POR TRISTAN TAORMINO

POR TRISTAN TAORMINO

Escritora premiada, educadora sexual, palestrante, cineasta e apresentadora de rádio. Ela é editora de vinte cinco antologias e autora de oito livros, incluindo OPENING UP: Um Guia para Criar e Sustentar Relações Abertas, além da série antológica Best Lesbian Erotica. Como oradora, ela é especialista em uma gama diversificada de tópicos, desde o fortalecimento sexual e sexualidade LGBTQIA+ até não-monogamia e feminismo.

HETEROSSEXUAIS QUEER

Conheci poucos homossexuais que não praticavam aquilo que pregavam. Estas pessoas estão pecando contra Deus e, em última instância, levarão à destruição da família e de nossa nação. Sou veementemente contra estas coisas, e farei tudo que eu puder para restringir a liberdade destas pessoas, para não deixar que esta infecção contagiosa contamine os jovens de nosso país.

Apesar de antiga, esta é uma das ‘boas’ frases do ultraconservador de direita Pat Robertson, da década de 90 – infelizmente para ele, os pecadores já deram grandes passos desde então. O movimento pelos direitos civis de lésbicas, gays, bissexuais e trans (LGBT) já conquistou muita coisa desde os primeiros indícios de ativismo, marcados pelos punhos fechados e raivosos, erguidos em Stonewall em 1969. Os queers jovens de hoje podem usufruir das benesses conquistadas graças ao trabalho do movimento, e não estou falando da distribuição da série Will & Grace na TV a cabo, nem do canal Gay Network, que em breve será lançado pela Showtime. Temos acesso a medidas jurídicas de proteção que jamais tivemos. Temos comunidades, organizações e canais de mídia fortes e diversos, e até mesmo voz ativa no Congresso, em Washington, D.C. O movimento LGBT também tem efeitos amplos e significativos na sexualidade – não só não sexualidade queer, mas nas vidas sexuais de todos.

Há muitas provas disso, a começar pela revolução presente na expansão da oferta de lugares clean e iluminados para comprar brinquedos sexuais (ou a Sex and the Girl Next Door Revolution). Os vibradores e plugs anais não estão mais relegados às prateleiras recônditas próximas ao caixa, ou a vitrines de estabelecimentos de show eróticos ou lojas na ‘parte ruim’ da cidade. Lojas que abordam o sexo de maneira positiva, e que são pensadas para acolher as mulheres, como a Good Vibrations, em São Francisco, ou a Toys in Babeland, em Seattle e Nova York e a Grand Opening, em Boston, criaram espaços onde o sexo é promovido abertamente (com bom gosto, é claro!), analisado, explorado e curtido. Há lojas semelhantes em centenas de outras cidades, de Los Angeles a Chicago e de Madison a Iowa City. Ao deixarem estes estabelecimentos, as clientes não carregam consigo somente vibradores novinhos em folha, em cores diferentes, e tubos de lubrificante – mas saem também armadas com informação, inspiração e confiança. Enquanto quase todos os fundadores, proprietários e colaboradores destas empresas identificam-se como queer, a maioria de seus clientes, entretanto, espelha a maior parte da população – trata-se de heterossexuais. Quando uma lésbica tenta ajudar um marido em sua dúvida, para entender qual é o melhor brinquedo para estimular o clitóris de sua esposa durante a penetração, ela oferece conselhos com base em sua própria experiência. Um homem heterossexual recebe dicas de sexo lésbico – e os limites deixam de ser tão claros.

Ainda sobre a relação com a quebra de barreiras, é importante dizer que os queers analisam e questionam as construções de gênero como ninguém, e, em muitos casos, nós reinventamos o gênero. De homens gays ursos, fadas, drag queens e twinkies às lésbicas butch, femmes, girlfags e bois (de ‘boy’ com ‘i’ e não com ‘y’), tomamos as frentes da revolução de gênero graças à nossa capacidade de auto-identificação, e de criarmos as nossas próprias permutas de masculinidade, feminilidade, androginia e além. Veja, quando a coisa esquenta, não temos o modelo tradicional de homem-come-a-mulher no qual nos baseamos, e por isso precisamos criar o nosso próprio modelo. Não há nenhum modelo equivalente à relação pênis-penetra-na-vagina, nem qualquer modelo dominante do que o sexo queer deveria ser. Então uma vez é um, outra vez é o outro, todo mundo goza e respondemos à pergunta, “quem vai por cima?” de um milhão de maneiras diferentes. Todo este rebuliço que fazemos no gênero bateu nas portas da turma hetero, que também está deixando os roteiros pré-estabelecidos para trás, para escrever a sua própria história. Os papéis de iniciador ativo e penetrador não cabem mais exclusivamente aos homens, assim como as qualidades de receptividade e passividade não limitam-se exclusivamente às meninas. O exemplo mais claro disso é aquilo que eu chamo de Arquétipo do Bend Over Boyfriend, nome de uma série de vídeos que ensina mulheres a usar cintas penianas para penetrarem os seus amantes homens, mas que acabou também se transformando em tipo usado para descrever homens heterossexuais que não têm medo de colocar as suas bundas no ar para uma boa e velha penetração anal. E quem é que você acha que está ensinando as mulheres héteros a terem pleno domínio na hora de colocar as suas cintas, e garantindo aos homens que eles podem continuar sendo machos, e mesmo assim, serem comidos por trás? Os queers, é claro.

Os queers já foram altamente em prol do separatismo, mas hoje em dia, jogam a nossa fluidez em relação ao gênero e à identidade na cara de quem quer que seja. Se na década de oitenta e início da década de noventa a maior parte das histórias LGBT estava associada ao processo de sair do armário, hoje em dia está mais nas linhas de, “Sou lésbica e estou em um relacionamento com um cara bi que se identifica como gay – e isso quer dizer que sou o quê?” Além disso, a evolução de uma comunidade transgênero que se assume, não se cala, tem orgulho do que é e se faz visível e presente no mundo, fez com que todos parassem para olhar, fazendo com que o termo “sexo oposto” praticamente perdesse o seu significado, ou passasse a ser algo confuso, quando muito. Qual é o sexo oposto de uma pessoa trans (de homem para mulher)? A amante lésbica de uma pessoa trans (de homem para mulher) é bissexual ou qualquer outra coisa?

Todas estas mudanças geraram mais diálogo e diversidade dentro das comunidades LGBT, mas abriram o caminho para uma nova identidade: o Heterossexual Queer. Como é possível identificar um Hetero Queer? Em alguns casos, diz respeito à expressão de gênero não-tradicional de um ou ambos os parceiros. Por exemplo, ela é bem butch (sim, uma mulher hétero pode ser super butch — você já visitou o estado de Montana, nos EUA?) e ele pode ser afeminado, e deixar ela comandar as coisas (o que pode ou não incluir penetração com cinta peniana), ou ambos lutam ativamente contra os papéis de gênero que lhes foram atribuídos. Alguns heteros queers estão fortemente alinhados à comunidade, cultura, política e ao ativismo queer, mas amam e desejam pessoas de outro gênero. Eu também considero queer aqueles que praticam modelos alternativos de sexualidade e relacionamentos (poliamor, não-monogamia, BDSM e cross-dressing), já que categorizá-los como “heteros”, considerando as suas escolhas de estilo de vida, parece-me inadequado. Por fim, há aqueles que podem parecer héteros e agir como héteros, mas não há como considerá-los desta forma, em sã consciência.

Para mim, ser queer sempre teve a ver com a minha comunidade, a minha cultura, e a minha forma de ver o mundo e não só sobre as pessoas que eu amo, e com quem eu transo. É por isso que acolho os heteros queers nesta turma, com muito prazer. Este é o pior pesadelo da direita fervorosa: infiltramos a massa! Os nossos homens ensinaram os seus homens a se vestirem melhor, e nossas mulheres venderam dispositivos às suas mulheres, para que elas substituíssem os seus homens! E agora que estamos no lugar mais privativo e sagrado dos seus espaços – o quarto – vocês estão transando que nem os queers, e nem se dão conta disso!