SSEX BBOX

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[SSEX BBOX] é um projeto de justiça social, lançado em 2011, que procura dar visibilidade às questões de gênero e sexualidade em São Paulo, São Francisco, Berlim e Barcelona, cujo objetivo é fornecer instrumentos para a expansão da consciência, reduzir o isolamento, facilitar a educação, estimular a criação de comunidades e questionar antigos conhecimentos sobre a sexualidade e gênero, focado na temática / população LGBTQIA+.

PESSOAS TRANS AUTISTAS

Muita gente já ouviu falar pelo menos uma vez na vida sobre autismo, mas sabemos que na sociedade que vivemos, a definição dessa neurodivergência é feita por pessoas não-autistas e de maneira a carregar também os padrões normativos existentes. Pensando nisso, decidimos realizar um recorte entre transgeneridade e autismo e entrevistar algumas pessoas trans dentro desse espectro.

No dia 2 de abril (mês passado) foi celebrado o Dia Mundial de Conscientização do Autismo. E qual a importância dessa data?

A Semana de Conscientização do Autismo é uma excelente ocasião para debatermos a ocupação dos espaços pelas pessoas autistas, o que é um recorte que pode ser interseccional com a pauta trans, levando em consideração o movimento de luta trans para também a conquista de direitos e ocupação de espaços.

Uma coisa que percebemos ser recorrente no depoimento de nossos entrevistades foi a dificuldade de receber o laudo médico, comprovando ser neurodivergente, principalmente em pessoas que foram designadas femininas ao nascer.

“ser afab (designado mulher ao nascer), traz a questão da socialização como mulher ter trazido o autismo muito camuflado em mim. Além disso, posso citar que as pessoas passam a ter mais formas de deslegitimar quem você é. Se você é neurotípico e não pode responder pela sua identidade de gênero, quando se é autista, a sociedade automaticamente compreende isso. Existe também a baixa compreensão de normas sociais, o que influencia muito nossa expressão e entendimento de gênero muitas vezes. Não estou dizendo que não sabemos o que é, e sim que as normas sociais não são tão intrínsecas a nós, então o que choca muitos, para nós não é nada demais. Por isso também temos mais medo, porque não fazemos ideia do que é certo ou errado até mesmo para a comunidade trans.” Diz Fernando Ghiaroni ao Portal.

A partir desse depoimento, podemos perceber a necessidade de cada vez mais debates sobre o assunto, assim como perceber a problemática da socialização das pessoas designadas femininas e olhar entre e através disso.

A seguir, questionamos a definição de autismo sob perspectiva de uma pessoa trans autista para entendermos mais sobre essas pessoas e identidades políticas (sim, tudo o que você é, é político) de forma não contaminada pelos padrões [neuro] normativos.

Quando interrogado, Fernando Ghiaroni deu uma definição interessante do que é o autismo:

“Autismo é sim uma deficiência, mas uma deficiência nos padrões hegemônicos de funcionamento. Pra mim, é como se todas as mentes fossem computadores e as nossas vêm com uma pasta que falta no sistema, que acaba tirando alguns códigos vitais para o funcionamento integrado com outras máquinas. Mas não significa que não tenhamos outras infinitas pastas de conteúdo infinito… E formas diferentes de explorar o conteúdo em cada software.”

Nas palavras de Fernando França, e de forma mais simplificada:

“O autismo é uma diferença neurobiológica natural, que sempre esteve presente mas que só agora passa a ser encarado como neuro divergência e não mais uma doença. Não é uma tragédia, nem um desastre ou um erro. A neuro divergência é natural e necessária.”

É importante nós tentarmos entender o autismo de acordo com quem o vivencia, além de se desprender de conceitos retrógrados e engessados por um paradigma dominante.

Interseccionando o debate com o recorte trans, podemos ter uma noção das problemáticas entre vivência de identidade que muitas vezes é questionada, patologizada e silenciada e uma neuro divergência que por si mesma já é patologizada e vista com ignorância pela sociedade. Como relatado por França:

“É comum que nosso diagnóstico seja questionado ou nosso gênero invalidado. Pessoas com deficiência que também são LGBTQ+ acabam sendo atingidas por discriminação de todos os lados, além de sermos silenciados por pais/profissionais ou pessoas neurotípicas e cis que dizem falar em nosso nome mas não nos dão voz e tratam nossa existência como um fardo, buscando nos “curar” ou mascarar na sociedade como se nossa existência fosse motivo de vergonha.”

A hegemonia do padrão cis-hetero-neuronormativo branco e patologizador titubeia ao ser ameaçada. Uma tentativa incessante de deslegitimar e invisibilizar as identidades e corpos diversos e principalmente não-binários. Como por exemplo, o autismo ser identificado pela cor azul pela maioria das pessoas, seguindo o pensamento equivocado de que só é possível que homens estejam dentro do espectro.

Por isso, também, há a infeliz normatização e repulsa aos comportamentos das pessoas autistas. Muitas das vezes, parentes de pessoas autistas tentam normatizar o comportamento dessas pessoas, numa tentativa de reprimir comportamentos oriundos das características autistas (como por exemplo, os “stims”, que são movimentos repetitivos usados como regulação dos estímulos sensoriais pelas pessoas autistas) e garantir um comportamento “normal” do familiar dentro de casa e perante a sociedade. Juno Dexter nos conta um pouco sobre isso:

“O maior desafio é o preconceito das pessoas com meus trejeitos estranhos e meus stims (estereotipias) ou meus hiperfocos. Sofri muito bullying dentro e fora da escola por ser considerado “estranho” e “muito obcecado” pelos meus interesses, a parte mais difícil é lidar com a maldade dos outros sobre minha neuro divergência, teve gente me tratou que nem um animal. Isso também dói.”

O hiperfoco é, como o nome diz, foco excessivo em alguma atividade, hobby ou material de entretenimento que a pessoa esteja gostando em determinada época. É necessário que ele não seja motivo de bullying e/ou perseguição de pessoas neurotípicas pois o assunto é importante para o autista. Infelizmente relatos como esses são comuns, pela falta de empatia e informação das pessoas em geral, além da possibilidade de falta de respaldo por parte dos responsáveis pela pessoa autista para/com ela.

É nítido que a propagação de informação errônea sobre o assunto e o tabu que ronda o debate de neuro divergências são grandes contribuidores para os males que acometem pessoas autistas.

Para além disso, é comum pessoas autistas serem transgressoras por questionarem ou simplesmente não se importarem com os padrões societários, o que as permite, inclusive, ir além aos padrões de gênero.

“Normas sociais não são algo tão sólido para nós como para outras pessoas, portanto pra mim é simples usar um vestido e ter barba enquanto as pessoas têm o estômago revirado por isso – e eu não tenho a menor ideia do porquê! Eu entendo que existam essas normas e eu não ataco as pessoas, mas as pessoas que participam das hegemonias cisgênera, hétero, binária, branca etc tendem a achar que tudo que fazemos é pra elas quando na verdade ninguém liga. Pessoas autistas e trans são transgressoras porque têm a habilidade de focar no que importa: se sentir bem sem machucar os outros ou a si mesmo.”, afirma Fernando Ghiaroni.

Outro fator que perpassa o debate de gênero e autismo é um duplo preconceito que a pessoa pode sofrer. De acordo com Dexter:

“Não sei quanto aos outros, mas o autismo não foi um fator importante pra que eu me definisse trans, mas ambos os preconceitos (contra autistas e contra pessoas trans) se interseccionam também na hora de agredir às pessoas que além de trans, também são neuro divergentes, mas acredito que os aspectos e características do autismo não tenham me ajudado ou atrapalhado quando me descobri trans, eles só… tavam aí, fazendo parte de mim também.”

Para combater isso, o mais importante é dar espaço às pessoas autistas para falarem sobre suas pautas. Autistas são capazes de dizerem por si mesmes, é importante que saibamos ouvir como as pessoas se sentem sobre suas causas para que possamos avançar em qualquer tipo de debate.

“Ouçam autistas, leiam autistas, nos dêem voz e espaço. Nos ajudem a obter meios para falar sobre nós e nossas vidas. Sei que para uma pessoa neurotípica pode parecer uma boa ideia reprimir nossos comportamentos e nos forçar a copiar o comportamento neurotípico para nos “incluir”, mas forçar uma pessoa a mudar às custas da saúde mental e bem estar dela para só assim ser aceita em sociedade não é inclusão. Compreender que podemos ser perfeitamente felizes e saudáveis como somos é essencial. O comportamento autista não deve ser motivo de vergonha ou repressão e não se deve presumir incapacidade de nenhuma pessoa por causa dele.”, sugere Fernando França.

Para concluir nossa matéria, reunimos, com base na nossa conversa com os participantes algumas coisas sobre autismo que você deveria saber:

– A cor que representa o autismo não é e deve ser somente azul! Muitas das pessoas autistas, preferem o arco-íris que abrangem todos os grupos sociais.

– O símbolo do “quebra-cabeças” não é adequado, pois faz alusão à pessoas autistas terem a “normalidade” fragmentada. O que é completamente equivocado e ofensivo de se dizer. O correto é um símbolo do infinito com as cores do arco-íris.

– Não exija que pessoas autistas olhem em seus olhos. Muitas dessas pessoas sentem mais dificuldade em se concentrar no que está sendo dito quando fazem contato visual direto.

– Não exija que pessoas neuroatípicas saibam sobre convenções sociais e tenham a expressão de sentimentos condizente com sua expectativa.

– São chamadas de shutdown (termo em inglês para desligamento) as crises em que o autista apresenta dificuldades para falar e realizar atividades. Elas devem ser respeitadas e não se deve forçar quaisquer atividade da pessoa durante elas.

– As meltdowns (termo em inglês que significa colapso) são crises violentas, onde a pessoa costuma ser agressiva. Geralmente essas crises acontecem pelo esgotamento físico e mental da pessoa em que luzes, sons e ou algum desconforto, trazem a ela. É importante que essas crises também sejam respeitadas.

Por: Theo Souza (@euotheo) & Isabel Codá (@bel.coda)


Portal Trans Br
Primeiro portal de informação crítica, debate interseccional e com entretenimento inclusivo feito por um homem trans negro do Brasil.