SSEX BBOX

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[SSEX BBOX] é um projeto de justiça social, lançado em 2011, que procura dar visibilidade às questões de gênero e sexualidade em São Paulo, São Francisco, Berlim e Barcelona, cujo objetivo é fornecer instrumentos para a expansão da consciência, reduzir o isolamento, facilitar a educação, estimular a criação de comunidades e questionar antigos conhecimentos sobre a sexualidade e gênero, focado na temática / população LGBTQIA+.

ENTREVISTA CORPOS POLÍTICOS: TRANSGORDORIDADE EM PAUTA

É indiscutível que o fato de ser uma pessoa trans já é, consequentemente,  enfrentar tabus e desafios em nossa sociedade. Ser uma pessoa trans gorde em uma estrutura capitalista onde os padrões são necessariamente cis-magro-branco e europeu, para sustentar e reproduzir uma ideologia dominante é romper com essas normas em nome da própria saúde mental e física, da sua autoestima e sobrevivência. Os desafios que estes corpos enfrentam em uma sociedade que é gordofóbica em nome da “saúde” e estética revela a importância da desmistificação do padrão de beleza dominante, apoiado muitas vezes por profissionais da medicina e até mesmo outras áreas da saúde – assim como a cisnormatividade -, em prol da dignidade e bem-estar dos indivíduos.

A partir disso, nós do Portal Transgêneros Brasil (@portaltransbr) decidimos realizar uma entrevista com algumas pessoas inseridas nesses marcadores sociais – dentre elas, mulheres trans, homens trans e não-bináries – interseccionando estes assuntos, colocando o corpo trans gordo em pauta e dando voz a quem, por vezes, é silenciade.  Segue na íntegra: 

1) Quais você acha que são os desafios ou impactos de um corpo gordo passando por uma transição – o que não significa se hormonizar, necessariamente – onde padrões de magreza e gênero que pairam sobre a sociedade podem influenciar em nosso desenvolvimento pessoal e autoestima? 


Sayonara Nogueira:
Vivemos hoje uma ditadura da beleza, onde somente o corpo magro pode ser considerado bonito e os padrões de beleza trans que são mostrados pela mídia também tornam-se um padrão, desde Roberta Close que foi minha referência até as tops trans do momento. Normalmente são mulheres trans altas, com silicone no corpo, além de hormônios e até correções estéticas. Eu sempre fui uma pessoa que lutou contra a balança, que já experimentou as dietas mais estranhas que possam existir e tomou todo tipo de medicação para emagrecer. Quando decidi finalizar minha transição, primeiro decidi que precisava emagrecer, pois até então não conhecia nenhuma trans gorda. Tomei remédios fortíssimos e cheguei a perder 30 kgs, fiz laser no rosto, porque a ausência do pelo também era um fator categórico para minha transição final. E foi só a partir deste emagrecimento que comecei a tomar doses cavalares de hormônios e sempre me auto clinicando. E é recorrente essa prática, muitas pessoas trans gordas que me procuram, sempre me dirigem alegando que vão emagrecer primeiro para depois iniciar o processo de transição, para encaixar dentro da caixinha, ou até mesmo, evitar algum tipo de bullying que pode vir também de dentro do movimento LGBT, e o que acaba refletindo na saúde mental da gente, e sobretudo, na nossa autoestima. 

Em contrapartida, Ricardo Souza e Pedro Pascoal respondem à essa questão relatando suas vivências enquanto homem trans e pessoa não binárie, respectivamente: 


Ricardo Souza:
Por muito tempo achei que o problema com o meu corpo era por ser gordo, depois de aceitar meu peso, ainda tinha o problema de não me encaixar no padrão feminino e aí então consegui ver minha disforia de gênero. Novamente passei pela questão de não me encaixar em um padrão, porque se antes eu não tinha um corpo muito feminino agora era completamente ao contrario por ter seios grandes e quadris largos aí mesmo que não tinha um corpo masculino. Um cara trans magro pode usar uma blusa maior para esconder o corpo. Eu já não posso. Não tenho essa “liberdade”. 


Pedro Pascoal:
Eu sinto como maior impacto a grande pressão social que para eu ser lido como homem ou no mínimo masculino nessa sociedade eu preciso me enquadrar no estereótipo de homem perfeito: musculoso, galã de novela e com os músculos saltados trabalhados em academia. Isso eu sinto como um grande peso. Minha gordura se acumula muito na região do quadril, deixando-os bem largos e meus “intrusos” ¹ são grandes e caídos, o que acaba por me dar contornos vistos como femininos e interferindo na visão dos outros perante o gênero com o qual eu me identifico. 

A seguir, Gabriel Carvalho e Nocturne Francine narram suas vivências em relação a influência dos padrões, que são expressos muitas vezes em opiniões, em sua autoestima e saúde mental. 

 2) Você acha que a opinião alheia em relação ao seu corpo em seus relacionamentos interpessoais (relacionamentos amorosos, amizades, família, etc) te afeta de alguma forma? Você costuma enfrentar algum tipo de situação incômoda em seus relacionamentos devido a isso? 


Gabriel Carvalho:
Estaria mentindo se dissesse que não sofro nenhum tipo de disforia, mas reconheço que meu grau é super baixo. Sempre é em relação aos meus seios, sonho em fazer mastectomia. O preço por viver bem consigo mesmo é alto, vai desde olhares maldosos, até saber filtrar comentários nas redes sociais. Uma das coisas mais difíceis em se enfrentar enquanto pessoa gorda são roupas. Tenho o privilégio de ser um gordo menor, porém ainda assim é difícil ir em alguma loja e encontrar roupas que sirvam. Geralmente, a sessão de “tamanhos especiais” são horríveis e custam o dobro do preço. O medo em não passar numa catraca é surreal, morro de medo em ficar preso, pois já imagino os piores cenários possíveis. E também já enfrentei o problema de não fazer as sobrancelhas, pois a maca do profissional não “me servia”. Isso sem contar em situação que procuro algum tipo de médico para cuidar de algo simples, como uma dor de ouvido e saio com um guia para uma cirurgia bariátrica. Mesmo a OMS dizendo que o peso não tem nada a ver com saúde, muitos médicos ignoram isso. 

Referência: http://news.yorku.ca/2018/07/12/study-obesity-alone-does-not-increase-risk-of-death/  


Nocturne Francine:
Hoje, felizmente tenho amigos que me amam muito, mas apanhei demais da vida até conhecer pessoas boas. Admiro muito quem consegue não se importar com a opinião dos outros, mas após tantos anos de reprovação, isolamento e repressão, sempre bate um certo medo. Não me importo com a opinião de estranhos, colegas e etc, mas em situações como tirar foto de um documento ou uma entrevista de emprego me deixam agoniade. Estar com meus parentes também me agonia, principalmente pois é fácil de perceber a desaprovação quanto à minha pessoa e meu corpo. 

3) Você acha que os padrões sociais têm um impacto na sua vida? De que forma? Você acha que as redes sociais contribuem pra isso? Como? 


Pedro Pascoal:
Diretamente. É só olhar as grandes páginas sobre transgêneros. As fotos de pessoas trans admiradas são as quais? Dos corpos padrões. É do homem trans mastectomizado, com tronco largo, músculos, barba cheia, branco na maioria das vezes, quadril reto. Das mulheres trans é o peitão, a cintura fina, bundão, também esculpida na academia. Os corpos gordos ainda são muito deixados de lado. Os corpos não binários mais ainda. São só vistos como não binários os corpos andróginos e mesmo assim magros em sua maioria. Aquele que parece meio a meio. O corpo gordo ainda é motivo de piadas nas redes sociais. O corpo trans gordes ainda mais. 


Sayonara Nogueira: 
Sim, e impactam de maneira negativa. Passar por transfobia e gordofobia ao mesmo tempo é cruel, o que me leva a fazer tratamento para depressão, porque a gente percebe que está fora de algum padrão estabelecido. A vida torna-se mais complexa, como se eu tivesse algo a mais para me preocupar, porque se eu decido fazer uma caminhada hoje, as pessoas falam, se eu não caminho elas falam do mesmo jeito. As redes sociais tornaram-se grande bolhas, e as vezes, bolhas tóxicas, que podem atenuar um quadro depressivo ou reduzir ao máximo a autoestima de uma pessoa. Quando você pega por exemplo uma reportagem de uma mulher gorda, os comentários são horrorosos, cruéis, é como se a internet fosse uma terra sem lei, as pessoas expõem ali seu pior lado, para machucar e ferir. E preconceito e discriminação é ruim, machuca e a cicatriz que fica é na alma é incurável. 

4) Atualmente, você considera suas características enquanto trans e gorde como políticas. Por quê? 


Sayonara Nogueira:
. A sociedade é gordofóbica e ao mesmo tempo transfóbica, e quando observa um corpo gordo já associa a questões da saúde, da mesma forma que muitos também observam um corpo trans com algo “com defeito”. E para além desta questão da saúde, pessoas gordas são discriminadas por não encaixarem dentro de um padrão, que atinge, sobretudo, as mulheres cis ou trans, portanto, o movimento social deve abrir espaço de debate para as mulheres e homens trans gordes se colocarem como sujeitos críticos dessa padronização do corpo que a sociedade do espetáculo promove hoje e isso é fazer política. 


Bernardo Gael:
Sim, porque eu desisti de emagrecer pra me fazer de bonito. Inclusive, já passei por uma cirurgia bariátrica pra isso. Muito sofrimento pra estar num padrão que eu não faço questão nenhuma de estar. 

 5) Como você avaliaria a sua conscientização socio-política hoje e como você acha que isso contribuiu para a sua relação consigo mesme? 


Nocturne Francine:
Passei pelo processo de politização com pouca idade, o que foi bom, meu constante contato com a esquerda me levou ao contato com movimentos sociais, que por sua vez me levaram à meu autoconhecimento e aceitação. Antes de me aceitar gorde, me aceitei trans, o que é estranho, pois enquanto eu sempre tive plena consciência de meu físico, até seis anos atrás eu não tinha ideia sequer do que significava ser lgbt, quem dirá trans e não binário, não sei bem o porquê. Confesso que mesmo hoje sou insegure quanto a meu corpo, por mais que eu tenha plena consciência a respeito da importância da minha existência, é difícil estar 24 horas bem consigo mesme quando praticamente a sociedade inteira te trata como anomalia, mas apesar dos pesares, sigo vivendo e me amando. Como já citei antes, nosso modelo de sociedade é baseado em modelos pré-prontos, e entender que a vida e as pessoas não são uma equação imutável é de extrema importância. 


Ricardo Souza:
Creio que tenho uma visão clara, e isso contribuiu muito para eu ver que muitas das minhas cobranças eram mais da sociedade do que de mim. 

A partir de nossa entrevista, conclui-se a necessidade de desnudar os padrões e normas vigentes em nossa sociedade, que são oriundos de um projeto de sociedade excludente e cisnormativo  que produz uma sucessão de discriminações quais podem afetar a saúde física e mental dos seres que fogem da norma posta. Vivemos em coletividade, o que significa que ao longo de nossas vidas iremos nos deparar com pessoas diversas, de diversos pesos, gêneros, sexualidades, neurodivergências e inúmeras características plurais. Portanto, é importante darmos voz e representatividade a quem é silenciade perante uma ideologia cis-magra-branca e europeia para que possamos garantir o mínimo bem-estar e dignidade àqueles quais devemos o direito de uma vida sócio-política regular. 

Texto por: Portal Transgêneros Brasil (@portaltransbr), composto por Théo Souza (@euotheo) e Isabel Codá (@bel.coda). 

Indicações de texto:  http://www.editorarealize.com.br/revistas/conedu/trabalhos/TRABALHO_EV117_MD4_SA5_ID760_17092018134218.pdf
https://medium.com/revista-subjetiva/racismo-transfobia-e-gordofobia-o-amor-al%C3%A9m-da-fantasia-padr%C3%B5es-est%C3%A9ticos-em-rela%C3%A7%C3%B5es-amorosas-a808e11857f