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VIDAS TRANSVIADAS

Sem título-1

VIDAS TRANSVIADAS

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Por Tatiana Lionço
Foto Diana Blok 2014
Ilustração Michelle Braga

Vidas transviadas, estranhas à norma, são aquelas ininteligíveis, embora muitas derivações tenham sido já assimiladas pelas chamadas identidades sexuais. De qualquer forma muitas vidas ganham sentido apenas como o negativo do normal. É estranho pensar que a normalidade é uma abstração, uma ficção. Muito se descreve a anormalidade, como na classificação nosológica das psicopatologias em manuais médicos, ou na interpelação religiosa das pecadoras, dos abomináveis e pessoas endemoniadas. Os normais se tornam normais assim: apontando anormalidades. O normal, no entanto, se presume auto-evidente, ganha a força da natureza, do bom costume, da moral, da tradição. Fala-se muito sobre a moral e os bons costumes, sobre gente de bem, embora eventualmente surja o turbilhão de emoções quando essa gente normal também é interpelada anormal por meio do escândalo: olha só o que gente normal faz também!

Estamos expostos cotidianamente a imagens e discursos que naturalizam as relações sexuais e as expressões da feminilidade e da masculinidade. Quando se ousa enunciar ou apresentar relações sexuais e modos de ser distintos das imagens às quais somos bombardeadas diariamente, é comum que se questione o por quê da apresentação. “Os heterossexuais não ficam dizendo que são heterossexuais, não compreendo essa necessidade de auto-afirmação dos homossexuais”. Não é à toa que a política adotada pelo movimento LGBT seja a da visibilidade massiva, por meio das paradas do orgulho e dos beijaços. Tratam-se de vidas invisíveis a não ser na interpelação de sua anormalidade, vidas alheias à representação naturalizada do que haveria de ser o erotismo ou o ser humano. A coisa, no entanto, segue mais complexa. Nem só de LGBT se faz a diversidade sexual e em algumas condições a identidade é naturalizada e mascara a diversidade, as derivações singulares. A sociedade se choca também quando gays transam com mulheres. Ser homossexual, heterossexual, bissexual, afirmar qualquer identidade sexual não responde à complexidade da vida, da sexualidade, do laço erótico e das expressões de gênero.

Como costumo dizer, há mais gente no mundo. Talvez para o Estado sejamos todas e todos enquadráveis nas caixinhas homem, mulher, homossexual, travesti, transexual. Na vida, nem sempre, embora existam muitas pessoas que se posicionam exatamente no lugar da identidade compartilhável e também aquelas que afirmam a identidade como uma bandeira de luta coletiva. No entanto, há pessoas para as quais sequer é uma questão afirmar uma posição identitária em termos de desejo sexual e expressão de gênero. Algumas identidades sexuais e de gênero desviantes foram, nos últimos tempos, assimiladas, normalizadas, mas outras pessoas não são assimiláveis às identidades sexuais.

Há também normalização dos desvios e é sobre isso que gostaria de escrever: há mais gente no mundo. Que seja um espaço para multiplicidades, o mundo. Que possamos reconhecer as diferenças a partir de suas singularidades, e não mais apenas sob o jugo do território de pertencimento consentido para iguais, sejam estas pessoas iguais na normalidade ou na anormalidade assimilada. Que seja um mundo para multidões, para desvios permanentes que recriam a vida, o sistema, a história, os afetos e os laços. A minha utopia é justamente a da possibilidade do pertencimento na diferença, embora eu esteja descrente.

Nos últimos anos discursos marginais vieram romper o engessamento da enunciação científica e moral sobre a sexualidade e a subjetivação humana. Para além da apresentação pretensamente objetiva da verdade do sexo que a medicina tomou como sua atribuição a partir do fim do século XIX, novos discursos vieram enunciar positivamente as derivações corporais do sexo e dos modos de subjetivação relativos ao gênero e aos enlaces eróticos entre seres humanos. Não me refiro aqui ao conhecimento formal sobre, por exemplo, a transexualidade ou a intersexualidade, mas justamente àqueles discursos biográficos que problematizaram a fragilidade das identidades sexuais e suas derivações descritas nos moldes da psicopatologia. Kate Bornstein, Annie Sprinkle, Leslie Feinberg, Beatriz Preciado, Julia Serano, Del Lagrace Volcano, Diane Torr, Loren Cameron, Max Wolf Valerio. A lista poderia ser um tanto longa e ecoa multidão, embora tenhamos que resgatar e criar também narrativas biográficas e registros imagéticos latino-americanas para romper com a hegemonia do pensamento do norte. João W. Nery em sua autobiografia “Viagem Solitária” é um exemplo de como a narrativa de si pode sacudir a sociedade, tendo, no cenário nacional, viabilizado visibilidade massiva de homens transexuais ao contar a sua história, o que nos rendeu a emergência da crescente articulação política de homens trans. Queremos escutar mais histórias.

Há muitas vidas que permitem questionar a precariedade de nossos referenciais simbólicos e discursivos, incluso os acadêmicos, sobre o sexo e o gênero, alargando o campo de representação dos corpos sexuados, das expressões de feminilidade e masculinidade e das possibilidades eróticas. O corpo é uma realidade fática, ao mesmo tempo é revestido representacionalmente. O movimento corporal, sua gestualidade e os adornos que o revestem desenham representações sobre os modos de ser gente. O corpo representa muito, mas não apenas representa: ele apresenta. Existem muitas vidas fora da norma, na realidade fática dos corpos ou no modo como o corpo se põe em movimento na apresentação do que representa ou desconstrói simbolicamente. Há corpos que abalam o sistema.

Ao longo do tempo em que trabalho com políticas públicas e direitos sexuais fui por várias vezes questionada sobre a pertinência do meu trabalho com homossexuais e trans devido ao fato de eu não ser homossexual nem transexual. Só tenho a dizer que ser homossexual me interessa, ser trans também. Já vivi meu sexo homossexual, já vivi também a não correspondência ao sexo com o qual fui registrada ao nascer, sei um pouco sobre não ser exatamente uma mulher. Às vezes saio de boy pela cidade e me sinto bem, me sinto eu. Depois me acusam de exagerada quando me monto de mulher. Já tive também meus amores heterossexuais-homossexuais. Parece que a sociedade nunca sabe ao certo o que esperar de gente transviada, estamos fadadas à inadequação permanente. Considero equivocado supor que alguém poderia estar fora do que convencionamos denominar diversidade sexual e de gênero. Por isso tudo posso dizer que escutar pessoas supostamente normais, sejam heterossexuais,ou cis-gênero, também me interessa.

Penso as identidades sexuais como limitadoras das possibilidades de significação das apropriações singulares que fazemos da masculinidade e da feminilidade. No último ano, por uma série de coincidências e oportunidades, iniciei o uso da internet para o ativismo e entendo o que faço como cyberativismo independente e micropolítico. Passei a produzir e veicular regularmente imagens cotidianas, um registro virtual de minha rede de relações e espaços de pertencimento. Sou uma ativista independente no terrorismo de gênero. O termo terrorismo parece a algumas pessoas muito pesado, mas seu uso é proposital e provocativo, visa explicitar que há uma certa descrença nas vias formais de negociação de transformações sociais e políticas. Como se tivéssemos que ser um pouco mais radicais e, para conseguirmos espaço de representação em um mundo que tende às universalizações das representações, tivéssemos que impor certas imagens, forçá-las à visibilidade. Trata-se, portanto, de uma espécie de ataque estético, toda essa gente transviada existindo e resistindo.

Eu testemunho e registro o cotidiano de vidas fora da norma. Gostaria de compartilhar um pouco do meu universo transviado. Seja imageticamente ou na narrativa que busca sentidos, os registros das vidas desviantes me interessam e eu quero contar, compartilhar, simplesmente porque eu acho a vida tão interessante. Amo circular e alargar as bordas. Eu também quero saber sobre sexo, sobre masculinidade, sobre feminilidade. Eu quero muito pensar, escutar e falar sobre o amor. Eu queria saber sobre o erotismo e sobre as possibilidades de ser para além da realidade que nos vendem sobre sexo, sobre ser mulher, ser homem. Eu diria que somos muitas e muitos humilhados pela moral e pelos bons costumes.

Esta será uma coluna mensal, para compartilhar testemunhos de vidas que cruzam a minha vida, pessoas com quem de algum modo compartilho espaço de pertencimento social. Registrar ideias e fragmentos biográficos de ativistas me interessa, assim como de pessoas que estão invisibilizadas na luta política, mas que fazem pequenas revoluções na vida cotidiana simplesmente por existirem tais como são. Existir é uma forma de resistência, re-existir após a negação social, a desqualificação moral. Quero apenas conhecer e contar vidas à deriva. Acredito que seja o mais importante a fazer no momento.

About The Author

Tatiana Lionço (Brasília), Psicóloga, mestre em Psicologia Clínica e Doutora em Psicologia pela Universidade de Brasília (UnB). É docente e pesquisadora no curso de Psicologia na Universidade de Brasília (UnB). Autora de diversos artigos sobre direitos à saúde de pessoas transexuais, enfrentamento da homofobia na educação e co-autora dos livros “Homofobia & Educação: um desafio ao silêncio” e “Laicidade e ensino religioso no Brasil”. Integra a Cia Revolucionária Triângulo Rosa. Atualmente pesquisa laicidade e fundamentalismo religioso e integra também o Movimento Estratégico pelo Estado Laico. >>> foto Diana Blok 2014 & Ilustração Michelle Braga

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3 Comments

  1. Katia Viula

    Muito bom! É interessante que todos tenham visibilidade. Afinal, o mundo é plural. Algumas de suas pluralidades no campo sexual e de gênero talvez desconheçamos. Portanto, esta sua iniciativa possibilita um descortinamento neste sentido. Dando a todas as formas de amor, e manifestação sexual, e de gênero uma posição de destaque, visibilizando as formas até então escondidas. Deixo aqui a minha página de literatura lgbt no facebook : https://www.facebook.com/textoslgbt?fref=ts que é uma tentativa minha de valorizar a comunidade lgbt, oferecendo um cantinho de inspiração e consolo com relação ao tema afetividade, erotismo e direitos civis. Costumo usar o meu facebook que é Katia Viula para fazer denúncias contra a homofobia, a misoginia e o racismo, e também para fazer reivindicações que envolvam o tema cidadania de uma maneira geral.

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