SSEX BBOX

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[SSEX BBOX] é um projeto de justiça social, lançado em 2011, que procura dar visibilidade às questões de gênero e sexualidade em São Paulo, São Francisco, Berlim e Barcelona, cujo objetivo é fornecer instrumentos para a expansão da consciência, reduzir o isolamento, facilitar a educação, estimular a criação de comunidades e questionar antigos conhecimentos sobre a sexualidade e gênero, focado na temática / população LGBTQIA+.

COLETIVO ABRACE

Cara sociedade brasileira,

Nós, o Coletivo AbrAce, vimos pela presente carta estabelecer um diálogo com a comunidade LGBTQIAP+ e a sociedade em geral e afirmar nosso espaço dentro da comunidade LGBTQIAP+, que busca lutar pela defesa, respeito e compreensão da diversidade sexual e de gênero da espécie humana.

Desejamos ocupar um espaço que, legitimamente, julgamos ser também nosso, para que possamos, juntos, lutar pela mesma causa que nos une: o respeito à diversidade.

Somos assexuais. Eis o que temos em comum no Coletivo AbrAce. Somos estudantes e profissionais de todos os talentos e classes sociais, filhas, filhos, pais, mães, avós, avôs, netas, netos, mas o que temos em comum e nos une, é a nossa luta pelo respeito por nossa identidade assexual.

Nós também somos uma multitude de diversidades. O que nos une é a nossa luta por nosso direito de existirmos como assexuais.

Preferimos definir as assexualidades como a ausência total, parcial, condicional ou circunstancial de atração sexual, toda identidade em que o sexo não é o referencial primário do desejo e da atração voltados para um relacionamento íntimo por outra pessoa. Por esse conceito buscamos, inicialmente, sermos respeitados e compreendidos.

Nesse sentido, qualquer pessoa que não se identifique com o espectro da assexualidade passará ser chamado de “alossexual”, termo criado pela comunidade assexual.

Por uma questão histórica, em que os termos foram estabelecidos para o reconhecimento das  identidades de gênero e sexuais consideradas não normativas, primeiro apareceram os termos que definem aquilo que socialmente diverge do que é conhecido, porque tudo o que é naturalizado como padrão na sociedade não recebia nem necessitava de um nome.

Sendo assim, o termo “homossexualidade” apareceu antes de “heterosexualidade”, o termo “transgênero” foi criado antes de “cisgênero”, bem como termo “intersexo”, que surgiu antes de “diádico”. Por lógica conceitual, “assexualidade” também aparece antes, para definir o contraste das identidades normativas e plenamente conhecidas das sexualidades.

Para a alossexualidade, as identidades sexuais, passam a adquirir depois o termo “alossexualidade”. O*, (*o prefixo “alo”, vem do grego antigo “állos” – ἄλλος -, que significa “outro”). O prefixo foi escolhido pela comunidade assexual para designar aqueles que não se identificam com o espectro assexual, que têm como definição o interesse sexual prioritário pelo relacionamento íntimo com outra pessoa, em oposição à assexualidade.

Assim como nos referimos aos conceitos das identidades sexuais com os sufixos “sexualidade”, os termos para as identidades assexuais seguem a mesma estrutura linguística. Uma pessoa assexual não é uma pessoa “assexuada”, bem  como não dizemos, de uma pessoa heterosexual, que ela é “heterossexuada”.

Nesse contexto, discutir e defender a assexualidade traz benefícios tanto para assexuais quanto para alossexuais. Respeitar a assexualidade é garantir aos assexuais a validação e o respeito de suas experiências.

Os assexuais sempre fizeram parte dos grupos de diversidade sexual, apesar de o termo “assexual”  ter sido difundido apenas recentemente na internet, o estudo da história da sexualidade deixa claro que sempre existiram assexuais entre as pessoas que compõem os grupos de diversidade sexual.

Os assexuais, como todos os membros da comunidade LGBTQIAP+, sofrem violências e preconceitos que merecem ser discutidos, denunciados e enfrentados.

A primeira grande violência que os assexuais sofrem é a invalidação de suas experiências. Os assexuais, com muita frequência, têm suas vivências  subestimadas, consideradas infantis, por não seguirem os moldes normativos sexuais, como se pessoas que não praticam atos sexuais não atingissem a maturidade esperada, lida socialmente como responsabilidade e comprometimento. No entanto, nós, assexuais, ansiamos pela visibilidade de nossas lutas e pelo respeito às nossas vivências, para que tenhamos acesso a atendimentos coerentes, relações respeitosas e participação social sem constrangimento.

Sempre que falamos em “assexualidade”, falamos em “atração”.  Os assexuais podem ter relações sexuais ou não, podem sentir mais ou menos prazer nas atividades sexuais. O que diferencia assexuais e alossexuais não é a prática de tais atividades, mas a forma como cada um dos grupos sente atração.

Os asssexuais também são constantemente patologizados. Patologizar a assexualidade é entender e defender que a ausência ou o baixo nível de atração sexual é algo que deve ser curado.

Com frequência, nós, assexuais, temos nossas experiências e identidades lidas como doenças e invalidadas por médicos, psicólogos e terapeutas. Sofremos com constantes ameaças ou conselhos, provenientes não apenas de profissionais da saúde, mas também de amigos e familiares, para que recorramos à hormonização, à utilização de medicamentos e terapias para que experimentemos a experiência lida socialmente como normal.

Nesse contexto, que nos impele à prática sexual como regra, há a ameaça do estupro corretivo, sofrida por tantos assexuais, praticada pelos próprios parceiros ou pessoas qu se julgam capazes de “curar” essa “doença”, como se ser assexual fosse uma questão de ter relações com o “salvador” “correto”. Essa ameaça e sua concretização são calados socialmente, seja pelas pessoas em geral, que esperam que as outras pratiquem sexo, quanto pelos próprios assexuais, que se culpam e se frustram por não corresponderem a essas expectativas impostas.

Por fim, a assexualidade dificilmente recebe visibilidade. Quase não há representação acolhedora da assexualidade na mídia. A pouca que existe, em geral, é problemática e feita com pouca consciência, reproduzindo estigmas e preconceitos. Entre os mais comuns, estão os de que assexuais são incapazes de amar ou que são pessoas frias, sem sentimentos, robóticas ou alienígenas, completamente desumanizadas.

É com a consciência de todas essas lutas que surge o Coletivo AbrAce. Somos um grupo de amigos que têm em comum o fato de sermos assexuais e o desejo de defender e visibilizar questões e vivências da assexualidade.

Buscamos, com o Coletivo, servir como uma voz unida e pública, participando e somando em discussões e debates sobre diversidade. A compreensão da assexualidade por todos só tem a acrescentar em nosso mundo, trazendo mais mecanismos para compreender as formas que nos relacionamos e nos conectamos com outras pessoas.

Coletivo AbrAce
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