POR TRISTAN TAORMINO

POR TRISTAN TAORMINO

Escritora premiada, educadora sexual, palestrante, cineasta e apresentadora de rádio. Ela é editora de vinte cinco antologias e autora de oito livros, incluindo OPENING UP: Um Guia para Criar e Sustentar Relações Abertas, além da série antológica Best Lesbian Erotica. Como oradora, ela é especialista em uma gama diversificada de tópicos, desde o fortalecimento sexual e sexualidade LGBTQIA+ até não-monogamia e feminismo.

STONE FEMME

Coloco-a deitada, de barriga para cima, para que eu possa ver melhor o que ela precisa. A sua pele cor de oliva parece surpreendentemente pálida contra a colcha xadrez de tons escuros, e seu corpo de menino é só linhas e ângulos na cama. O terno bem cortado que chamou a minha atenção na boate está sobre o piso de madeira – fiz com que ela ficasse apenas com a sua cueca samba-canção. Suas mãos me procuram sem sossego, e eu as tomo sob as minhas. Pressiono os nós dos seus dedos delicadamente contra a cama, e passo a beijá-la rápido, e com força. Seu corpo se espalha pela cama, e eu me pego a pensar no quão vulnerável ela deve se sentir em seu próprio leito. Há almofadas fofas por toda a parte, ao seu redor, daquelas que rapidamente movem-se de lugar quando pressionadas. Quando nos conhecemos, ela me disse que está cansada das mulheres assumirem que ela é um tipo forte, só por ser um gentleman. Ela me disse também que gosta de ser comida. Eu quero ouvir ela dizer isso novamente, e ela tem que repetir, agora que estamos sozinhas. Eu quero dar a ela aquilo que ela busca, mas primeiro ela precisa me mostrar uma parte do seu desejo, preferencialmente, associado a um quê de desespero. Eu quero deixá-la no ponto – e quando eu estiver satisfeita com este lugar, eu entro. Sua buceta chupa meus dedos, aberta, disposta. Eu amo as butches que aceitam a minha mão voluntariamente, e sem pedir desculpas por isso. Minha outra mão apalpa as suas nádegas, e enfio um dedo no seu cu. Queria colocar alguma coisa em sua boca também, mas já não me restam mais mãos.

Ela está grunhindo um pouco, mas a sua mente ainda resiste às sensações, lutando contra o prazer. Desiste, eu digo, e comece a implorar. Ela trava, não quer o seu desejo exposto assim. Vamos, eu falo bem baixo, enquanto viro seu corpo de lado. Digo para ela se tocar, enquanto a como ainda mais fundo. Posso…. por favor? Ela está começando a se despedaçar. Gozar? Falo mais alto, tentando não assustá-la e tirá-la do momento. Goza, eu digo, e seu gozo é brutal, furioso, lindo. Depois dela se acalmar, viro ela novamente, e deito-me ao lado dela. Ela começa a tocar a parte interna da minha coxa, brincando com o elástico da minha calcinha. Ela quer deslizar os dedos sob o tecido. Freio seu movimento com a minha mão. No meu mundo, você tem de conquistar o privilégio de me comer, e mesmo quando você conseguir, é preciso pedir a minha permissão. E isso não vai acontecer em uma noite. Eu mando aqui. Eu sou intocável. Eu sou uma stone femme.

Você já deve conhecer meu par oposto, a stone butch: forte, silenciosa, misteriosa, incompreendida. Ela deve ter te contado sobre os seus dias de trabalho em empresas tradicionais e episódios vividos na rua, e sobre as noites dando prazer às mulheres que conquistou nas mesas de bar. Às vezes, ela não tira a roupa, não mostra o seu corpo para você. Às vezes, ela é o Senhor, o Cara, o Pai, que comanda a transa e dispensa seus avanços generosos. Ela sabe o que lhe faz gozar: o uivo do orgasmo sob o seu corpo, causado pelo seu toque. Ela gemer não faz parte da equação. Talvez ela se proteja do seu passado, de seus medos, de sua dor. Para ela, mergulhar em seu corpo e dividi-lo com você é muito mais duro do que a sua aparência externa, muito mais duro do que o seu pau. Ela precisa de confiança, precisa de segurança, precisa que o impulso da necessidade se sobreponha ao terror. Entrar na sua cabeça, no seu coração ou no seu corpo pode ser como a busca por um tesouro perdido enterrado por aí, caçar um leopardo dos mais astutos ou esperar por um deslize. A paciência é uma virtude.

Já tive muitas amantes stone, duras, algumas mais fáceis de derreter do que outras. Sempre me percebi nutrindo um respeito e reverência inquestionáveis por toda esta dureza. Deixei que elas estabelecessem os termos de seu prazer. Alguma parte de mim compreendia que a sua opção de ser stone, em algum nível muito profundo, sem qualquer tipo de reserva, ambivalência ou ressentimento. A sua autopreservação não me parecia estranha ou desconhecida para mim. Me doava para elas, e também permitia que elas me oferecessem tudo aquilo que queriam, precisavam ou podiam dar. Não fazia com que se sentissem envergonhadas, nem as punia por isso, nem cutucava ou mexia com os seus lugares secretos. Deixava que elas viessem até mim, se e quando elas quisessem mais – deixando para trás mais uma camada de roupa, de armadura, de pele.

Mas e a stone femme? Ela deve estar por aí, em algum bar destes mais reservados, longas pernadas contidas em meias-arrastão e sapatos de salto – a sua arma de escolha. Trata-se de outro tipo de femme, ardente e linda, incrivelmente reservada. Talvez você já a tenha visto, e se confundiu, achando se tratar de outra pessoa – pensando, por que é que uma femme seria stone, seria dura? As femmes usam saias porque gostam de ser comidas. As femmes são as rainhas do sexo passivo. Feminilidade significa abrir as pernas e deitar-se pelada e aberta para você. Você assume que todas as femmes estão prontas, dispostas e querendo sempre. As femmes não precisam proteger os nossos eus fortes e frágeis, não precisam tomar as rédeas. As femmes não têm dissonância corporal ou desconforto. As femmes não gozam por te fazer gozar.

Eu deixo as minhas amantes stone butch ditarem os termos de seu prazer, mas nunca me ocorreu que eu poderia fazer o mesmo. Foi só quando a minha própria sexualidade mudou que eu percebi que entendi as stone butches, porque me identifiquei com elas. Para mim, stone tem a ver com estabelecer limites, uma espécie de luta-livre entre desejo e poder, necessidade e proteção. Eu sou stone quando não estou pronta para me revelar totalmente para você. Eu não sou de me fechar, eu fico por cima, por cima de você. Não se trata de fugir da conexão, mas de deixar as fronteiras claras para experimentar a intimidade com conforto, sem sensações ruins ou arrependimento. É sobre saber do que o meu corpo e o meu espírito são capazes, e honrar a ambos. É sobre aproximar-me da vulnerabilidade, no meu próprio ritmo. É sobre cura.

Stone femme é controle, stone femme é poder. É sobre ser bitch top. Stone é sobre ser sexual de acordo com os meus próprios termos, de obter prazer através das minhas próprias definições. Eu sei o que deixa a minha buceta molhada, e é sentir um corpo butch se entregar para mim. Acredito que não é possível, nem desejável, que a troca seja igual. Acho que em geral se dá valor por demais à igualdade. Quando me deito com alguém, as suas mãos sobre a sua cabeça me falam de submissão, e a sua carne trêmula me diz, me pega. Suspiros curtos e respirações superficiais sussurram Eu sou sua, faça comigo o que você quiser. Teu pau não me assusta, eu sei como pegar esta dureza latejante e fazer a mágica. Você vai estar nas palmas da minha mão, antes do amanhecer. Sou eu que mando aqui. Eu sou a intocável. Eu sou a stone femme.