceu a Jen pela primeira vez em um brunch, quando aproveitamos também para contar que eu iria me mudar para Hollywood com ela, assim que ela se formasse.

Entre uma mordida e outra de seu sanduíche, minha mãe disse, “Jen tem porque ir – para dar início à carreira dela. Você está fugindo de casa.”

Virei lésbica naquele verão. Cai de paraquedas na cultura queer em Los Angeles, e finalmente me senti em casa, encontrei minha tribo e a mim mesma. Ficamos amigas de lésbicas radicais e veganas. Participamos das Marchas do Orgulho Gay de São Francisco e Los Angeles. Participamos do ACT-UP e doQueerNation.Nos jogamos no ativismo, nos protestos, nas manifestações, fossem elas contra o Governador Pete Wilson, homofóbico de carteirinha, ou um laboratório de revelação de fotografias de Beverly Center que se recusava a revelar fotos de casais homossexuais se beijando. Quantas vezes caminhei pela Santa Monica Boulevard, em West Hollywood, calçando as minhas botasDocMartens, de mãos dadas com pervertidos de tatuagens e piercings, à caminho de clubes de fetiche e cafés gays, com centenas de adesivos coloridos e panfletos para distribuir. Passei a noite em claro noKinkos, emHighland, fazendo adesivos, cobrindo de amarelo os dizeres Bicha Infectada. Cory era “daqueles” – rapaz de cabeça raspada com piercing no nariz, que usava vestidos, era muito educado, porém estava longe de ser um cidadão obediente. Sua raiva, sua fúria e seu espírito e seu corpo infectado não conheciam limites, e eu o amava justamente por conta disso. Quando voltei de Los Angeles, eu tinha uma ideia muito mais clara de quem eu era, da minha identidade e do meu propósito.

Foi só depois de ter me assumido lésbica que, pela primeira vez na minha vida, me senti  pronta para celebrar ser mulher, e eu fiz isso. Aliás, até demais. Armada até os dentes com os livros de Esther Newton (MotherCamp), Judith Butler (GenderTrouble) e Joan Nestle (A Restricted Country), abracei minha feminilidade. Costumava usar vestidos curtos e floridos, sutiãs meia taça, calcinhas de seda e meias-calças de renda. Devotava muita energia aos meus cabelos longos e ondulados, penteados à perfeição, à minha maquiagem incrível e aos meus lábios, sempre carnudos. Meu perfume de escolha era o Lola, da Coleção Privada da Estée Lauder, e minhas unhas estavam sempre pintadas. Usava tudo isso com meus coturnos velhos de guerra e um senso de sarcasmo profundo. Me joguei no ser menininha, fui além, aprendi a fazer as minhas sobrancelhas e a fazer o traçado dos meus lábios com um lápis de boca.

Não havia como confundir a minha apresentação de gênero: sexualidade flagrantemente feminina. Eu era uma lésbica orgulhosa, na caruda, sem medo da repressão, atrevida, não venha achando que sou hetero só porque uso batom e vestidinho. Porque, em geral, as pessoas assumem que as femmes são hetero ou saem com homens. E eu de fato saio com homens, mas sempre fiz questão de andar de braços dados com as lésbicas para deixar claro que eu era femme. Eu tinha certeza que as pessoas achavam que eu era hetero, mas bastava um olhar para mim para os caras já perceberem e seguirem o seu caminho. Era como se eu fosse mulher demais para eles conseguirem lidar, eu era “muito”, e era mesmo. Mas as lésbicas amam as mulheres que são “muito mulheronas” – muito tudo, na real, peitão, bundão, uma mulher com quem você tem que lidar – uma mulher que dá conta do seu próprio recado.

Muito do processo de eu ter me descoberto femme foi graças às mulheres às quais me sentia atraída, e à dinâmica que rolava entre nós. Ainda na época do colegial, de vez em quando eu dava uns beijos em uma amiga minha chamada Angela. Angela era uma destas meninas que ganhou corpo logo cedo – eu me lembro dos seus peitões já na sexta série. Em geral, nos beijávamos e nos acariciávamos, de roupa mesmo, e imaginávamos situações como se fossemos menino e menina. Eu sempre era a mulher – eis as minhas raízes femme. Entre todas estas situações, a minha predileta era fingir que ela era meu chefe, e eu, a sua secretária. O chefe me obrigava a transar com ele, e ameaçava me mandar embora, caso eu não o fizesse. Veja bem, isso tudo rolou antes dos episódios de Clarence Thomas, Anita Hill e a conscientização/obsessão da mídia com os casos de assédio. Lembro-me dela mandar eu chupar o seu pau e enfiar a minha cara na sua virilha, que tinha um cheiro incrível. Todo o drama envolvido – a força, a situação degradante, os jogos de poder – me deixava com muito tesão. Nunca mais consegui voltar às coisas simples – fiquei viciada no poder.

A Jen realmente era a epítome de todas as meninas por quem me interessei, e ainda me interesso. Ter uma butch como parceira significava ser valorizada pela minha combinação de força e vulnerabilidade, por me arrumar, por querer ter um braço por tomar, uma cintura para envolver com as minhas pernas, conseguir entregar meu corpo a ela e dizer, eu confio em você, sou tua. A minha butch me amava em meus vestidos curtinhos, curtia o meu apetite sexual e venerava a puta que vivia dentro de mim. Não havia nada melhor do que poder ser forte e submissa, ao mesmo tempo. Me entregar e mesmo assim, ser feminista. Ser lésbica não é só uma questão de escolher quem eu amo e com quem eu transo, mas com ser uma mulher que não segue as regras.

As butches também não seguem as regras, e é por isso que eu sou louca por elas. Meninas com cabelos tão curtos que mal dá para segurar os fios entre os dedos. Com cortes de cabelo saídos diretos da barbearia, brilhantes e retos, e camisas com botões ao contrário. Meninas que têm um gingado. Meninas que têm paus feitos de carne e silicone e látex e mágica. Meninas que tomam olhares tortos nos banheiros femininos, fazem compras no departamento masculino das lojas, que vivem cada momento como se não pudessem fazê-lo. Meninas com mãos que me tocam como se tivessem tocado meu corpo suas vidas inteiras. Meninas que têm paus enormes, amam um boquete, e curtem um sexo animal. Dia após dia, são as meninas que são chamadas de Senhor que fazem com que eu perca o ar, meninas com maxilar avantajado e que fazem tremer os meus joelhos, as meninas que são de um gênero diferente que fazem com que eu queira me jogar em suas camas.

Recentemente, alguém usou estas palavras para me descrever, e elas não poderiam ser mais certeiras: “Ela curte transar com todo tipo de gente, mas se apaixona mesmo pelas butches.”Tipo a poeta que comprou seu primeiro strap-on comigo, e não me quis que eu o tirasse para dormir. A estagiária de psicologia que sofria bullying toda vez que voltava para casa, no sul. Ela realmente parecia muito um menino de quinze anos, com suas camisas azuis todas abotoadas e cabelos loiros devidamente penteados. Ou a publicitária que dava nomes aos seus vibradores, e que pirava quando eu usava meu cuspe para engraxar os seus Oxfords. A fotógrafa cujo rosto era tão másculo que dava mesmo para enganar qualquer um. A escritora que queria ter o corpo do Loren Cameron. A mulher que consertava telefones e dirigia uma caminhonete. A cozinheira com nome de menino. A professora universitária que andava pela Castro Street em busca de homens gays para transar. A fazendeira do coração do mundo rural dos EUA, com braços tão fortes que você poderia jurar que aqueles bíceps saíram direto da academia.

Tem aquela que joga o olhar à la James Dean, se veste que nem viado mesmo, e que me olha incessantemente, sem piscar ou se cansar ou sair do seu lugar. É daquelas que adora meninas como eu – meninas de sutiã de veludo, que querem se entregar à sua boca. É uma menina que não tem medo de jogar uma femme na cama e foder. Possui-la. Meu tipo de menina. Esta menina é diferente.