POR HELENA VIEIRA

POR HELENA VIEIRA

Helena Vieira é pesquisadora, transfeminista e escritora. Estudou Gestão de Políticas Públicas na Universidade de São Paulo. Foi colunista da Revista Fórum e contribuiu com diversos meios de comunicação, como o Huffpost Brasil, Revista Galileu (especial sobre transexualidades) e Cadernos Globo (Corpo: artigo indefinido), participando das discussões sobre a novela Força do Querer. É colaboradora do [SSEX BBOX] Brasil. Recentemente, contribuiu com artigo para o livro “Tem Saída: Ensaios Críticos sobre o Brasil” e “História do Movimento LGBT no Brasil” e com o livro ” Explosão Feminista”, organizado por Heloísa Buarque de Holanda.

NOTAS DE INCERTEZA: LUTAR EM TEMPOS DE BOLSONARO

O processo que levou a eleição de Jair Bolsonaro merece toda a atenção de nossas lutas, por muitas razões, que vão muito além da perda de direitos e caminham no sentido de constituir um ativismo capaz de responder, criativamente, a isso. 

É preciso que nos dediquemos política e intelectualmente a compreender o encadeamento caótico dos acontecimentos, estando abertas, inclusive, a abrir mão do apego a esta ou aquela forma de constituir nossa luta feminista. 

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O Abismo – Paralaxe. 

Parece haver um imenso abismo entre nós e os eleitores de Bolsonaro, os milhões que eles são. E é um abismo insustentável. Ainda que insistamos no rompimento de amizades, ” eles” estarão na padaria, no mercado, no trabalho, na escola, no banco, na universidade. São milhões e frequentemente dividem o mesmo espaço conosco. Habitamos o mesmo mundo.

” Eles” não podem ser identificados por este aquele signo. Há mulheres, gays, negros e toda uma constelação das “minorias” simbólicas que nossas lutas acreditam e tentam “representar”. 

Aumentar a distância entre um suposto ” nós” e ” eles” é o caminho mais rápido para um desastre ainda mais radical, que é nosso isolamento. O desafio neste momento, penso eu, consiste em encontrar maneiras de constituir uma relação com estas tantas pessoas que identificaram em Bolsonaro uma resposta para suas mazelas. Reduzir o abismo. Movimentar-se até o outro extremo, ou, ainda mais radical e geologicamente, por fim ao abismo unindo os territórios opositivos. 

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A desmoralização necessária. 

A defesa da vida. A defesa dos oprimidos. A defesa da democracia. O fim da desigualdade. As políticas sociais. Estas defesas não podem ser simplesmente morais, deixemos a moralidade impositiva para as religiões. A moralidade destas defesas pode transformá-las em significantes vazios e propostas radicalmente antagônicas entre si poderão ser significadas como ajustadas a isso. 

Noutro sentido, é importante termos em mente: Não há mérito universal ou elemento de distinção nenhum em ser militante ou ativista do que quer que seja. Não podemos continuar esperando que as pessoas defendam isso ou aquilo por razões morais. 

É preciso abandonar essa superioridade moral, distanciada e boba, para relembrarmos que nossas ideias, para que ganhem as pessoas, precisam ser expostas. As pessoas precisam entender os caminhos que nos levam a crer que sejam as melhores ideias. 

Frequentemente a nossa ” superioridade moral” beira o elitismo. E frequentemente pensamos que, se alguém discorda disso ou daquilo é porque ou não sabe o suficiente ou não entendeu. Essa é uma postura dogmática. E bem, se temos sido até aqui dogmáticos e nos fodemos, é bom começarmos a constituir outras formas de ser. 

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A briga pelo sentido.

Teremos o árduo trabalho de responder e traduzir o sentido de feminismo e esquerda para os que chamamos ” eles”. Não será uma tarefa simples. Cabe tudo e cabe nada. Quiçá tenhamos que inventar novos sentidos, deformando os conhecidos, ou, melhor ainda, permitindo que a escuta das vozes que ecoam por e do abismo nos deformem.

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O punitivismo do quanto pior melhor

É hora de parar de dizer ” Eu avisei” ou ” Quando o Bolsonaro ferrar todo mundo e acabar com os direitos das pessoas, então elas verão que estamos certos”. Gente, percebe a lógica punitivista implícito neste discurso? Será pelo sofrimento advindo do erro que o sujeito aprenderá. Além disso, é pura inação, né? Se queremos que algo aconteça é preciso organizar as lutas, uai, e pra isso talvez seja preciso olhar para as práticas que construímos ao longo do tempo e perceber se respondem as formas de dominação do nosso tempo. 

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” Eu prefiro não” 

A famosa frase de Bartleby talvez nos dê uma pista sobre como reagir as estratégias de fake news e polemização incessante. Recusemos. Temos sido até aqui reativos. Maus reativos. Anunciamos um mundo que se assemelha a um paciente terminal e então vivemos reagindo as crises que aparecem.

Temos sido feministas e militantes de esquerda absolutamente promotores de afetações negativas, que, se por um lado geram comoção, conjunturalmente produzem desesperança, medo e dor.

Recusemos debater nos termos que nos ofertam. Recusemos responder as provocações que nos fazem. Inventemos.

Esse texto é continuação do texto Lutar anda impossível. Para ler acesse o link.