SSEX BBOX

SSEX BBOX

[SSEX BBOX] é um projeto de justiça social, lançado em 2011, que procura dar visibilidade às questões de gênero e sexualidade em São Paulo, São Francisco, Berlim e Barcelona, cujo objetivo é fornecer instrumentos para a expansão da consciência, reduzir o isolamento, facilitar a educação, estimular a criação de comunidades e questionar antigos conhecimentos sobre a sexualidade e gênero, focado na temática / população LGBTQIA+.

RESPEITE A BELEZA TRANS NEGRA

Ser uma pessoa negra no Brasil é enfrentar diariamente o racismo velado ou não que muitos insistem em dizer que não existe.

Sendo o racismo uma questão estrutural da nossa sociedade, não nos surpreende que ele esteja impregnado até mesmo entre os movimentos não só trans, como LGBTQIA+ em geral.

Em entrevista com a Equipe do Portal Transgêneros BR, Gabe Bezerra nos conta um pouco do racismo que pode ocorrer dentro e fora do meio trans:

“Dentro do meio trans não percebi racismo marcado ou direto (faço parte de um grupo trans da Bahia onde a maioria dos homens são negros, então o racismo direto é menos presente), mas fora do meio, percebi o racismo quando uma vez ouvi de uma garota que “todos os homens trans eram bonitos”, mas que mudou de ideia quando viu alguns homens trans negros. Também, pelo favoritismo que percebo quando colegas meus conhecem homens trans brancos e os elogiam, e a mim os elogios acabam sendo à minha inteligência ou qualquer outro traço que não seja físico. Não quero com isso dizer que são obrigados a me achar bonito, mas quando é racismo, você sabe perceber.”

Essa fala não se limita apenas a pessoas de fora do movimento trans. Entre pessoas trans, é normal que a beleza padronizada (leia-se: branca e ‘’padrão”) ainda seja exaltada, em contrapartida com a invisibilidade negra.

Durante a descoberta da transgeneridade, é usual a busca por alguma representatividade, alguma identificação enquanto pessoa negra e trans em processo de descoberta e aí onde se verifica o racismo. A imagem de pessoas trans brancas predomina:

“Percebo o racismo velado pela falta de informação que era passada, pelo menos pra mim quando comecei. Todo mundo citava exemplos de caras trans brancos, e mostravam fotos. Eles se esquecem de que há também exemplos de homens trans negros” Diz Arthur Eguchi para o Portal.

Há também o racismo direto, que ocorre após transição como o caso do Kyem Araújo que, após tomar consciência racial, percebeu o peso de ser um homem negro na sociedade:

“Obviamente, poderia extrapolar algumas extremidades e dizer que o racismo e a transfobia possuem algumas faces semelhantes, mas isso não quer dizer que no meio trans não exista racismo ou que por compreenderem que na sociedade usa seu próprio corpo como ferramenta para deslegitimar sua capacidade, este meio seja de algum modo blindado de ser/cometer racismo.

Vou usar referência como Léo Peçanha que diz: ” Deixei de ser objeto para ser ameaça”. Antes da transição percebia o racismo de forma objetificadora e sexual que deveria corresponder aos ideais racistas de mulher negra que com curvas extremamente bem definidas, bundão, disposta, disponível como a ideia da “mulata exportação”.

Agora, percebo que nem sempre consigo entrar em espaços sem ser tratado como ladrão. Há dois dias mesmo o segurança do Sacolão Saúde localizado no Centro de São Bernardo do Campo disse que era um procedimento da loja ensacar e lacrar a bolsa dos clientes, mas quando olhei dentro da loja não havia nenhum outro cliente na mesma condição e pasme ou não, todos os clientes eram brancos. Revidei dizendo que me nego a gastar meu dinheiro em locais que de antemão me tratam como bandido, já que por ser procedimento algo estava falhando, pois não havia nenhum outro cliente na mesma situação constrangedora.

Percebo sempre o olhar de desconfiança, olhar de medo e o comportamento de esconder bolsas ou mudar de lado quando sento no banco do ponto de ônibus. Aparentemente, minha leitura realocada de homem negro na sociedade é de tudo, menos apenas um cliente ou passageiro à espera do transporte para ir para casa.” Desabafa.

No que diz respeito às travestis e mulheres trans negras trans, nossas entrevistadas nos contam como foi a tomada de consciência racial:

“Passei a ter consciência racial, há uns 5 anos atrás, quando notei que muito do que outras pessoas negras relatavam ter vivido, também fizera parte de minha história de vida, desde bullying na infância por cabelo 4c, e traços negroides, até por exemplo o preterimento por ser racializada.

Acho que faz sim, mas ainda não faz o suficiente, não basta não ser racista, é preciso ser anti-racismo.

Bom, eu sofro essas violências no dia a dia, infelizmente é parte da minha rotina, mas muitas das vezes elas são difíceis de serem identificadas, porque as vezes elas vem fundidas de uma só vez, e em outro momento sozinhas, mas sim, racismo e transfobia velados, e escancarados sentidos na pele, sempre.” Diz Odara Soares.

“Quando se fala em mulher trans, logo vão associar à imagem de uma mulher branca. Eu tomei consciência racial quando eu passei a me ver não só como mulher trans, mas como uma mulher trans negra. Daí passei a abrir meus olhos para questões raciais e não só sobre questões relacionadas à transgeneridade” Relata Luna Oliveira.

A representatividade na mídia é um assunto importante a ser discutido, principalmente quando nos tratamos de pessoas trans negras. Há inúmeras referências de pessoas trans famosas, porém são poucas as negras. Isso resulta em falta de identificação por parte dessa população com alguém semelhante, o que seria reconfortante e, de certa forma, empoderador. Podemos acusar a transfobia e o racismo, porém o racismo insere um peso maior nesta equação: com a intolerância, mesmo velada, atuando incessantemente podendo até se difundir com a transfobia – ainda mais em ambientes cisheteronormativos, como, de lei, é onde se faz entretenimento/política/etc no Brasil (ao contrário de outros países, como Estados Unidos, onde há celebridades trans negras).

Sobre a importância da representatividade, elas declaram:

“Acho muito importante! Nós pessoas trans e negras sofremos coisas a mais, não tive referências de pessoas negras na minha descoberta do meu gênero, só depois de um tempo que vi muitas, e muitas referências de luta. Hoje sou uma das referências. Inclusive agradeço Erika Malunguinho e Erika Hilton, travestis que mais me mostraram da nossa luta.” Disse Cunnany Corontenho.

“A importância da representatividade trans negra pra mim é muito importante, porque nosso meio LGBT infelizmente ainda é muito tóxico, exige e reforça padrões construídos sobre a branquitude nos quais eu passei a vida inteira tentando me encaixar (inclusive, antes do despertar da consciência racial, e nunca ter conseguido de fato, mesmo tendo a pele clara, nunca fui lida como branca) então tudo isso faz mal de mais, é tóxico de mais, e reforça a solidão, a depressão e todas as problemáticas que pessoas trans já vivem por serem trans, e pessoas negras já vivem por serem negras” Conclui Odara Soares.

É importante, porém, valorizar a representatividade política e midiática que temos através de referências como a já mencionada Érika Malunguinho, Érika Hilton, Neon Cunha, Jacqueline de Jesus, Danna Lisboa, Candy Mel, Liiniker, Mc Xuxu, dentre outres. Principalmente quando nos encontramos num cenário político onde tentam permanentemente desmantelar nossos direitos.